Escreva Uma Carta, Meu Amor

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Genecy Souza


(A primeira me iludiu. A segunda me fez rir)

Já devo ter dito em matérias anteriores. Se não disse, digo agora: aprendi mais sobre (a) política nos últimos quatro anos do que em toda minha vida. Recuando um pouco mais, o marco zero dessa minha nova visão está ficando na primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. São vinte longos anos decorridos. Naquela ocasião eu já era antipetista, antilulista, antimarxista, anticomunista, antinazista, anticastrista, antimaoísta, antifascista, antiditatorial, antiestatal anti-qualquer coisa que me desagradava. Atualmente, por estar mais velho e ressabiado, acrescentei mais coisas aos meus anti (…). Evidentemente, revi conceitos e pré-conceitos; reajustei rotas. Hoje, tenho uma visão mais realista das coisas da política. Uma das coisas que tive que aceitar foi a de que nenhum político satisfará meus desejos. Nem os meus, nem os de qualquer outra pessoa. Políticos se atraem, traem e se traem. A atividade política é um negócio. Simples assim.

Em 27 de outubro de 2002, os brasileiros foram informados que o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou seu adversário José Serra (PSDB) por 52.793.364 (61,27%) a 33.370.739 (38,73%) dos votos válidos. Foi uma vitória folgada. Nesse evento, todos achavam que o PT e o PSDB eram como água e óleo. Eu também achava isso, tanto que votei no candidato Serra, não por simpatia, mas por ser ele um rival do Partido dos Trabalhadores. Nada como o tempo para mostrar que as coisas não são bem assim, basta ver quem é o candidato a vice-presidente na chapa de Lula.

A eleição de Lula era fato consumado, o jeito foi aceitar – democracia é assim mesmo, dizem –. Analistas a todo instante faziam projeções sobre o novo período político sob o comando do PT e os partidos coligados PL, PCdoB, PMN e PCB. Tal como um boi, o poder seria retalhado entre esses sócios, cabendo ao PT as melhores carnes. Noves fora as vozes pessimistas, a onda era da mais pura esperança. A redenção do povo brasileiro estava no horizonte. O futuro era luminoso.
Lembro como se fosse hoje. Me deixei contaminar pela pandemia de otimismo que varreu o Brasil. Considerei a possibilidade de estar equivocado ante a figura de Lula, que tinha como vice-presidente o empresário José Alencar (PL). Também, levei em conta o teor da Carta ao Povo Brasileiro:

“A carta ao Povo Brasileiro é um dos documentos mais marcantes da nova república. Isso porque ela marca a ascensão de um político e de um partido de esquerda para a presidência do país. A carta em questão foi escrita por Luiz Inácio Lula da Silva em 22 de junho de 2002, em ano eleitoral. Eleição esta que foi marcada pela vitória de Lula e do Partido dos Trabalhadores pela primeira vez, após tantas tentativas. Estudiosos atribuem a esta carta a viabilidade da eleição de uma candidatura de esquerda no Brasil. Isso porque foi com esta carta que Lula acenou o diálogo com os mais diversos setores produtivos da sociedade, demonstrando sua preocupação não apenas com políticas de justiça social, mas também com o mercado interno e externo. Foi a longa carta ao povo brasileiro a responsável pela conciliação entre a esquerda petista e o mercado.

O país passava à época por uma profunda crise econômica no final do governo Fernando Henrique Cardoso. O presidente tucano foi o responsável, em seu primeiro mandato, pela estabilização da economia e pela criação do Real, moeda que possibilitou o controle da inflação e o crescimento econômico do país. No entanto, ao final de seu segundo mandato, uma nova crise econômica se aproximava. Havia medo de que um novo governo, direcionado à esquerda, não conseguisse lidar com a questão econômica a contento. O então candidato à presidência da república lança então a sua carta propondo a necessidade de discussão de uma agenda para lidar com a crise que se aproximava e afirmando que era preciso priorizar o desenvolvimento econômico sem esquecer da justiça social, bandeira que marcou a sua luta política desde o final da década de 1970, quando foi projetado como importante liderança sindical. (…)”
https://www.infoescola.com/historia/carta-ao-povo-brasileiro/

Reconheça-se: a missiva é um primor. Foi ela a responsável por afastar a aversão do mercado e de setores da sociedade às propostas do Partido dos Trabalhadores, assinada por seu líder máximo Lula. Confesso que a Epístola de Lula aos Tolos me convenceu de que eu poderia estar sendo preconceituoso demais. Dei tempo ao tempo, para ver como as propostas da cartinha seriam aplicadas. Reli a carta. Ela continua linda, embora desnudada e posta de quatro em praça pública, para que todos a vejam ao natural:
https://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u33908.shtml
Não demorou muito para que meu encanto começasse a se desfazer, e meus antis acima descritos voltassem com toda força. Me perdôo pelo breve lapso de ingenuidade franciscana, pois tenho direito ao erro, mas não me perdôo reincidir no erro. Não errarei.

Lula foi reeleito em 2006 deixando seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB) comendo poeira. O grande líder petista elegeu Dilma Rousseff em 2010 e em 2014. O vice-presidente da ex-guerrilheira era Michel Temer (PMDB). Após um série de erros e escândalos, o poste de Lula foi deposta em razão de um impeachment, e Temer assumiu e cargo de Presidente da República.

Não é necessário enumerar tudo o que aconteceu (salvo alguns acertos) nos 14 longos anos em que o PT esteve no poder. Foram 14 anos perdidos. Por conta dos inúmeros crimes cometidos contra o Brasil, Lula amargou um período na prisão, das qual saiu graças a maquinações de seus aliados na Justiça.

E eis que ele está de volta com mais sede poder do que antes. E com sede de vingança, também. Tudo junto numa coisa só. Entretanto, Lula tem como adversário o presidente Jair Bolsonaro, que não está nem um pouco disposto a dar sossego ao chefão do PT. Pela primeira vez em sua vida, o ex-Presidente e ex-presidiário tem, realmente, um adversário de fato. Na prática, Lula e Bolsonaro se veem como inimigos figadais dispostos a tudo. Cada vez mais eles mostram suas armas e suas garras.

Luiz Inácio se vale dos apoiadores de sempre: artistas, intelectuais, empresários, sindicalistas, movimentos sociais, setores da Igreja Católica, servidores públicos, agora somados a blogueiros, influenciadores digitais, celebridades e sub-celebridades, os quais formam um exército de famintos pelas migalhas a serem distribuídas por um hipotético governo petista. Por Outro lado, Jair Bolsonaro, que ajudou a direita a sair do armário, também mostra sua força. Um exemplo dessa força está nas dezenas de motociatas que acontecem em qualquer lugar onde o Presidente vá. E não é pouca coisa. Após muitos erros oriundos de sua língua sem controle, o Capitão do Povo parece estar sabendo jogar o jogo. Para desespero dos seus rivais, Bozo tem chances de ser reeleito.

A pouco mais de dois meses do primeiro turno das eleições de 2022, observamos a grande campanha de desinformação promovida pelos institutos de pesquisa, que apresentam números que favorecem Lula com ampla vantagem sobre Bolsonaro. Alguns institutos inflam/desinflam os percentuais de votos para mais ou para menos, conforme suas conveniências (ou interesses de quem paga tais pesquisas). Ainda se acredita que as projeções possuem o poder de influenciar o voto do eleitor. O Dia D dos institutos de pesquisa será na divulgação do resultado das apurações do 1º Turno. Poderá haver um segundo Dia D se houver 2º Turno. Algo me diz que alguns institutos terão que fechar suas portas. Torço para que isso aconteça.

Seja simpatizante ou não do Presidente da República, sabe-se que ele é um boi na linha, por atrapalhar interesses de toda ordem. E sabe-se que, desde o advento da facada, que a ordem é derrubar o Capitão, sejam quais forem os meios. Obviamente, até este momento, as tentativas falharam e, por consequência, acabaram tornando-o mais forte por causa do grande apoio que ele recebe.

Enquanto as pesquisas de intenção de votos torturam os números em desfavor de Jair Bolsonaro, uma grande massa de formadores de opinião, artistas, intelectuais, entre outros, guardam grande medo de revelar sua preferência por Bolsonaro e/ou desprezo por Lula, que só se apresenta em locais fechados e controlados, enquanto o Presidente cada vez mais se enfia entre o povo, mesmo correndo o risco de um novo atentado. Por uma simples questão de lógica eleitoral, essa exposição compensa os riscos.

Não me identifico com o bolsonarismo, tampouco me apresento como conservador, e menos ainda, como progressista (nesse particular, politico-partidariamente, sempre procuro jogar no time do eu sozinho), contudo, observando o que acontece na América Latina, onde a esquerda e a extrema esquerda estão voltando ao poder por meio do voto, os eleitores brasileiros perderam o direito de se abster de votar por não gostar nem de um nem de outro candidato. Lavar as mãos, no atual contexto, poderá custar muito caro. A título de exemplo, o presidente eleito do Chile só chegou ao poder graças ao grande número de abstenções. Não demorou, e os maus resultados estão começando a dar as caras. Os colombianos também imitaram os chilenos, enquanto os venezuelanos e os argentinos sofrem as consequências de suas escolhas.

