Excertos Facebookianos – 01 – 2016

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Barata Cichetto


Eu tinha uma conta no Facebook desde 2008, mas em 2020, em plena Fraudemia, e com toda a insuportável guerra política em que nos enfiaram, e cansado de ser ofendido, ou ter que explicar que eu tinha o sagrado direito de ter minha opção política, a excluí definitivamente. Muitas das coisas ali publicadas eu guardei, e posteriormente registrei o direito autoral juntamente com outros pensamentos em texto. Esta série, de 2016 a 2019 é apenas um arquivo pessoal, para que essas coisas não se percam. A maioria são textos meio bobos, mas servem como uma amostra de como as coisas eram, e qual era minha forma de pensar. (BC 25/03/2024)

A maioria dos amigos escritores se refere a seu livro como um filho. Não, um livro não é um filho, mas antes é uma amante, ou uma nova esposa, as vezes um simples caso furtivo, por que não? Colocar sobre um livro a mesma paixão, a mesma dedicação, a mesma relação que se coloca em um filho é um insulto… Ao livro! ― O Doce Veneno do Baratão

21/01/2016

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“…qualquer discurso mais firme, de qualquer um, acaba gerando uma berraria tipo ‘nazistas’ ou outra coisa qualquer. Enfim, é chegada a hora de cada um de nós, como indivíduo ou coletivo, assumir nossas posições…”. Marco Angeli Full .

O discurso baseado na “esquerda” (note que sempre, em qualquer lugar, eu grafo esquerda entre aspas) , sobre o coletivo é extremamente equivocado, propositalmente, para causar o efeito que causou na nossa sociedade. Nada resulta de ações no coletivo, já que ele de fato não existe, sendo apenas a associação de indivíduos. Todas as ações, invenções, que ocasionaram mudanças efetivas na história da humanidade, são atos de indivíduos. O impacto foi no coletivo, que dele se alimentou, se nutriu e cresceu. Esse discurso coletivista, é de fato mentiroso, enganador. Toda arte, por exemplo, é individual. O ser humano é individual. O discurso coletivista é contra a própria natureza humana. A coisa é bem simples, se CADA indivíduo fizer sua parte, é claro que o coletivo ganhará com isso. A mim isso é óbvio.

21/01/2016

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O hediondo crime ocorrido ontem dentro de uma estação do Metrô de São Paulo, deixa escancarada uma ferida purulenta que se espalha por esse corpo social. Dois truculentos, bem alimentados e bombados de academia espancaram até a morte um ambulante que tentou defender do espancamento dos mesmos dois, um travesti. E bem pouco importa se eram dois bem alimentados de academia, um travesti e um vendedor ambulante, as personagens desse enredo macabro. Não importa a classe social ou orientação sexual de cada um deles, como leio na maioria dos comentários. O que importa é que temos um ser humano morto, um ferido e dois lixos humanos soltos. Cadeia neles? Hahahaha. Quanto tempo, com benefícios? Li também comentários de pessoas perguntando por que transeuntes ali não interferiram. Pergunto: já viram as fotos dos lixos? Sinceramente, tu botarias a cara? Eu não. E outro problema crucial: a segurança do Metrô, tal e qual qualquer segurança de Bancos, empresas, órgãos públicos, são contratados para defender patrimônio, não pessoas. A culpa é deles? Um pouco. O fato é que temos todo um sistema carcomido, podre que transforma tudo em lucro, seja financeiro ou político. Aliás, o lucro político é o mais cruel. Programas de TV de propriedades de evangélicos fazem disso um manjar, babam com os lucros de audiência e nem sequer tem a hipocrisia de clamar por seu jesus. Não há direita nem esquerda nisso. Há o lucro político. Políticos não acreditam em ideologias. Políticos não são humanos. A política não é. E a vida não é política.

