Excertos Facebookianos – 02 – 2017

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Barata Cichetto


Eu tinha uma conta no Facebook desde 2008, mas em 2020, em plena Fraudemia, e com toda a insuportável guerra política em que nos enfiaram, e cansado de ser ofendido, ou ter que explicar que eu tinha o sagrado direito de ter minha opção política, a excluí definitivamente. Muitas das coisas ali publicadas eu guardei, e posteriormente registrei o direito autoral juntamente com outros pensamentos em texto. Esta série, de 2016 a 2019 é apenas um arquivo pessoal, para que essas coisas não se percam. A maioria são textos meio bobos, mas servem como uma amostra de como as coisas eram, e qual era minha forma de pensar. (BC 25/03/2024)

Nos filmes de Hollywood, sempre que aparece a personagem de um escritor, esse quase sempre é invejado, quase sempre vive numa cabana isolada, quase sempre ainda usa uma máquina de escrever, quase sempre tem problemas de relacionamento, quase sempre é detestado pelos vizinhos, mas amável com crianças e animais, quase sempre ganhou uma bela grana com livros de merda, quase sempre estão escrevendo a obra de suas vidas, quase sempre acabam conseguindo. Então pergunto: a realidade americana de literatura é melhor, muito melhor que a terra brasilis, ou quase sempre eles são mentirosos? Sempre? Ou quase sempre?

10/09/2017

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Constatação: a imensa maioria das pessoas que conheço, e que afagam a “esquerda” e o “comunismo”, o fazem como cachorros que mijam em rodas de carros: ignoram que essa mesma roda pode esmagá-los. E fazem isso porque viram outros cachorros mijarem, sem nunca se perguntarem por que e para que o fazem.

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Uma amiga comprou meu Manual do Adultério Moderno e me disse que se ela chegasse em mim e pedisse uma dedicatória é que tinha gostado do livro. Mas que se detestasse, se o livro fosse machista, que daria com ele na minha cabeça. Por via das duvidas ando com uma caneta sempre a mão. E de capacete, por precaução.

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Sem coragem de ligar o computador, digito alguma merda no ridículo teclado do celular e posto no Facebook. Alô, alguém por aí?

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Estamos prestes a sermos mortos. Sim! Seremos mortos dentro de algum tempo. Todos nós! Por alguma causa, algum motivo. Ou nenhum. Apenas pelo fato de estarmos vivos.
Estamos muito próximos de sermos mortos. E seremos! E muito perto depende da relatividade do tempo. A alguns, muito próximos é pouco, a outros é muito. Depende de quanto desejamos algo para que o tempo se torne rápido ou lento. Algoz ou justiceiro.
Estamos a beira de sermos mortos! Todos nós. Mesmo aqueles que dispensam a beirada de qualquer coisa, seja de um precipício ou de um beijo. Resta saber a quantos passos da queda estamos.
Estamos na iminência de sermos mortos. E na evidência plena de ser.
Seremos mortos. Todos. Mesmo aqueles que nunca souberam o que é viver. E já estavam mortos, mesmo antes de nascer.

07/06/2017

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O amigo poeta Alexandre Pedro postou falando sobre o uso do palavrão em textos. E, claro que eu, um emérito usador e abusador do palavrão em textos, desde os tempos em que a simples menção da palavra “merda” era proibido (sim, isso aconteceu até 1979 e sua “liberação” foi manchete de um tabloide que circulava em São Paulo), me dói.
O problema não é a intensidade do palavrão ou o uso dele. O problema é que tem gente que sabe escrever e tem gente que não. Simples assim.
Claro… Tem gente que enche um texto de palavrões e acha que assim está sendo “revolucionário” só por isso. Do mesmo jeito que tem camarada que acredita que para ser um Bukowski tem que ser um bêbado. Se todo bêbado fosse um Bukowski, o boteco da esquina seria a Academia de Letras.
Palavrão é só uma palavra, porra!

28/06/2017

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Sou, e com orgulho, de tempos em que a comunicação era lenta. A escrita era a mão ou datilografada. Uma mensagem demorava dias, semanas, até chegar ao destinatário. Por isso tinha que ser pensada, articulada. Não tinha que ser imediata, voraz, sem análise. Mas inventaram a velocidade, a Internet. E cada dia mais rápida. E a comunicação passou a ter que ser instantânea. Comunica-se, mas não se pensa. Esse é o resultado dessa era digital. Temos muita, mas muita informação. Tanta, que nenhum cérebro é capaz de processar tudo. E isso gera mais confusão mental, estresse, paranoia do se imagina. O resultado é que não conseguimos chegar à conclusão nenhuma. Sobre nada. Falamos, falamos. E no fim nos desentendemos. Confundimo-nos ao tentarmos explicar. Chacrinha estava certo: “eu vim para confundir, não para explicar.”

