Olavo Villa Couto – Jorro

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SINOPSE:

Bem, aqui está o “Jorro”, um texto escrito com maestria, sinceridade e emoção por um escritor absolutamente fantástico, que consegue criar um personagem rico, que a tudo justifica com suas mazelas, tal qual o homem do subsolo de Dostoiévski Impressionou-me foi como Olavo, avesso à poesia, complementou quase todos os capítulos, com poemas que não tinham relação direta, mas que no final, parecem conversar com o texto. Afinal, o personagem afirma ser poeta. Seria uma vingança do autor contra a poesia e os poetas? Arquiteto por profissão, OVC, soube construir – ou seria destruir? – um personagem que, apesar de um caráter falho, sofre e busca nos elementos a razão de tudo, e no prazer a “salvação”. Um detalhe importante é que em “Jorro” nenhuma das personagens tem nome. Então, aqui está o Jorro de Olavo Villa Couto. Molhem-se! (Barata Cichetto)

O céu jorrava sobre nossos rostos o produto de seu orgasmo. Relâmpagos, trovões e ventos furiosos faziam a terra estremecer inteira e se sacudir num prazer absoluto e inigualável. Jorro!

As nuvens, como pregas de uma gigantesca buceta celeste, se contorciam despejando aquele líquido morno que nos encharcava de imenso prazer. A Natureza, naquele momento estava tendo um jorro de êxtase e ejaculava abundantemente sobre nós. Squirt!

AVALIAÇÃO
Genecy Souza

Eu não conheço Olavo Villa Couto, nunca o vi mais magro. Na verdade, desconfio que são poucos os que o conhecem de perto. Embora corra o risco de errar, presumo que o autor não é muito chegado à luz – real ou figurada –. A palavra luz denota clareza, limpeza, verdade, espírito aberto, honestidade. Bons modos, enfim. Quando exposto, ele até pode fingir alguma qualidade, exposta na vitrine da loja das hipocrisias, onde cada um compra o objeto que melhor lhe apraz.

Imagino o autor como aquele senhor de meia-idade com uma vida medíocre e sem troféus. Olavo é notado, mas nunca visto. Ele acha melhor assim. Não há disfarce melhor do que o anonimato. Não há roupa mais perfeita.

Em “Jorro”, esse forte compilado de aventuras e visões de mundo onde é impossível distinguir um fato fictício do real, Olavo Villa Couto mostra-se (fora a luz) como de fato é: lascivo, cínico, pérfido, sádico, sexista, cético. Para ele, o mundo tem cores predominantemente carregadas, escuras, lúgubres. E, como não poderia deixar de ser, o autor-personagem necessita de um corpo feminino para que sua figura tenha alguma importância, e suas vontades dignas do Marquês de Sade dêem algum sentido à sua (porca) vida. Olavo desafia a razão, a ética e até a fé. Ele é o dono dos próprios descaminhos.

Olavo Villa Couto, apesar do esgoto moral no qual vive, é um intelectual, filósofo, contista e analisa o mundo e as pessoas sem nenhum verniz e nenhuma concessão. Ele vive de emoções baratas. Suas parceiras não são melhores que ele. Em certos momentos tem-se a impressão de que são uma coisa só, tal o grau de lascívia e ‘desamarras’ morais, que justificam(?) a intensa troca de fluídos corporais em jorros, saídos de vaginas, pênis, ânus, bocas, poros, glândulas lacrimais, enfim. Fica entendido que tudo é válido nessa troca. Quem sabe até haja algum amor, mas é difícil deduzir. Na verdade, o Jorro é um amarrado ‘contos de fodas’, se me permitem o trocadilho sacana.

Jorrar é botar para fora. Até a chuva é um jorro, só que vindo de cima, e significa mais do que água que cai do céu. Na verdade, antes de demonstrar algum esgar pelos relatos do autor, cabe cair na real e imaginar que talvez haja algum Olavo Villa Couto dentro de cada um dos seres normais.

Jorro
Olavo Villa Couto
(Heteronômio de Barata Cichetto)
Romance
UICLAP, 2020
16 × 23 × 0,9 cm

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