Imagem Criada Com IA

Eu, Ainda Um Zé Ninguém

Renato Pittas

Nas ruas iluminadas por neon e LEDs projetando imagens em 3D, eu, um zé ninguém, caminhava entre gigantescos edifícios. As avenidas eram repletas de vida, onde se cruzavam figuras familiares e estranhas, misturando-se em um balé caótico de luz e sombra. As vizinhas balzaquianas circulavam de mãos dadas com seus filhos, enquanto homens barrigudos carregavam o peso de seus excessos. Divindades esbeltas desfilavam seu narcisismo em maquiagens exuberantes, capturando cada momento com suas lentes planas de celulares. Os automóveis, com aerodinâmica reinventada, deslizavam pelas ruas, espalhando gases e faíscas elétricas. Nas esquinas, já não existiam orelhões, e as filas ao redor deles eram uma memória distante. Os sinais de trânsito mudavam freneticamente de cor, criando um caos de carros e pedestres se movendo em todas as direções. Vermelhos e verdes se confundiam, e as normas de trânsito eram desrespeitadas sem cerimônia.

Eu seguia meu caminho, um cidadão comum pagando impostos, horrorizado com os oportunistas que se aproveitavam do meu voto. Ao meu redor, rebanhos de almas compromissadas com suas rotinas diárias. Alguns vendiam comida cobiçada por indigentes famintos, cujos olhos brilhavam de necessidade. Mesmo assim, havia quem se inflasse de ego e poder de compra, exibindo sua superioridade.

A violência viral contaminava a todos, criando bipolaridades frustrantes e pestes emocionais. Para onde quer que eu olhasse, cenas distintas se desenrolavam contra o pano de fundo estático de prédios e construções infinitas. Vitrines exibiam desejos de consumo, enquanto assalariados e capatazes serviam como massa de manobra para os donos do poder capital, manipuladores de sonhos de um mundo perfeito e sem contradições.

Nessa selva urbana, eu era apenas mais um. Anônimo, invisível, um zé ninguém. Mas, como qualquer um, tinha meus próprios sonhos e desejos, minhas frustrações e esperanças. Cada passo que eu dava, cada rosto que cruzava, era um lembrete de que, apesar de ser apenas mais um na multidão, minha existência tinha seu próprio peso e significado.

Um dia, enquanto observava as vitrines de uma loja de tecnologia, um brilho especial chamou minha atenção. Era um dispositivo pequeno, quase imperceptível, mas com uma promessa grandiosa: a capacidade de alterar a própria percepção da realidade. Cético, mas curioso, entrei na loja e comprei o dispositivo, uma extravagância que me custou caro.

Naquela noite, em meu pequeno apartamento, liguei o dispositivo e o coloquei na cabeça. Um zumbido suave preencheu meus ouvidos, e a cidade ao meu redor começou a se transformar. As luzes de neon se tornaram estrelas cintilantes, os edifícios se transformaram em castelos e torres encantadas, e as pessoas, em figuras míticas e heróis de contos de fadas.

De repente, eu não era mais um zé ninguém. Eu era o protagonista de uma aventura épica, um herói em busca de justiça e verdade em um mundo repleto de magia e mistério. A cidade, antes opressiva e indiferente, agora era um vasto playground de possibilidades e maravilhas.

Mas, como todo conto fantástico, havia um preço a pagar. Quanto mais tempo passava imerso nessa realidade alternativa, mais difícil se tornava retornar ao mundo real. As fronteiras entre o que era verdade e o que era ilusão começavam a se borrar, e eu me via perdido entre duas realidades, sem saber qual delas era a verdadeira.

Eventualmente, tive que fazer uma escolha: continuar vivendo na ilusão encantada, onde eu era um herói, ou enfrentar a dura realidade da cidade, onde eu era apenas mais um. Decidi desligar o dispositivo e enfrentar a verdade. Afinal, mesmo na banalidade do dia a dia, havia beleza e significado a serem encontrados.

Ao tirar o dispositivo, a cidade voltou ao normal, mas algo dentro de mim havia mudado. Percebi que, apesar de ser apenas um zé ninguém, tinha o poder de transformar minha própria realidade. E, naquele momento, decidi que iria fazer a diferença, não importava quão pequena fosse.

Nos dias que seguiram, comecei a observar a cidade com novos olhos. Embora as luzes de neon e os edifícios gigantescos continuassem os mesmos, a minha percepção havia mudado. Cada pessoa com quem eu cruzava tinha sua própria história, seus próprios sonhos e lutas. Decidi que queria conhecer essas histórias, entender essas vidas que, assim como a minha, eram apenas pequenos fragmentos do grande mosaico urbano.

Nas manhãs, quando caminhava pelas avenidas amplas, eu fazia questão de sorrir para as pessoas que encontrava. Descobri que, muitas vezes, um simples sorriso podia iluminar o dia de alguém. Aos poucos, fui conhecendo os vendedores ambulantes, os moradores de rua, os trabalhadores apressados. Suas histórias eram diversas e complexas, e eu me sentia privilegiado por ouvi-las.

