Lou Reed, Sete Anos Após a Vida

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Genecy Souza


Em 27 de outubro de 2020 registra-se o sétimo ano da partida do poeta, compositor, guitarrista e fotógrafo Lou Reed, aos 71 anos, após um longo período de luta contra uma doença em seu fígado transplantado. Na verdade, ele passou toda sua vida desafiando a morte. A julgar pela sua última foto vivo, Reed mostra o punho, deixando claro que nunca teve medo dela.

E é essa mesma foto que ilustra a edição no. 1 da revista mais que alternativa Gatos & Alfaces, de janeiro de 2014, resultado de mais uma das maquinações de Barata Cichetto, membro fundador do site BarDoPoeta. Temos em comum a grande admiração pela obra do autor de Walk on the Wild Side, mas sem a babaquice típica de fãs e fanzocas.
Movido e comovido pela emoção da perda do genial e genioso rocker-raiz, tive que deixar de lado a minha natural timidez e, claro, incentivado pelo mentor da Gatos & Alfaces, publiquei o artigo Considerações Sobre a Vida e Lou Reed Segundo Eu Mesmo. O texto foi escrito de forma um pouco atabalhoada e descuidada, e publicado dessa forma. Coisa de amador.

De 27.10.2013 para cá, perdemos Leonard Cohen, David Bowie, Joe Cocker, B.B King, Chuck Berry, Aretha Franklin, Ginger Baker e Little Richard, só para citar alguns. O tempo cobra seu preço. As figuras cujas obras nos ajudaram e entender o mundo e a nós são cada vez mais raras. Lamentavelmente, seja no Brasil ou no exterior, esses poucos artistas que restam, salvo as devidas exceções de praxe, causam, ao menos em mim, sentimentos de vergonha, decepção e raiva.

Aqueles que eu tinha como verdadeiros heróis se renderam ao triste estado de coisas que assola o mundo inteiro. Se não se renderam ao politicamente correto, morrem de medo dele. A liberdade de expressão está cada dia mais regulada pelas patrulhas ideológicas que infestam a internet com ideias obscurantistas de causar inveja aos inquisidores da Idade Média. Em um passado não muito distante, esses artistas desafiavam o “Sistema”, hoje fazem parte dele. A Polícia do Pensamento, ficção em no livro de 1984, de George Orwell, hoje é algo real.

Um fato que ilustra bem o atual estado de coisas regidas pelo ideal politicamente correto, foi que, em maio de 2017, um grupo de estudantes de Ontário, Canadá, apresentou um pedido de desculpas(!) por terem incluído o clássico do rock Walk on the Wild Side (do álbum Transformer, de 1972) em uma lista de reprodução de músicas, em um evento de distribuição de passes de ônibus no campus da universidade. Os estudantes classificaram a letra da música como “transfóbica”. O fato chamou a atenção, causando uma reação a altura do disparate. Vale ressaltar que nenhuma reclamação havia sido feita por causa da reprodução da música.

A cada dia que passa, situações semelhantes aos dos estudantes cabeças-ocas canadense, acirram ainda mais a guerra cultural alimentadas por interesses escusos das mais diversas formas de arbítrio. A liberdade de expressão já pode ser considerada como uma forma de subversão. Lamentemos, pois.

Revisei e atualizei a matéria publicada na Gatos & Alfaces para este site. Fiz as devidas correções, sem no entanto comprometer a integridade do texto. Vamos a ele.

Definitivamente, 27 de Outubro de 2013, justo um dia de sol, não foi um dia perfeito. Não mesmo. Recebi a notícia da morte de um dos maiores ícones do rock ao som de A Gift, do álbum Coney Island Baby (1974). A canção é uma celebração à mulher – qualquer uma – sob o ponto de vista um tanto presunçoso, se não, bem humorado, mas em nada sexista: “Sou um presente para as mulheres deste mundo / […] É tão, ah, difícil assumir responsabilidades / Como um bom vinho, quanto mais velho fico melhor / E, veja, sou simplesmente um presente para as mulheres deste mundo”. Sempre sorrio quando ouço esta canção. Daí que surge na tela do computador inserções da mídia tratando do falecimento do meu/nosso herói, em Nova York, cenário de suas análises sobre a vida, a morte, as pessoas, a política, enfim, o mundo que nos envolve. A Grande Maçã e o Poeta sempre foram um caso de dependência mútua, de atração e repulsa, logo, sem possibilidades de cura.

Após checar a veracidade da infeliz notícia, deixei que uma lágrima rolasse, quando o CD player tocava Coney Island Baby, a qual dá título ao disco. Nela, Reed declara: “Sabe, quando eu era um garoto no colegial / Acredite ou não / Queria jogar futebol por causa do treinador / E todos aqueles caras mais velhos / Disseram que ele era malvado e cruel / Mas, sabe, eu queria jogar por causa do treinador / […] E o cara mais macho que eu conheci / Estava ao meu lado o tempo todo / […] Queria dedicar esta ao Lou e à Rachel e a todos os garotos da escola Primária 192 / Cara, juro que largaria tudo por você.”