26/12/2016

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Começar a pintar quadros, mesmo nunca ter feito isso, me proporcionou uma visão ― literalmente ― diferente de muitas coisas. Antes, meus olhos eram voltados para as letras, que formavam palavras, às frases que formavam parágrafos, páginas… E textos formando livros, revistas, etc. Embora tenha uma boa experiência na arte digital, coisa que absolutamente nunca considerei como arte, mas sim de uma colagem de elementos gráficos pré-desenhados, o fato de ter começado a trabalhar com tintas, me esforçando para criar desenhos, mesmo com a constatação de que eu não sabia desenhar, passou a me “obrigar” a ter os olhos voltados em outras direções, percebendo formas, cores, volumes, dimensões. A percepção foi modificada, e a visão amplificada. Passei a perceber o mundo em cores que eu não concebia, um mundo que parece ter cores. Sempre defini minha poesia como arte em preto-e-branco. E era assim que ela era. E apesar das nuances e tons que são impostos e percebidos quando se trabalha com essa visão, com o tempo ela se torna limitada. E se tornou tão limitada, mesmo imitada, que foi preciso, mesmo contra meu próprio desejo, contra uma sina que me auto impus, buscar outros caminhos. De uma tosca pintura na parede e um desenho que hoje reconheço como fraco, e com o incentivo de preciosos amigos que viram nos meus rabiscos algum potencial e me incentivaram a continuar, conto hoje, em meados de Dezembro de 2016, pouco mais de um mês de começar a lambuzar pedaços de cartão com tinta látex de parede, com mais de 60 quadros. Como sempre, trilhar outros caminhos pode ser tão perigoso quanto prazeroso. E talvez o prazer do perigo e o perigo do prazer é o que nos faça trilhá-los.

15/12/2016

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Como poeta desde a pré-adolescência, fui me treinando para as palavras. A forma, o jeito, os significados, a etimologia. As letras impressas, amontoadas, enfileiradas, entrincheiradas em folhas de papel em formato de livros, revistas, cadernos, eram meu alimento, meu ar, minha vida, enfim. E durante mais de quarenta anos foi assim. Elas, sempre elas, pautando minha existência. As palavras travaram guerra comigo, participaram ativamente das minhas lutas, lutos e casamentos. As palavras de uma forma ou de outra alimentaram e educaram meus filhos, fizeram e desfizeram três casamentos, me causaram lágrimas e risos. Mais lágrimas que risos. Foram sempre minhas concubinas, minhas amantes. E se foram meu alimento, foram também minhas vampiras, que sugaram meu sangue, me fizeram provar do meu próprio veneno e engolir em seco todos os meus rancores. Belas ou monstrengas, sempre elas. A me acariciar e me torturar. Dar de comer e me matar de fome. Me dar prazer e dor. Demônias e santas. Víboras. Serpentes. Santas. Putas. Palavras. Com receio de abandoná-las, não por elas, mas por mim, que elas não precisavam de mim, feito um casamento que não dá mais certo há anos, eu insistia com medo de sofrer com a perda. E perdia. Perdia e estava perdido, repetindo discursos e relembrando coisas que não tinham mais interesse, apenas para manter uma relação. Elas me odiavam, eu sabia. Tinham deixado de me amar a muito tempo. E eu? Eu achando que ainda as amava. Bah… Não… Aquele casamento há muito precisava de um divórcio. E como numa relação onde não há mais diálogo, não há mais tesão, não há mais possibilidade alguma de escrever uma palavra que não seja de ódio, chegamos ao fim. Elas para o seu lado. Eu para o meu. Nos encontramos às vezes, sorrateiramente. E como nos bons tempos nos amamos. Não juramos mais fidelidade nem amor eterno. Não nos sacrificamos um pelo outro. E assim, como amantes livres continuamos nos amando. A outra agradece. E outros que a conheceram, também.

14/12/2016

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Barata, o Carnal

Não, o meu pinto não ficou maior, apenas emagreci.
Não, não vi teus olhares de desejo ao oftalmologista.
Não, não se arrependa de ter engolido tudo.
Não, teu jorro não tem o mesmo sabor da tua urina.
Não, teus grandes lábios não querem se alimentar de mim.
Não, não espero que gostes de tudo: vinte centímetros bastam.
Não, não minto quando digo que quero te comer.
Não, teu orgasmo não te pertence, é meu usucapião.
Não, teu corpo não te pertence. É da terra ou do fogo que o consumirá.
Não, não é uma fada, nem sabes contar histórias.
Não, tua vagina não é a única a arder, tem muitas doentes.
Não, o amor não é aquilo que colocas entre fatias de pão.

