Histórias Longe da Paulista ― 2 ― Na Casa do Norte

Compartilhe!

Barata Cichetto


Poucos dias depois do episódio da Dama dos Ovos, um contraponto a essa questão de direitos de clientes em contraponto a atendimento por parte de donos de estabelecimentos. Se naquele caso, o funcionário (Ah, sim, não sei ao certo se o rapaz do caixa daquele mercado era funcionário ou o dono, afinal essa informação deveria ser dada no texto, para que seja usado como argumento aos críticos. Pois dependendo de sua posição na escala social, as criticas poderiam ser feitas diferentes, como se as pessoas fossem o que são por terem ou não dinheiro ou posição.) agiu corretamente, pedindo desculpas e se prontificando em reparar o erro da casa, o mesmo não aconteceu em uma Casa do Norte.

Recentemente descobrimos a tapioca como excelente, por todos os pontos de vista. E passamos a comprar polvilho para preparar. Íamos à região cerealista do centro da cidade, mas isso se tornava oneroso em função do alto custo do transporte. Encontramos então no próprio bairro uma casa que tinha, embora com um custo um tanto maior, mas ainda compensando o dinheiro não gasto de transporte e o tempo despendido.

No sábado, entramos na tal loja como já tínhamos feito anteriormente sendo atendidos amavelmente por uma senhora, preocupada em oferecer formulas e receitas, falar dos produtos e das possibilidades. Mas naquele dia, deparamos com outra pessoa, com ar um tanto arrogante, que apenas teve a preocupação de colocar mais produtos para arredondar a conta para cima. Até ai… Nada de mais.

Minha esposa pede que ele coloque em uma sacola, pois três quilos de polvilho naquela embalagem fina demais que ele tinha colocado a mercadoria seria muito frágil.

Meio de cara amarrada o sujeito colocou em uma sacola de plástico branca, muito fina. E, claro, assim que atravessamos a rua, o fundo da sacola abriu inteiro e o polvilho se esparramou pela avenida. Ainda recolhemos a parte de cima, mas cerca da metade do produto ficou no asfalto.

Pensei em retornar naquele momento mesmo e exigir do cidadão a mercadoria que perdêramos. Mas ponderei a questão baseada em dois aspectos: um que eu estava um tanto quando irritado naquele dia e acabaria sendo rude com o homem. E outro que como tinha pretensão a continuar a comprar ali, pensei que seria uma ótima atitude fazer a reclamação quando retornasse para comprar outros produtos.

Dois dias depois entrei novamente na tal Casa do Norte para comprar outro produto. O cidadão agiu da mesma forma, querendo arredondar a conta, mas desta vez o valor dava quase o dobro do que eu pedi. Recusei polidamente e quando ele me dava o troco, comentei com tranquilidade o que tinha acontecido. O sujeito colocou a culpa no fabricante, na prefeitura e sua absurda lei sobre sacolas (o detalhe é que as dele estavam totalmente fora das especificações), perguntou onde tinha sido (apontei o outro lado da rua e ainda disse: “ainda está lá no chão o polvilho”). Enfim, de desculpas em desculpas, ele apanhou outra sacola idêntica àquela e colocou minha mercadoria. “Não, não quero sua sacola, não!” E fiquei esperando que ele se prontificasse a repor a mercadoria que tínhamos perdido. Nada. Nenhuma reação.

Ah, sim, ali eu pensei em agir como a Dama dos Ovos e dar um sermão no cidadão, falando sobre meus direitos, meus direitos, meus direitos (Não é erro de digitação, escrevi mesmo “meus direitos três vezes seguida”.). Mas, como sempre aprendi a agir, dei as costas com uma decisão: nunca mais entro naquela loja.

É simples assim. Não preciso de um advogado, um escândalo, um partido político, uma lei que obrigue uma cota, um cartão, um cargo, nada disso para que as leis inerentes, mesmo que não sejam escritas, do capitalismo funcionem.

Mas é mais fácil brandir direitos, evocar códigos, leis, berrar, fazer discursos de toda ordem para se sentir cidadão. Berrar pelos direitos é fácil, mas para cumprir deveres, mesmo que não escritos, é um pouco mais difícil, pois é necessário cultura e disciplina. (Ah, não estou falando de cultura engajada, funk de favela, coisas assim. E muito menos de disciplina militar. Estou falando de uma coisa chamada consciência, coisa que se adquire através de meios livres.).

E onde andará a Dama dos Ovos agora? Preciso manda-la comprar ovos na Casa do Norte.

09/09/2016

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

5 1 Vote
Avaliação do Artigo
Assinar
Notificar:
guest

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários