Essa Tal de Mídia

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Walter Possibom


O processo de como se deu o início da comunicação talvez seja um dos fenômenos mais importantes da história do ser humano, pois através desse início é que o homem acelerou muito o seu desenvolvimento.

A compreensão de como tudo isso aconteceu exige que viajemos no tempo para conhecer a história da comunicação, mais precisamente, de como se deu a origem da fala, o desenvolvimento da linguagem e a sua evolução ao longo da história.

Preparem-se para esta empolgante viagem!

Os meios de comunicação não são uma invenção moderna ou atual, mas sim, resultam de uma necessidade de interagir com o mundo que nos rodeia permitindo-nos trocar ideias, expressar sentimentos, adquirir conhecimentos.

Importante salientar que a evolução dos processos de fala, e consequentemente o da comunicação, se deram graças a capacidade cerebral do ser humano.

Há cerca de 20.000 anos atrás os homens faziam desenhos nas paredes das cavernas, os estudos dessas pinturas nos revelaram que essas pinturas tinham o principal objetivo de retratar aspectos ou situações de seu cotidiano e descrever técnicas de caça, para que essa informação fosse passada às futuras gerações.

Claramente a comunicação tem um conceito histórico e também polissêmico, ou seja, ela contém vários outros significados os quais evoluíram muito no último século.

A comunicação, num primeiro momento, podia ser ponderada como sendo um conjunto de canais e meios de transporte, para depois se transformar num processo social de interação para, finalmente, ser considerada como um conjunto formado de práticas, discursos e ideias instituídas por meio de uma veiculação social de mensagens.

A comunicação evoluiu em várias etapas, como a comunicação corporal, oral, escrita e digital.

Melvin DeFleur e Sandra-Rokeach dizem que o desenvolvimento da comunicação humana obedeceu a cinco etapas, com o desenvolvimento:

– Da sinalização
– Da fala
– Da escrita
– Da impressão e
– Da comunicação com os veículos de massas atuais

A primeira etapa foi provavelmente a Era dos Símbolos e Sinais, começando pela vida pré-hominídea e proto-humana, antes que os ancestrais primitivos caminharem eretos. Conforme a capacidade cerebral aumentava lentamente, a comunicação melhorava e os sistemas baseados em símbolos e sinais foram ficando mais elaborados, convencionados e efetivados.

Os seres humanos ingressaram na Idade da Fala e da Linguagem iniciada aparentemente com o surgimento do Cro-Magnon, uma forma de Homo sapiens. Eles começaram a falar entre 90 e 40 mil anos atrás.

Há uns cinco mil anos que os seres humanos fizeram a transição para a Era da Escrita, que foi inventada de forma independente em mais de uma parte do mundo.

Posteriormente, seguiu a Idade da Imprensa em meados do século quinze, na cidade alemã de Mainz. O primeiro livro foi produzido por uma prensa que usava tipos móveis fundidos em metal.

Finalmente, emerge a Era da Comunicação de Massa, que de certa forma se iniciou no começo do século dezenove, com o advento de jornais e mídia elétrica como o telégrafo e o telefone.

Evidentemente que a comunicação continua evoluindo, numa velocidade cada vez maior, devido às novas tecnologias e ao uso de redes sociais. Assim surge a Era dos Computadores, que estão transformando a nossa sociedade.

É bastante compreensível os objetivos da criação da linguagem e da comunicação, tanto quanto o crucial papel delas no desenvolvimento do ser humano.

Esse desenvolvimento, que sempre objetiva a melhoria do todo, nem sempre se deu em “Céu de Brigadeiro”, muitas vezes ele se fez debaixo de nuvens pesadas e enegrecidas em virtude da utilização e da objetivação das comunicações. Ela nem sempre foi usada para o bem.

Desde esses tempos, então, a humanidade percebeu que a comunicação era algo crucial, e que ela podia servir tanto à Luz como às Trevas.