13/06/2017

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A duras penas aprendi que não existe o mundo que queremos, não da forma que queremos. E todos nós, sem exceção, queremos um mundo do nosso jeito. Então, existem duas formas de existir: uma é pertencendo ao mundo que outros criaram por nós, da forma que imaginam ― e isso vale desde as relações amorosas, às comerciais e políticas. A outra é deixar claro que não queremos esse mundo que criaram e que teimam em querer que vivamos nele. Nos dois casos há preços a serem pagos. Muitos acham barato, outros caro demais. Essa ditadura, como nenhuma outra, eu aceito. Falo por mim. Então, ser zerado nesse jogo é apenas um dos preços. Acordar de manhã com fome é pior ou melhor que ir dormir com a cabeça explodindo e as lágrimas escorrendo pela dor da incompreensão? O que é pior? Enquanto isso, aqueles que mandam nesse jogo, aqueles que nos zeram, manipulam seus marionetes. Percebi que fui zerado nesse jogo há muito tempo, e me isolei. Mas do meu canto úmido e escuro ainda proclamo, sem medo de ser, meu desgosto e minha inconveniência nesse mundo, que não é meu, e não é seu.

07/06/2017

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“O Capital” e “A Bíblia” cristã são realmente ótimos livros para se ler, pelos mesmos motivos: cheios de sabedoria alheia, histórias falaciosas, teorias que jamais serão aplicadas e dogmas que apenas fanáticos acreditam. E isso porque ambos desprezam a verdadeira essência do ser humano e querem construir, com base nas mentes de seus criadores, um ser humano com virtudes que nunca teve e nunca terá. Não, não discordo com o nenhum deles: são livros de ficção, divertidos por momentos. E até poéticos em outros.

07/06/2017

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O espetáculo está quase completo: todos os palhaços sem graça no picadeiro. Os domadores acossados pelos leões. O mágico que não sabe fazer mágica ― ilusionista fraudulento. O ventríloquo que fala o que o boneco lhe diz. O titereiro manipulado pelo títere. Nesse freak show há anões deformados e todos os tipos de aberrações humanas sendo tratadas como lideres de um circo que não tem jeito de pegar fogo. A lona está podre. As jaulas repletas de tigres banguelos. O circo está podre. Malabaristas que não se aguentam em pé, bêbados. O trapezista não consegue pairar no ar e cai sobre o picadeiro sem rede de proteção. O populacho urra. Ursos famintos devoram o leão que devorou o anão. O espetáculo está quase completo. O bilheteiro aumentou o preço do ingresso. A arquibancada de madeira podre já não aguenta o peso do populacho, espectadores risonhos bisonhos que ainda acham graça em palhaços comunistas com piadas sobre crentes. Não tem saída de emergência no circo. O fogo começou no camarim. Joguem gasolina. Acendo meu cigarro. Aplaudam! O espetáculo está no fim. Não há democracia num circo. Freak Show. O ingresso é um quilo de alimento perecido. Ou um ticket do Bolsa Familia. Não há graça. Só desgraça. Que se faça. A Luz.

18/05/2017

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― Tudo bem?
― Não!
― Então tá bom!

Perguntaram a uma criança, nova, bem nova: o que é bem e mal? E ela respondeu: não sei! Depois perguntaram a uma idosa, velha, bem velha: o que é bom e mau? E ela respondeu: não sei! Então perguntaram ao tempo: o que é o velho e o novo? E ele respondeu: não sei!

02/05/2017

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Eu não sou exemplo de nada, de nada sou exemplar. Nem de homem, nem de pai, nem de filho, nem de espírito santo. Muito menos de amém. Não sou exemplo a ser seguido, nem perseguido; não sou exemplo do que deve ser feito, nem do que deve ser desfeito; não sou exemplo de vida, nem de morte; não sou exemplo de ação, nem de superação; não sou exemplo de funcionário, nem de patrão; nem de capital, nem de trabalho. Não, não sou exemplo, nem exemplar. Exemplo é para santos e bandidos, e exemplar para revistas e livros.

