Lu Genez – [A morte é íntima demais para caber num espetáculo]

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Lu Genez


“A morte é íntima demais para caber num espetáculo.”
Jefferson Tenório


Cerca de 50 milhões de células do meu corpo, morrem diariamente
Afundam-se em flagelos e naufrágios próprios,
No atrito da pele com as roupas que tento amaciar,
E mesmo assim, machucam mais que o devido,
que o grito e o frio
Arrancam de mim pedaços fatais, desejos finais.

E vou perdendo o jeito de existir,
E me caibo pequena e silenciosa
Num canto qualquer de escuro.
E não tenho mais seus olhos sobre os meus.

A morte é sempre uma ofensa. Uma senhora sádica
de majestosos rodopios, sobre um chão gasto de desculpas
Manchado de gozo seco e memórias de outros antigamentes
E tudo me escapa, entre hoje e amanhã

E vou perdendo o jeito de existir
E me caibo pequena e silenciosa
Num canto qualquer de escuro
E não tenho mais teu corpo montado ao meu.

Preciso extirpar tua ausência, eutanasiar-me diante de um colossal espelho vermelho,
Amputar um pedaço da pele nua, que teima em lembrar da tua,
Transformar a falta em noite, e amanhecer no primeiro dia depois do outro.
Que o sangue se confunda com a moldura, que pinte e se funda ao osso.

E vou perdendo calor
E me caibo em dedos e delitos
No lado direito da cama vazia
E não há espetáculo na bilheteria.

Esse é o meu decreto de segredo

02.Abril.22

Lu Genez, Curitiba, PR, é poeta escritora, e Livre Pensadora.

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