Foto: Mercado Livre

Crônica: Guca Domenico – Higiene na Hegemonia

Guca Domenico


Sabendo que estava aprisionado (sem conhecer meus algozes) e sentindo enorme desconforto porque tenho alma de pássaro e só livre me dá bom, sofri a grande com tamanha ignorância no desenredo de minha vida.

 

Eu ia calma e bestamente bem sofrendo com as desilusões e acreditava que veria amanhecer um horizonte lindo, pleno da solidariedade dos homens bons e sinceros, e ainda não identificava que estes eram os canalhas cuja máscara cairia mais à frente, depois de descortinada alguma visão.

 

O anjo que mora em mim cujo nome é meu, apartou-me uma primeira vez e colocou um caminho sob meus pés, só me restou andar. Foi caminhar trôpego porque eu mesmo não tinha certo o rumo desenhado dentro da mentalidade que resistia em permanecer imersa na mediocridade da ilusão construída ano após ano, texto após música. Sim, meus ídolos me desorientaram com suas próprias loucuras e mais louco fui eu de ouvi-los. Esta foi a primeira limpa e caíram ideias que formavam o bloco da filosofia embolorada, cheia de um verniz que se pretendia sabido.

 

Foram anos nessa primeira travessia cheia de espinhos e muitos inimigos, mas o anjo de mim não permitiu esmorecimento, segui sem firmeza, mas segui, até que novas respostas surgiram para as mesmas perguntas e satisfeito com o que ouvi jurei firme prosseguir.

 

Houve outra oportunidade de limpeza, mais profunda, intensa. Atravessei o inferno seguindo as orientações do meu mestre. Vi o grande mal e sua pequeneza e quão divino é o amor. Sorri desdentado e grato. Jardim estava exposto e pude enxergar palmo à frente.

 

A segunda visada veio com força e certeza de estar caminhando rumo ao melhor destino que eu podia preparar para mim. Entendi a duras penas que se eu mesmo poderia ser o Criador, reclamar era tão abstrato quanto absurdo: quem escolheu tudo por mim fui eu, em nenhum momento permiti – e nem permitirei doravante – que minha vida fosse traçada por outrem. Limpo na primeira e fortalecido na segunda, ainda restava um tantinho de temor em me declarar diverso de todo proselitismo do meu tempo, um destempero insosso que acreditava ser ideologia. Não tem a menor lógica!

 

Esta vontade de acontecer na crença me chamou para a terceira visão que desanuviou de vez, rasgou o véu, mostrou a cara do algoz. Identifiquei o inimigo e descobri que o canalha se disfarça com roupagem das melhores intenções, mas não passa de uma sórdida e desprezível criatura que se alimenta de trevas. Ele não anda só, é legião. Descobri sua farsa e a desmascaro com vigor, suas reações são um espetáculo deprimente de cinismo. Estou em plena obra, agora fiquei estranho, destoando geral, indo noutro andamento. Preferi, porque minha essência responde assim, poetizar, harmonizar e amorizar, mas fique atento, imundo, porque você não é bem vindo à minha casa, estou vigiando seus passos, sua ronda não é solitária, tenho muitos olhos para medir suas intenções. Não banque o besta porque besta é o que você é. Tente disfarçar, ou melhor, saia de mansinho sem fazer alarde. Eu prefiro assim e aqui seu poder é nulo, zero.

Guca Domenico é músico e jornalista. Trabalhou em vários veículos de comunicação impressa e foi membro da banda Língua de Trapo, junto com Laert Sarrumor.

 
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