Ao contrário do humor de A Gift, Coney Island Baby desperta em mim ou em qualquer pessoa dotada de um mínimo de discernimento, o sentimento de compaixão, ao não deixar de perceber o desespero do garoto personagem da música, diante de uma situação cujo desfecho é mais que previsível, visto que o caso se passa quase 40 anos atrás, e que não mudou tanto assim nos tempos que correm. Fica evidente, nas duas canções citadas, exemplos da diversidade de enfoques que a obra de Lou Reed é capaz de abranger. Tem siso assim, desde o The Velvet Underground. Dramas pessoais, imaginários/imaginados ou reais, ainda abrem e fecham as portas da percepção.

Fui apresentado a Lou Reed em meados dos anos 80, através de uma coletânea meia boca, a qual não despertou em mim maiores interesses – continha apenas “músicas legais”. A minha então limitada capacidade de análise ainda não permitia vôos mais altos. A pouca informação existente se limitava a das ou três revistas, e nada mais. A internet era a mais pura ficção científica. Ainda assim, o bonde andou. Um álbum póstumo – na verdade uma coletânea com gravações inéditas – do Velvet Underground e uma matéria na revista Bizz disseram a que vieram. O caminho agora era sem volta. O resto é conversa da boa.

Ao contrário de outros ídolos da música, como Bob Dylan, Jim Morrison, Leonard Cohen e John Lennon, a obra de Lou Reed guarda mais semelhanças (ao menos na essência) com a do beatle, ao fazer uso de uma forma mais direta de análise pessoal, social, política e – por que não? – filosófica sobre quase tudo. Por outro lado, enquanto o Amante da Paz e marido de Yoko Ono, volta e meia se perdia em polêmicas, paradoxos, contradições e hipocrisias, Lou Reed preferiu carregar nas tintas, a começar pela fase em que é líder do Velvet Underground, na segunda metade dos anos 60. Havia algo além do sol da Califórnia e do Poder da Flor, que hippies sorridentes preferiam ignorar. Reed e sua trupe construída na Factory de Andy Warhol, declarava, em altíssimos decibéis, numa cacofonia, através de letras escancaradamente explícitas, como um tapa na cara, temas como sadomasoquismo, orgias, drogas pesadas, miséria, medo, desamparo, fome e morte. Sexo, drogas e rock and roll. Literalmente. As metáforas ficavam em segundo plano.

Eu gosto da quebra de paradigmas, da contestação de (falsos) valores, da fuga dos lugares comuns, físicos e abstratos; da dispersão do efeito manada. E, neste mal parido século 21, com fortes traços de Idade Média, a figura de Lou Reed simboliza uma forma de resistência individual e de independência de opinião, replicadas pelos milhões de indivíduos mundo a fora, que preferem vê-lo, embora lamentem, na forma como ele realmente é, e não o Admirável Mundo Novo Politicamente Correto, na verdade uma ditadura, que estabelece padrões de comportamento pré-fabricados, intercambiáveis e mutáveis, conforme a onda do momento. Vivemos um caos high tech, não o futuro apresentado pelos Jetsons nos anos 60. Se fosse nosso contemporâneo, George Orwell reescreveria 1984.

Lou Reed não me ensinou nada. Não percebo nele a intenção do mestre. Nas sua crônicas da vida real ele não me apontou qual rumo seguir, fazer assim assado, nem ser de direita ou de esquerda, tampouco levantar bandeiras, seja pela causa A, B ou C. O mundo possui formas, dimensões e cores reais. Ainda assim, há espaço para alguma beleza, gestos de amor e de compaixão. Evitei o erro de vê-lo como um guru, um messias. Tudo que fiz, faço e farei, é ler e ouvir sua imensa obra, comparar e tirar minhas conclusões. Gosto de ser o dono das minhas opiniões, afinal, os erros e acertos delas advindos serão todos meus. Digamos que Lou facilite as coisas. Eu tomo nota. Já dei minhas voltas pelo Wild Side, mas numa escala bem menor, é claro.

Outubro de 2013. Um cortejo fúnebre imaginário segue a altura do no. 125 da Avenida Lexington. Em ambos os lados da via, amigos vivos, mortos e fictícios, acenam com lenços brancos. John Cale, Sterling Morrison, Nico, Andy, Waldo Jeffers, Suzanne, Severine, Candy, Caroline & Jim (and the kids), Del-more, Lady Godiva, John Kennedy, Iggy Pop, Sally, Jesus (o Cristo), David Bowie, Jane, Jenny, Brigid, Stephanie, Rachel, Lady Day, Doc Pomus, Maureen Tucker, Sylvia, Billy, George, Harry, Dâmocles, Patti Smith, Juliette & Romeo, Lulu, Laurie, Jimmy Scott e Edgar Allan Poe; putas, gays, travestis, drogados, losers, “gente normal”, além de um sem número de rostos anônimos, dão adeus ao homem imperfeito que os retratou de forma perfeita. Ou quase.

“Manhã de domingo e estou caindo
Sinto algo que não quero saber
Cedo amanhecer, Manhã de domingo
São todas as ruas que você atravessou, não há muito tempo atrás.”
Lou Reed / John Cale ,1966

Texto publicado na 1º edição da revista “Gatos & Alfaces“, Janeiro 2014

(Texto Publicado  Originalmente no Extinto Site “BarDoPoeta, em 2020)

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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