Um dia, encontrei um velho homem sentado na calçada, tocando um violão desgastado. Sua música era melancólica, mas tocante. Parei para ouvi-lo e, após a última nota, sentei-me ao seu lado. Ele me contou sobre seu passado como músico, sobre os sonhos que teve e as dificuldades que enfrentou. Prometi a mim mesmo que iria ajudá-lo de alguma forma.

Com o tempo, minha rede de conexões cresceu. Eu me envolvi em projetos comunitários, ajudando a organizar eventos culturais e ações de solidariedade. Junto com outros voluntários, criamos espaços onde as pessoas podiam compartilhar suas histórias, talentos e esperanças. Descobri que, mesmo em uma cidade tão grande e impessoal, a solidariedade e o senso de comunidade ainda tinham um lugar.

Uma noite, enquanto voltava para casa, passei por um beco iluminado apenas pelas luzes intermitentes de um painel de LED. Lá, encontrei um grupo de jovens discutindo animadamente sobre tecnologia e inovação. Aproximando-me, descobri que estavam trabalhando em um projeto para usar a realidade aumentada de forma educativa, para ajudar crianças carentes a aprenderem de maneira interativa e divertida.

Fiquei fascinado pela ideia e me ofereci para ajudar. Usei meu conhecimento sobre o dispositivo que havia comprado para contribuir com o projeto. Juntos, desenvolvemos um aplicativo que transformava a cidade em um gigantesco livro didático, onde crianças podiam aprender sobre história, ciência e arte enquanto exploravam as ruas e praças.

O sucesso do projeto foi além das nossas expectativas. Recebemos reconhecimento e apoio de várias organizações, e o aplicativo começou a ser usado em várias escolas e comunidades. Ver o brilho nos olhos das crianças ao descobrirem um novo mundo através da tecnologia foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida.

Embora eu ainda fosse apenas um zé ninguém na grande cidade, percebi que minha vida tinha um impacto real. Cada ação, por menor que fosse, contribuía para tornar a cidade um lugar melhor para todos. E, nesse processo, eu deixei de me sentir insignificante. Descobri que, na complexidade e na correria da vida urbana, cada pessoa tem o poder de fazer a diferença, de ser uma pequena luz no vasto mar de neon.

Assim, continuei minha jornada, buscando sempre novas maneiras de contribuir, de conectar e de transformar. Afinal, mesmo em uma cidade tão caótica e impessoal, cada um de nós pode ser um herói, um protagonista em sua própria história, bastando apenas acreditar e agir.

Anos se passaram desde que eu, um zé ninguém, decidi fazer a diferença na minha cidade. A trajetória foi repleta de desafios e recompensas, com momentos de dúvida e de esperança. Mas, acima de tudo, foi uma jornada de autodescoberta e transformação.

Os projetos comunitários cresceram e se diversificaram. Aquele velho músico da calçada agora tinha um espaço próprio onde ensinava crianças a tocar instrumentos, compartilhando sua paixão e talento. O aplicativo de realidade aumentada se tornou uma ferramenta educacional amplamente utilizada, inspirando outros a criar soluções tecnológicas inovadoras para problemas sociais.

Continuei a me envolver em novas iniciativas, sempre buscando formas de conectar as pessoas e fortalecer o senso de comunidade. Organizei feiras de trocas, onde vizinhos podiam compartilhar habilidades e objetos, promovendo a sustentabilidade e o apoio mútuo. Participei de grupos de discussão sobre urbanismo, contribuindo para a criação de espaços públicos mais inclusivos e acessíveis.

Apesar de todas essas conquistas, jamais me considerei um herói. Eu era apenas alguém que se recusou a aceitar a indiferença e a apatia. Alguém que acreditava que, mesmo as menores ações, podiam ter um impacto significativo.

Em uma noite tranquila, enquanto caminhava pelas ruas iluminadas da cidade, refleti sobre tudo o que havia mudado. As luzes de neon ainda brilhavam, os edifícios ainda se erguiam imponentes, mas a cidade parecia diferente. Havia um novo espírito, uma nova energia, alimentada pelas conexões humanas e pelo desejo coletivo de um futuro melhor.

Sorri para mim mesmo, lembrando do dispositivo de realidade aumentada que havia desencadeado essa jornada. Percebi que, embora a tecnologia tivesse um papel importante, o verdadeiro poder estava nas pessoas – em sua capacidade de sonhar, de agir e de transformar.

Assim, continuei a caminhar, sabendo que, apesar de ser apenas um zé ninguém, eu havia encontrado meu lugar no mundo. Um lugar onde cada gesto de bondade, cada sorriso, cada ato de solidariedade contribuía para construir uma cidade mais justa, mais humana e mais luminosa. Uma cidade onde, no final das contas, todos podiam ser protagonistas de suas próprias histórias fantásticas.

Renato Pittas, Rio de Janeiro, RJ, é artista plástico, poeta, escritor e Livre Pensador.
Autor de Tagarelices: Conversas Fiadas Com as IAs
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