Desse momento em diante nós começamos a usar a comunicação, em todos os seus modos, tanto para construir como para descontruir.

Hoje vivemos tempos estranhos em relação à comunicação, que mostram o que falamos acima de forma bastante clara.

Eu me recordo de quando eu era criança e que nós sentávamos ao lado de um rádio para ouvir os jogos da seleção brasileira de futebol. Os rádios, àquela época, eram feitos de válvulas, e as transmissões dependiam de antenas localizadas na superfície do planeta, isso causava interferências e um enorme delay na comunicação.

Hoje nós falamos ao celular com alguém no Japão e o delay é de décimos de segundo, nos dias atuais a comunicação é em “real time”!

A comunicação ficou absurdamente rápida! Assim que você posta algo no facebook ele imediatamente torna-se acessível no mundo todo (e isso pode ser muito perigoso). Mas, e quanto à comunicação de “antigamente”, feita pelo telefone?

A comunicação de antigamente entre indivíduos comumente envolvia duas pessoas e apenas elas. Às vezes, o encargo da estrutura para um telefonema vinha de companhias, mas a comunicação, depois de conseguida a estrutura pelo indivíduo, cabia aos envolvidos.

Hoje, nossa comunicação, para que seja gratuita expansiva e clara, é mediada por um terceiro componente. Este fornece a estrutura para que eu e você possamos nos comunicar de qualquer lugar do mundo, sem que necessariamente sejamos conhecidos um do outro. As tão famosas plataformas que usamos diariamente, como esta mesma na qual escrevo.

Não existe mais pessoalidade nas comunicações. A comunicação pelas mídias sociais criou uma imensa aldeia de pessoas que interagem entre si através dela, independentemente de seu credo, de sua religião, de sua nacionalidade, do time para o qual torce, de seu nível social, de seu nível educacional e, o mais preocupante: de sua índole!

A nossa sociedade dos tempos de hoje se caracteriza pela troca de ideias entre pessoas que têm gostos e ideias afins, que se utilizam das redes sociais para se comunicarem isso caracteriza basicamente a formação de pequenas “Aldeias” de comunicação fechadas.

O mundo de hoje se baseia intensamente sobre as informações, as instituições só conseguem funcionar com base na troca de conhecimentos e disponibilização de informações, e isso só é possível através dos computadores, dos sistemas e das redes.

Por outro lado, a rápida troca de informações e a futilidade das mensagens associado ao grande volume de dados disponíveis criam um fenômeno novo que é a desconstrução da cultura!
Isso é alarmante!

Afinal, uma cultura se caracteriza pela perenidade do conhecimento social, e o que ocorre hoje é que a troca rápida, massiva e variada de informações não torna possível estabilizar o conhecimento de qualquer grupo de pessoas, criando cidadãos individuais ou universais.

Estamos cada vez mais nos distanciando um do outro, quando, na realidade, deveríamos estar nos aproximando (a família é a mais afetada com isso).

Outro grande problema das comunicações de hoje é que o indivíduo precisa se encaixar em algum grupo para que ele seja bem visto pelos outros, se formos olhar as páginas pessoais das redes sociais nós percebemos claramente que esses indivíduos maquiam os seus gostos e a sua história, para atingir esse objetivo.

Isso transforma os indivíduos, modifica-os e isso é muito triste. Outro fato importante são as fontes com informações falsas, as quais nós devemos ter extremo cuidado. Antigamente nós fazíamos pesquisas em livros físicos, era comum você fazer uma pesquisa na biblioteca e numa enciclopédia, tínhamos a Barsa a Mirador e a Conhecer, dentre outras, a pesquisa demorava horas e tínhamos que notar o que queríamos. Hoje a pesquisa é mais fácil e rápida, você faz a busca na rede, encontra e fazendo um “Ctrl + C” você já tem tudo à mão.

Porém, diferentemente do meu tempo, em que as enciclopédias eram absolutamente confiáveis, o mesmo não se pode dizer dos sites de hoje.

Se o site e a fonte forem qualificados e honestos você fez um bom trabalho, mas se você obtiver informações distorcidas e/ou errôneas de um site “obscuro” o seu trabalho também assim o será. Por isso temos que ser absolutamente criteriosos com a fonte que escolhemos para os nossos trabalhos a para as nossas apresentações.

Eu acho que no tempo em que nós tínhamos que consultar as coisas nessas famosas enciclopédias, nós cometíamos menos erros, nós éramos mais precisos nas informações. Aliás, nem tínhamos o interesse de fazer o contrário, mas hoje (às vezes eu tenho esse sentimento), algumas pessoas se sentem bem em criar desinformação, em criar confusão, em criar discussão, e consequentemente gerar o caos.

Eu conheço inúmeras pessoas, com imensa exposição nas redes sociais, com um número expressivo de seguidores, que se presta a um trabalho intenso de desinformação, e como são pessoas influentes nas cabeças de muitos jovens, distorcem a realidade levando esses incautos a um terreno perigoso.

Nós todos sabemos da existência de “Youtubers” muito famosos, mal-intencionados que conseguem manipular uma grande massa de pessoas, e que com isso ganham cada vez mais espaço e dinheiro, tornando-se celebridades e, o que é pior, com credibilidade para essa massa.

Eu me pergunto: porque essas pessoas fazem isso? A quem elas servem?

Como resultado dessas “desinformações” nós presenciamos diariamente a discussões absurdas, onde vemos que as pessoas se exaltam facilmente, se utilizam de palavras de baixo calão.

E por falar em palavrão o que dizer dos comediantes de hoje? Para que tenham sucesso é absolutamente necessário que falem palavrões o máximo de vezes durante as suas apresentações, o que me faz ter uma imensa saudade de José Vasconcelos.

E quanto às discussões sobre temas técnicos então? Aqui a coisa fica ainda mais intensa e explosiva, o desconhecimento muitas vezes de leis simples da física causa discussões e debates acalorados que beiram a insanidade.

Sim, as informações que circulam pela grande mídia, a uma velocidade espantosa, podem se constituir numa arma perigosa, pois ao mesmo tempo em que ela pode nos informar ela pode nos desinformar.

As mídias eletrônicas podem criar ou destruir reputações.
A desinformação pode criar gigantes na mesma velocidade com que mata heróis que muitas vezes ela mesma criou. Depende do momento e do interesse.

Se a desinformação ocorreu sem intenção há um atenuante, devendo à pessoa que fez a comunicação ter mais atenção na próxima vez que for veicular algo, mas se ela foi intencional a coisa se reveste de uma gravidade imensa, pois ela pode ter repercussões que variam de uma simples e breve discussão até coisas muito mais graves.

Eu vejo, nas mídias sociais, as pessoas brigando por causa de posições políticas.

Eu vejo pessoas falarem que não se importam com um determinado fato, desde que ele afete negativamente uma determinada pessoa. Elas desejam o mal dessa pessoa.

Isso é um absurdo! Sentir prazer em ver que determinada pessoa se sentiu mal agrega o que a essa pessoa? O que ela ganha com isso?O ódio que ela sente dessa pessoa é tão grande que a faz ter prazer em ver o sofrimento dessa pessoa. Isso não é nada humano e muito menos caridoso.

Você não gostar de uma determinada pessoa é aceitável, mas desejar que ela se sinta mal, ou que venha a ficar doente ou, o que é pior: desejar a morte dessa pessoa é algo que nos remete à idade em que não tínhamos consciência. Que pensar de mentes como essa?

Isso frauda todo o objetivo pelo qual a comunicação foi criada. Eu vejo pessoas discutirem sobre determinado assunto sem sequer ter um mínimo de conhecimento do fato, se baseando apenas em algo que leu em alguma postagem, sem sequer checar se aquela postagem falava a verdade. Elas sequer usam o crivo da razão.