02/05/2017

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Nada há possível de ser feito, por ninguém, por nenhum sistema político, por nenhuma facção, em nome da Liberdade. É ingenuidade acreditar em algum sistema que use isso com intuito único de conquistar seguidores. Liberdade é um conceito puramente pessoal, individual. Não existe liberdade coletiva, isso é uma promessa falsa.

O que conheço e vi até agora, foi que o socialismo quer, sim, o poder do Estado sobre as pessoas. Acredito até, que na visão “moderna” dele, se pregue ao contrário, mas nunca foi real até hoje, em nenhum local onde esse sistema foi implantado. E, sim, o mercado também é, pelo ponto de vista humanístico, um meio de destruição do individuo, até certo ponto, mas a diferença é que o mercado preserva o individuo, não porque é legalzinho, mas simplesmente porque o mercado precisa do individuo. Já o Estado, esse sim um aniquilador cruel, não se interessa, por uma questão lógica: indivíduos pensam e lideram, coletivos são massas… De manobra.

31/03/2017

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Einstein disse que não sabia como seria travada a terceira guerra mundial, mas que a quarta seria com paus e pedras. Pois bem, agora sabemos não como seria, mas como é a terceira guerra mundial: com bits e bytes. E o campo de batalha, o território onde se trava a batalha do fim do mundo chama-se Facebook. Resta-nos saber se sobreviveremos para lutar a quarta guerra.

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Ontem fiquei sem Internet… Sai… Andar pelas ruas do bairro. Contemplar a realidade em carne e osso. Carnes e ossos me interessam. Mais as carnes que os ossos. Na primeira esquina, um par meninas com as bundinhas semi expostas em shorts minúsculos tinham bebês no colo. Sem chance! Adiante, em frente à padaria, o carro importado prateado com a tampa do porta-malas aberto uma musica horrorosa, de uma dupla de sertanejas quase universitárias. Sem chance! Um pouco mais de caminhada… Duas quadras a frente, um par de moleques de bermuda no meio das canelas me pede uma “seda”. Não tenho. Sem chance. Acendo meu cigarro e continuo, agora já com saudades da Internet. Outro par de garotas de minúsculos shorts, junto com um par de moleques de bermudas no meio das canelas rebolam ao som de uma dupla de sertanejas analfabetas e fumam maconha. Sem chances. Sem chance. Sem chances. As bundinhas eram bem interessantes, mas eu não tinha “seda”, e não suporto sertanejas universitárias. É melhor voltar pra casa e ver se a Internet já voltou.

20/03/2017

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Tempos atrás, minha mãe ― sempre as mães ― me disse: “eu te conheço melhor que ninguém, foi eu quem te carregou na barriga nove meses.” Ao que eu ― sempre os filhos ― lhe disse: “Pois eu a conheço melhor do que você me conhece, afinal eu estive dentro de você nove meses, conheço até suas tripas. Portanto, eu estive dentro de você, mas você nunca esteve dentro de mim.” E ela, minha mãe, ― sempre as mães ― não me disse nada. Apenas sorriu.

23/03/2017

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Não, eu não sou o melhor escritor do mundo, nem do meu bairro, nem da minha cidade. Há piores, no entanto. Não, eu não sou o melhor escritor da Internet, do Facebook ou do Twitter. Há piores, no entanto. Não, eu não sou o melhor escritor de todos os tempos, nem sequer o melhor da semana, ou mesmo deste minuto. Mas, no entanto, há piores. Não, eu não sou o melhor escritor que qualquer pessoa tenha lido, nem que qualquer pessoa nunca tenha lido, nem das que nunca leram. Há piores, com certeza. Não, eu não sou sequer o melhor escritor da minha família, da minha casa… Ou de mim mesmo. Há melhores, no entanto.

20/02/2017

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Serei eu, como inquiriu Brecht, um homem bom, um bom amigo de gente não tão boa, que merece, como ele sentenciou, ser encostado num bom paredão e fuzilado com uma boa bala, e depois enterrado com uma boa pá numa boa terra? Ou apenas o ostracismo, o fuzilamento moral e a indiferença a mim bastam? Ou serei um homem mau, amigo de gente que se considera melhor que o bom, e que merece, como não questionou o alemão, o respeito de uma nação? Que espécie de homem sou, ou deverei ser perante seus olhos e ouvidos, a não merecer nada disso, mas apenas o fundamental respeito, acima do bem e do mal?