Enquanto outubro não chega, eis que, mais uma Carta ao Povo Brasileiro é publicada, desta vez, com um título mais pomposo: CARTA ÀS BRASILEIRAS E AOS BRASILEIROS EM DEFESA DO ESTADO DEMOCRATICO DE DIREITO.

https://static.poder360.com.br/2022/07/carta-usp-signatarios-30-jul.pdf

Curioso que sou, “abri” a cartinha e quase morri. De rir.

“Banqueiros, empresários, artistas e integrantes da magistratura e do Ministério Público assinaram o manifesto em defesa da democracia organizado pela Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) e com o apoio de entidades da sociedade civil, como o Grupo Prerrogativas e a 342 Artes. O texto defende o processo eletrônico de votação e critica “ataques infundados” às eleições.
(…)
Algumas das pessoas que aderiram ao texto são: Alberto Toron – advogado; Armínio Fraga – ex-presidente do Banco Central; Candido Bracher – integrante do Conselho de Administração do Itaú Unibanco; Celso Antônio Bandeira de Mello – advogado; Eduardo Vassimon – presidente do Conselho de Administração da Votorantim; Fábio Alperowitch – sócio-fundador do Fama Investimentos; Guilherme Leal – copresidente da Natura; Horácio Lafer Piva – acionista e integrante do Conselho de Administração da Klabin; João Moreira Salles – cineasta; João Paulo Pacifico – CEO do Grupo Gaia; José Roberto Mendonça de Barros – economista.
(…)

Também assinam a carta os cantores e compositores Chico Buarque e Arnaldo Antunes, o ex-jogador de futebol Walter Casagrande, as atrizes Débora Bloch e Alessandra Negrini, o apresentador Cazé Peçanha e a chef de cozinha Bel Coelho.
(…)
Os ex-ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) Ayres Britto, Carlos Velloso, Celso de Mello, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Eros Grau também aderiram à iniciativa. O manifesto recebeu o nome de “Carta às brasileiras e aos brasileiros em defesa do Estado Democrático de Direito”. Será lido em evento realizado em 11 de agosto, no Pátio das Arcadas do largo de São Francisco. Segundo Floriano de Azevedo Marques Neto, diretor da Faculdade de Direito da USP, o ato não foi convocado por políticos ou partidos e busca defender princípios democráticos (…)”.
https://www.poder360.com.br/eleicoes/leia-lista-de-signatarios-de-manifesto-em-defesa-da-democracia/

A Carta é um primor de hipocrisia. Muitos dos seus signatários são identificados com as ideias de esquerda. Tem de tudo: ex-ministros do STF, juristas, advogados, artistas, intelectuais, empresários, religiosos, banqueiros, e o povo em geral. Esses signatários “defensores da democracia” são os mesmos que fecharam os olhos para o que aconteceu durante os 14 anos da dobradinha Lula/Dilma no poder. É de se estranhar o fato de que banqueiros conhecidos também assinaram a carta. Duvido que foi por amor à democracia. Observe-se que os governos petistas foram uma mãe para eles. E sabe-se que eles não tiveram a mesma sorte ($$$) com atual governo. Dá para imaginar a dinheirama que os bancos deixaram de arrecadar após a criação do PIX. Quanto aos artistas, já é público e notório que eles não conseguem viver fora das tetas do Governo, daí é que se explica a forte aversão ao atual Presidente.

Outro importante signatário da carta é o cantor, compositor e escritor Chico Buarque de Holanda, notório apoiador da ditadura cubana. Chico é um dos grandes nomes da MPB que se omitiram ante os escândalos patrocinados pelo PT.

Evidentemente, tomou-se o cuidado de não citar o Presidente Jair Bolsonaro, tampouco o ex-presidente e ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva. Nem precisa. No geral – e, lamentavelmente – as cabeças iluminadas que subscreveram a tal carta possuem (embora não admitam) forte apreço por ideais de esquerda. Só não vê quem não quer. Igualmente lamentável é saber que muita gente ingênua caiu nessa pegadinha. A carta ainda está recebendo assinaturas. A minha ela não terá.
Nesta carta, aponho o carimbo de “devolver aos remetentes”.

31/07/2022

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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