Histórias Longe da Paulista ― 1 ― (A Dama e Seus Ovos)

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Barata Cichetto


Poucos dias atrás, estava no caixa do supermercado… Bem, nem era bem um super, mas um desses pequenos mercados de bairro… E enquanto eu aguardava o troco do maço de cigarros que comprei, uma mulher, jovem, cerca de uns trinta anos ou pouco menos, atravessa a rua em passos decididos e adentra ao estabelecimento.

É uma mulata, de cabelos eriçados, bermuda colada e passos fortes. Ela passa pelo caixa sem olhar de lado e se dirige ao pequeno balcão onde são servidos pães e frios. Retorna em seguida ao caixa onde o rapaz me entrega o troco e fala qualquer coisa sobre o preço dos cigarros comigo. Ela nos interrompe sem qualquer senso de educação e diz ao funcionário, forçando o português correto e em alto volume vocal:

― Olhe, hoje pela manhã estive aqui e pedi a moça três ovos. E quando cheguei em casa e fui contar, só tinham dois ovos. Eu paguei por três ovos. ― O tom é prepotente e ela fala sem olhar o rosto do funcionário.

― Ah, desculpe ― Diz o rapaz do caixa. ― Ela deve ter se enganado. Mas tudo bem, pode ir lá e pegar o ovo faltante.

― Não, eu não quero outro ovo. Apenas acredito que vocês devam mais atenção aos direitos dos clientes. ― Sim, isso era dito dessa forma, com todos os plurais e concordâncias. ― Eu só vim reclamar. Não quero os ovos. (Uai, não era um apenas faltando?)

Dito isso, quase me derruba ao passar trás de mim enquanto o funcionário, pasmo, me olha e abre os braços, completamente atônito.

― Eu hein! Cada uma…

Pego meus cigarros e o troco e saio. No caminho, a minha frente, a tal moça dos ovos anda rápido. Parece estar em busca de mais alguma coisa. Um cão perdigueiro farejando uma caça, um galo de briga. Suas passadas são pesadas e ela atravessa a rua na frente de um carro que se aproxima. Gesticula e mostra o dedo médio ao motorista. Anda firme pela calçada e dobra à esquerda, numa rua beirando o córrego. Ali, todas as casas foram construídas na margem, sobre área pública. As casas são boas, com terraços de vidro e feitas com material de primeira.

A dama entra numa das casas e fecha o pesado portão de ferro. Na frente da casa, de numero 13, uma faixa de candidato a presidente, ainda da ultima eleição. Ali, todas as casas ostentam propagandas políticas de partidos ditos de esquerda. De dentro da casa, o som de uma musica incompreensível.

Atravesso a pequena e ponte quase caindo no córrego, cujas margens ostentam tubos de esgotos daquelas casas, e vou embora para casa, fumando meus cigarros proibidos.

Preciso parar de fumar!

08/09/2016

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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