Insônia

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Barata Cichetto


O que faço acordado às cinco da manhã, perguntou minha mulher. — Faço escritos, faço escritos — disse eu, constrangido por estar acordado numa ainda madrugada de domingo, enquanto a maioria das pessoas dorme o sono reparador das mágoas e cansaços da semana, outros chegam da balada bêbados e mal amados, e outros ainda acordam para ir à igreja distante em busca de algo tão perto. Mas é domingo, disse ela, com cara de sono, já que foi acordada pelo matraquear do meu teclado. A poesia não descansa, e não tem fim de semana; disse eu com cara de azedo. — Não tem descanso semanal remunerado, não tem férias nem décimo terceiro salário; completei com começo de irritação. Minhas gatas ronronam e se acomodam no meu colo e minha mulher desiste e retorna para a cama quente enquanto eu ainda espero pela inspiração que talvez chegue junto com os primeiros raios da manhã. O Sol sairá hoje, ainda penso enquanto olho o cursor solitário e idiota piscando na tela do computador e bato nas teclas esperando que o som acorde minha inspiração. Estou perdendo tempo, penso. Mas o tempo é a única coisa que um poeta tem a perder, porque é a única coisa que lhe pertence. ”Quem não tem nada, nada tem a perder”, disse o poeta na canção. E eu perdi a canção, perdi o tempo e perdi a hora. Estou atrasado. Que faço acordado às cinco e meia da manhã? Pergunta o Sol esfregando os olhos, enquanto a ultima estrela solitária ainda pisca. O Sol é o único que não perde o tempo nem perde a hora. E agora eu lhe respondo que esperava sua chegada, desejo-lhe um bom dia — talvez devesse desejar boa noite — e vou dormir. A poesia? Ah, bem, a poesia pode esperar até que chegue outra noite. Ou dia.

01/12/2012

Do Livro:
Pornomatopéias
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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