17/02/2017

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De uma conversa com a amiga de décadas (não vou dizer quantas…rs.. Claudia Bia)
Enxergamos as coisas de ângulos diferentes, mas elas estão no mesmo lugar e muito erradas. Então, o que é preciso ser feito? Mudarmos o ângulo pelo qual as vemos, ou as olhar do mesmo ponto e a partir daí mudá-las? Se continuarmos a enxergar as coisas erradas por ângulos diferentes, um olhando pela direita outro pela esquerda, estaremos apenas nos enfrentando e destilando ódio entre nós, enquanto as coisas continuarão erradas e no mesmo lugar.

11/02/2017

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Não externei ódio, nem comemorei a morte da esposa do ex-presidente. Comemoraria, sim, a prisão dela junto com o marido e chefe da quadrilha. Agora, não posso deixar de perceber que tão ou mais nojento que aqueles que o fizeram, é o viúvo fazer da morte da esposa um palanque político, tirando, sim, proveito disso, para incitar as pessoas ao ódio.

A irresponsabilidade desse cidadão, diante do quadro social do Brasil, com ânimos acirrados, pessoas perdendo amizades virtuais ou mesmo na vida real em função dessa divisão política, uma divisão das pessoas em “esquerda” e “direita”, que foi fartamente alimentada por ele e sua quadrilha, com a clara intenção de jogar umas contra as outras, criando assim um exército de eunucos e descerebrados pronto a proteger seu infame projeto de poder, é extremamente perigoso. O que ele espera, para se safar da cadeia e retornar a presidência? Uma conflagração? Uma guerra civil? Ele não se importa com lágrimas de irmãos.

03/02/2017

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A lógica corrente a uma boa parcela de pessoas que se afirmam de “esquerda”, é, como diria Maxwell Smart, “o velho truque…” O velho truque de achar que apenas aqueles que são ligados à “esquerda” são bons, o resto não. Se você não é de “esquerda” é machista, homofóbico, ditador, quer ver os pobres mortos, coisas assim. Me deixa pasmo essa falta de clareza, de inteligência e bom senso. Sem contar que fico mesmo é puto com a arrogância e prepotência dessas pessoas.

02/02/2017

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Diariamente me deparo com novos fenômenos editoriais. E a cada dia mais me espanto com o fato de que as editoras os criam do mesmo jeito que as igrejas neo-pentecostais criam pastores: quanto mais podre e sujo o passado, quanto mais ele representar o lixo, maior é sua possibilidade de chegar a “deus” e a fama. Quando começarem a contratar escritores pelo que escrevem, por favor me avisem.

01/02/2017

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Pela manhã, meio sem querer entrei e li vários artigos nesses blogs de “esquerda”. Uma coisa em comum, que notei em todos: consideram reacionários e usam o termo descolado e moderninho “reaças”, para todos aqueles que não sejam comunistas/socialistas. Quer dizer: advogam a si próprios o privilégio da vanguarda, apenas com quem pensa igual, senão… Eu só queria entender esse pensamento preconceituoso ― que como qualquer um é burro e ilógico, carregando em si a prepotência e arrogância típicas desse sentimento. Aliás, segundo a lógica deles, preconceito quem tem são os “coxinhas”. Eles não… Confere, produção? Não, não confere!

31/01/2017

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Domingo à noite queimei feio meu braço e parte da mão coando café. Normalmente as pessoas chamam isso de acidente, mas efetivamente não é. Eu sabia que o jeito que estava fazendo era perigoso, e já tinham acontecido algumas merdas, mas por comodismo e teimosia, nunca mudei. E isso tira toda a responsabilidade do Acidente e a coloca sobre mim. Resultado:metade do antebraço e parte da mão queimados, numa ferida horrorosa e dolorosa. E isso pode ser aplicado a outras áreas e a outras pessoas: muitas vezes insistimos em fazer, pensar ou falar certas coisas sabendo que aquilo vai no futuro causar “acidentes”, conosco ou com os outros, mas insistimos. E o pior: colocamos a culpa nas costas dos outros, de deuses, do acaso: Isso vale pra política, também!

31/01/2017

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Ser velho não é estar cansado, nem com mais dores, nem com menos libido, com mais sabedoria; com menos problemas financeiros; e nem com mais idade; ser velho é deixar de acreditar. Estou cansado de ser velho…

29/01/2017

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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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