Entrevista Com Poetas Mortos (3) Augusto dos Anjos em Leopoldina, 1914

Barata Cichetto

Estou em Leopoldina, Minas Gerais, e o ano é 1914, e daqui a poucos meses ou dias, partirá o poeta das coisas arredias. Sento-me ao seu lado, um tanto acanhado, porque afinal foi ele, o poeta do hediondo e da dor, quem me fez em mais que um sofredor, e mais que um “Vencedor”, um domador. Abraço o homem, que parece tão augusto quanto um anjo celestial, e ele ameaça sorri, mas verbaliza, como quem me analisa, um Solilóquio de visionário, e recita, como o Monólogo de Uma Sombra, seu abecedário, seu rico vocabulário, de expressões tétricas, com suas métricas e rimas poéticas. Fala ele do “Evangelho da podridão”, do verme, da matéria em decomposição, da miséria e do escarro. Fico ali, quieto, acendo um cigarro, e tento prosseguir com minha entrevista. Todavia, abana no ar o poeta a sua caneta, ensaia uma careta, e rege a cena inaugural de um estranho circo de horrores da miséria nacional, numa metalinguagem cinematográfica irracional, que desfila feito um carro alegórico, em pleno carnaval. E então me grita o diretor do grupo escolar: “erguendo os gládios e brandindo as hastas, No desespero dos iconoclastas, Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! E eu, que ainda guardo seus poemas no meu coração de poeta, como no Sonho de Um Monista, uso da Psicologia de Um Vencido, para falar de mim: “Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco.” Tento arguir ao meu entrevistado sobre poesia, sua teratologia exacerbada, a exagerada paixão por imagens de dor, horror e morte. E para minha sorte, pergunta-me o bardo, como quem carrega enorme fardo: “Vês! Ninguém assistiu ao formidável / Enterro de tua última quimera. / Somente a Ingratidão – esta pantera – Foi tua companheira inseparável!” E a tristeza nos olhos do poeta é tão visível quanto sua dor é indivisível, que almejo me tornar invisível, nesta que é “a noite dos Vencidos!”. Uma noite qualquer de mil novecentos e quatorze, quando à minha frente tenho um quase fantasma, a lamentar sobre as coisas, “um fantasma que se refugia / Na solidão da natureza morta”. Enquanto eu, de pé à sua porta, ajo como aquele se importa, e com seus próprios versos suplico: “Se a alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga”. E assim se afasta de mim Augusto, transformado numa sombra. Mas antes de desaparecer ainda ouço-lhe dizer íntimos versos: “Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Encerra-se assim minha entrevista, e assim retorno ao meu tempo, que de meu nada tem, e que poesia não contem. Eu, apenas um poeta sem cadeira, um viajante sem barco; um domador sem chicote, deslocado em uma era, em que foi enterrada de forma formidável a minha última quimera.

29/06/2024

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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