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Há uns meses decidi não mais escrever poesia. Alguns motivos me levaram a isso: 1 ― Escrevo poesia desde 13/14 anos de idade. Lá se vão, portanto, cerca de 42/43 anos nessa labuta filhadaputa de ingrata. (Certo, por força de uma filhadaputagem maior fiquei em silêncio durante 10 anos nesse período.) 2 ― Tenho ainda comigo 1.000 e tantas poesias escritas e registradas. 3 ― Percebi que estou me repetindo, portanto a conclusão é que não tenho mais assunto. 4 ― A quantidade enorme de gente que quer aparecer usando a poesia de uma forma com a qual eu não concordo. 5 ― A poesia de hoje, na maioria das vezes é um instrumento de vaidade. 6 ― A poesia virou em boa parte instrumento de instrumentalização ideológica 7 ― Ninguém ― ao menos a grande maioria das pessoas ― de fato gosta ou lê poesia. 8 ― Os tempos grossos atuais são totalmente avessos à poesia: um tempo em que tudo é rápido, plástico, fútil e imagético não permite essa forma de linguagem. 9 ― O politicamente correto causou um dano profundo, coibindo a pureza e a liberdade de expressão da minha poesia. 10 ― Há poetas demais nas redes sociais. 11 ― CANSEI!

25/11/2016

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Estamos na era dos extremismos, da intolerância, do desrespeito. Tudo que não é de acordo com o pensamento de alguém é alvo de violência. Até pouco tempo eu pensava que isso estava restrito ao futebol, depois à política, mas percebo que isso é uma constante. Qualquer discordância é motivo de ódio. Tristes seres nos tornamos. Pobre sociedade, representada por essas redes sociais…
Este bendito retângulo que instiga a todos se expressarem… Todos querem ser protagonistas, ninguém que fazer o papel do mordomo na novela… Instigados por todos os lados, e com certezas absolutas de que a opinião própria é uma verdade absoluta. Ofender virou à tônica… Da política a religião, do futebol ao Rock,… Triste isso!

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A maior frente de luta contra o preconceito não é nas ruas, empunhando bandeiras de qualquer cor e principalmente de nenhum espectro político; aos berros, exibindo partes do corpo, com palavras de ordem (por ordem de alguém). A maior luta contra o preconceito não é fingir que não existe, mas não fazer dele um espetáculo de circo. Não é bater no peito orgulhoso da cor, crença, opção ou orientação: isso é puro preconceito. A maior frente de luta contra o preconceito é dentro de cada cabeça. Se erguemos uma bandeira, hasteamos cores, expomos nosso caráter e abrimos ao mundo o quanto há de preconceito em nossas próprias atitudes. Preconceito é tudo que não é espelho. Não contar e se indignar com piadas racistas, por exemplo, não significa falta de preconceito, e às vezes pode significar exatamente o oposto. Não admitir machismo com atitudes feministas idem. E idem para o preconceito político. Mas, no fundo, somos preconceituosos sempre, e por coisas às vezes bem pequenas. Não sejamos hipócritas em negar. A real frente de luta contra o preconceito se dá dentro de nossas cabeças, e com base especialmente na informação e vivência. Mas não se trata de banirmos palavras, mas de defenestramos sentimentos e pensamentos ilógicos. Basta pensar da seguinte forma: o preconceito é questão de lógica.

17/09/2016

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Sim, tenho uma ótima cultura, apesar do pouco estudo. Os livros e as vivências me deram isso. Sim, tenho uma visão plural da vida e todos os seus fatores, como relacionamentos, política, dinheiro, modo de vida. Os livros e as vivências me deram isso. Sim, tenho certezas e incertezas, medos e tristezas; coerências e incoerências: os livros e as vivências me deram isso. Sim, tenho prazeres e desprazeres, sintomas e doenças, medos e angústias. Os livros e as vivências me deram isso. E sim, tenho muitas coisas, muito além daquilo que sonhei e imagino poder ter. Os livros e as vivências me deram isso. Mas não foram todas essas coisas adquiridas de forma virtual, intocável, incheirável, invisível. Os livros de papel e as vivências de carne, ossos, cheiros… Todos verdadeiramente me deram isso. E muito mais! Viva a vida real, escrita em livros de papel. Viva o sexo real, feita com gente de verdade. Gentes e livros com cheiros, texturas e fibras!!!!

30/08/2016

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Palavrão é apenas uma palavra, porra! E digo isso sem parar, sim! Filhadaputa, porra, caralho, buceta, são belas palavras. Palavrão é preguiça, cobiça. Covardia e avareza. Estupro e aborto. Palavrão é política, político. Corrupção e roubo. Palavrão é fome e mentira. Tesão não é palavrão. Punheta não é palavrão. Palavrão é apenas uma palavra. O resto é intolerância. Ganância. Arrogância. Palavrão é comunismo, capitalismo. Estupidez, prepotência. Palavrão é uma grande palavra!

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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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