Imperial – A Grande Batalha e Seis Anos Queimando na Terra de Ninguém

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Barata Cichetto


Há décadas bato na tecla das letras em bandas de Rock, particularmente brasileiras. Muito falei, muito escrevi sobre o baixo nível delas. Escuto por parte de músicos as explicações mais idiotas e embasadas em aspectos técnicos discutíveis. E assim caminha a mediocridade dentro do Rock Brasileiro. E ninguém entende porque ele não chega a determinadas camadas da população, seja ás mais pobres e iletradas e que têm problemas sociais que o Rock, ao contrário do Rap por exemplo não atingem; seja ás mais cultas e ricas que não vêm no Rock o espelho de suas preocupações e vivências sociais, políticas e filosóficas.

Portanto, quando chega a minhas mãos e principalmente ouvidos um trabalho como esse da banda “Imperial” só tenho que comemorar. Em princípio achei estranho o nome da banda e até brinquei: “É uma homenagem ao Carlos Imperial?” (Produtor e compositor da década de 60 e um dos responsáveis pela introdução do Rock, de fato, no Brasil). Um amigo ganhou há uns dois anos um par de CDs em uma casa que freqüentava, mas como não era o tipo de som que gosta deixou de lado. Há uns dias deu os CDs ao meu filho que me perguntou se eu conhecia a banda. Colocamos as bolachinhas para rodar e tomei até um susto, no bom sentido, com o trabalho.

Certo, no primeiro momento a gente percebe que a galera da banda adora Sisters Of Mercy e procura a mesma sonoridade, a mesma batida e o mesmo caminho. Até no instrumental, incluindo ai a famigerada Bateria Eletrônica que deploro em principio, mas que neste caso não compromete em nada a qualidade do trabalho. É “Gótico” e pronto. Não gosto de rotular estilos, mas às vezes para me fazer entender e ilustrar o que falo sou obrigado a recorrer a eles. Neste caso é necessário. E acho também que o pessoal envolvido nesse “Movimento” produz coisas muito fortes, pois são nítidas as influências poéticas dos chamados “Poetas Malditos” como Byron, Álvares de Azevedo, Poe e outros, além de músicos como Paganini.

A banda “Imperial” aposta nas letras fortes e engajadas filosoficamente falando. “Seis Anos Queimando na Terra de Ninguém”, gravado entre 98 e 99, tem 7 músicas e trás: “Além do Horizonte”, “Pele Sintética”, “Pequenos Répteis”, “Eterna, Cores”, “Automática (Meu Tipo de Fé)” e “O Povo Pagão”. Sendo que esta música, não aparece na lista de músicas e tem um trecho da letra que fala: “Fingimos dia e noite / nos fartamos de mentiras / falamos a verdade /fazemos do amor nossa ruina”. E em outro: “Mortos nascem aos milhões”. A preocupação com as letras fica clara, assim como a proposta da banda, que é usar a música como moldura para a veiculação de idéias e pensamentos nelas contidas. As influências de Sisters Of Mercy não são apenas meras influências, particularmente na terceira faixa: “Pequenos Répteis”. A formação neste disco é Dennis Martins, Guitarras; Fabio Kampfer, Voz e Daniel Passos, Baixo e a produção está acima da média neste tipo de lançamento.

O segundo disco é “A Grande Batalha”, uma demo com apenas duas músicas gravado em 2002. “A Grande Batalha” e “Depois da Batalha”, instrumental, que bem poderia ser usada em uma trilha sonora do gênero “O Albergue”. A formação da banda passou por uma mudança e trás Dennis Martins – Guitarras, Marcos Polli – Baixo, Fabio Sliachticas – Voz e Daniel Passos – Teclados. Daniel cedeu o Baixo a Marcos Polli e foi para os teclados e aparentemente o vocalista Fábio mudou de nome e em lugar de “Kampfer” passou a usar “Sliachticas”. Mas a potência das letras continua a mesma: em um trecho de “A Grande Batalha” fala: “Sente-se aqui e ouça a história / do verbo que se fez máquina /da máquina que se fez homem / de um atormentado isolamento / de repulsa / voracidade / a perda da sensibilidade”. Fabio Sliachticas, o cantor, usa e abusa de efeitos de estúdio para tornar sua voz algo que dê um tom soturno e gótico a exemplo de seu aparente ídolo Andrew Aldritch e canta os versos como se quisesse atingir a alma e a consciência mais profunda do ouvinte, estejam elas em qualquer lugar entre o Céu e o Inferno.

Em resumo, são dois trabalhos que merecem ser conhecidos e escutados. O problema é que em “Seis Anos…) não existe nenhuma forma de contato com a banda, nem site, em E-Mail ou telefone. Na demo “A Grande Batalha” existe apenas um endereço de E-Mail para o qual mandei uma mensagem e retornou como “Inexistente”. Foi apenas uma falha na impressão das capas ou a banda não quer ser encontrada? Com a palavra o “Imperial”.

Nota do Editor: Depois de publicada a resenha, Fabio Sliachticas respondeu nosso E-Mail, explicando que a banda não existe mais e que atualmente, além de trabalhar com histórias em quadrinhos, tem o projeto de retomar o projeto da banda, mas sem integrantes fixos.

Imperial – A Grande Batalha
1. A Grande Batalha
2. Depois da Batalha

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e Livre Pensador.

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