Eu vejo um mundo de desinformação num mundo onde a informação é tão rápida quanto a luz e acessível a todos.

Eu vejo pessoas discutindo sobre assuntos os mais diversos, mas quando se trata de assuntos médicos eu tenho visto coisas as mais absurdas possíveis. As pessoas se baseiam em notícias falsas, ou erradas, e se agarram a elas como se delas dependessem a sua vida. Com isso geram discussões acaloradas, que beiram a insanidade com as pessoas se ofendendo mutuamente, gerando, em várias ocasiões, distanciamento de pessoas que até então eram amigas.

E os jovens? Os jovens vivem sob uma intensa pressão tanto da sociedade quanto da sua família, todos exigem dele sucesso absoluto, nunca houve tanta integração com tanta gente ao mesmo tempo em que nunca foram tão profundos os sentimentos de desconexão.

Eu me recordo de uma frase, a qual eu não me lembro do nome do autor, que dizia que a Internet ao mesmo tempo em que nos aproximou nos afastou.

Atualmente podemos observar que, o número de adolescentes que estão conectados com as mídias sociais cresceu muito, e continuam aumentando cada vez mais. Isso nos mostra o quão à sociedade está ‘’presa’’ a esta tecnologia, e que os jovens acabam sendo os mais afetados.

Sabemos pelo nosso dia a dia e pelas estatísticas, que grande parte dos adolescentes sofrem de crises de ansiedade, muitas das quais pelo alto uso de mídias sociais, pois é a elas que eles recorrem principalmente nessas crises.

Existem várias pesquisas que indicam que muito jovens visitam com muita frequência sites que versam assuntos sobre depressão, ansiedade e solidão. E todos nós sabemos que a depressão é um dos caminhos mais fáceis para o suicídio.

Uma pesquisa feita com adolescentes nos Estados Unidos, pela Pew Research mostra que 24% dos adolescentes afirmam que as redes sociais têm um efeito majoritariamente negativo em sua relação enquanto que 31% acham que o efeito é positivo.

Com base na pesquisa chegou-se à conclusão que são sete as razões para o ceticismo crescente dos adolescentes em relação às redes sociais:

– Bullyng
– Brigas e discussões
– Distorção da realidade
– Distração
– Pressão
– Problemas de saúde mental
– Intensidade, pois tudo fica mais intenso.

Este assunto daria livros e livros de discussão, então vamos parara por aqui, mas eu considero que em tempos como os que estamos vivendo, deveríamos agir com extrema cautela ao divulgarmos alguma coisa.

Eu entendo que devemos ser extremamente criteriosos em nossas divulgações e buscarmos a certificação de sua veracidade. Assim evitamos os inúmeros comentários carregados de ódio que vemos diariamente nas redes sociais.

Eu vejo cenas deploráveis, onde o ser humano chega a se postar de forma irascível manifestando-se com palavras ofensivas e agressivas, querendo fazer crer que aquilo é uma manifestação moderna e inteligente, mesmo que pareça algo grotesco e irracional.

Passamos tempos em que nosso humor permeia uma tênue linha entre o racional e o irracional, nós andamos todos tensos com tudo o que anda acontecendo, nestes momentos devemos ter mais cautela ainda, temos que agir com mais razão e falar o estritamente necessário.

Devemos entender que o que falamos pode sensibilizar alguém, isso se dar tanto de forma positiva quanto de forma negativa, e que somos responsáveis por isso!

Em tempos como este eu me recolho a minha poltrona, debaixo da tênue luz de meu abajur, com um chocolate quente ao lado lendo “Uma Temporada no Inferno” de Arthur Rimbaud pela enésima vez.

PS: algumas pessoas irão me bloquear após ler esta crônica.

Do Livro:
Crônicas de Uma Alma Perplexa

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor, guitarrista da banda Delta Crucis, e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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