Crônica: Genecy Souza – (Manaus) Relatos de Uma Guerra Suja, a Continuação

Genecy Souza

O caos na rede hospitalar de Manaus por conta da crise no abastecimento de oxigênio hospitalar, item fundamental no tratamento de pacientes atingidos pelo vírus chinês, é manchete na imprensa mundial, dada as dimensões de tragédia que assola não apenas a capital, mas o estado do Amazonas como um todo.

 

Como se isso não bastasse, há relatos de que uma nova variante do vírus chinêsfoi detectada em Manaus. Essa mutação já responde por cerca de metade das novas infecções em Manaus, levantando preocupações sobre um risco maior de disseminação, alertoua imunologista Ester Sabino, que coletou dados genômicos de testes de covid-19 em Manaus que indicaram que 42% dos casos confirmados estavam infectados pela nova variante, que possui mutações semelhantes às variantes britânica e sul-africana. Segundo ela, que é professora associada do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da USP, é muito provável que a nova variante brasileira seja mais transmissível do que a cepa dominante atual, ainda que isso não esteja comprovado de forma definitiva. É bastante provável que essa mutação esteja por trás do grande aumento nos casos de pessoas vitimadas pela pandemia.

 

Neste sábado, 23/01/2021, o Governo do Estado publicou decreto estabelecendo novas normas que passam a valer de 25 a 31 de janeiro de 2021 em todos os 62 municípios amazonenses. Entre as determinações estão:

Restrição a circulação de pessoas nas 24 horas do dia, bem como a suspensão de atividades comerciais e de serviços consideradas não essenciais.

 

As atividades consideradas essenciais, como: supermercados, drogarias, bancos, feiras e mercados, restaurantes; advogados no exercício da função, profissionais da imprensa, a produção e o transporte de “bens essenciais à vida”, entre outros, poderão funcionar normalmente, mas obedecendo a horários pré-determinados.

 

Obviamente, profissionais, empresas, órgãos públicos e atividades diretamente ou indiretamente envolvidos no combate à pandemia terão prioridade em tudo.

O governador Wilson Lima, em uma live exibida em 23/01. deixou claro que as novas medidas não se tratam de lockdown, o que faz certo sentido, uma vez que, contrariando desejos de “salvadores de vida” e dos pregadores do Apocalipse de plantão, que abundam internet a fora (ou a dentro), tal determinação ganharia contornos de catástrofe não apenas econômica, mas humanitária. Na prática, o estado do Amazonas passaria a ser considerado, guardadas as devidas proporções, a Venezuela brasileira.

 

A próxima semana será uma prova de fogo para todos, inclusive este que vos escreve.

 

Enquanto isso, o caos na saúde pública em Manaus expõe, ao mesmo tempo, gestos genuínos de solidariedade e de várias formas de oportunismo, inclusive ideológico. Desde que o estado de coisas que assola a capital do estado e vários municípios do interior passou a ser alvo de todas as atenções, muito se tem visto nos jornais, redes de TV, redes sociais, sites, blogs, etc. no que tange ao drama manauara. Eis alguns:

 

Luciano Huck, apresentador da Rede Globo, milionário, dono de avião, pretenso candidato a presidente da República, em um vídeo oportunista divulgado no YouTube, no qual expõe um caldeirão cheio de dificuldades para o envio de cilindros de oxigênio para Manaus em razão da “logística difícil”, da distância, da falta de estradas, e tudo o mais que saiu de sua cabeça global, se limitou a incentivar um panelaço contra o governo federal. Só isso. Para quem está morrendo asfixiado um panelaço não ajuda em absolutamente nada. O dono do Lata Velha perdeu uma ótima chance de ficar calado, ou, ao menos, ter declarado que não podia ajudar. Quase ao mesmo tempo, o ídolo sertanejo Gusttavo Lima divulgou vídeo mostrando as imagens do embarque de 150 cilindros de oxigênio para Manaus. Outros artistas também demonstraram atitude semelhante, e o gás precioso já está sendo (ou já foi) utilizado por quem dele precisa. As redes sociais não pouparam o presidenciável narigudo, tampouco a esposa dele.

 

Felipe Neto, o “poderoso” digital influencer, também imitou Huck, inclusive elencando uma lista de dificuldades, entre elas, a tal logística. O imitador de focas se viu de mãos atadas, e claro, não perdeu tempo em criticar aqueles que, de uma forma ou de outra, meteram a mão na massa e fizeram a ajuda acontecer. Felipe estava mais preocupado em manter sua vaidade e seus leais seguidores, além de se defender da avalanche de críticas que vem recebendo por conta de seu confortável comodismo. Ao que parece, o marketing pessoal e político de ambas as celebridades saiu pela culatra.

 

Atualmente, o consumo de oxigênio no estado do Amazonas é de aproximadamente 76 mil m3. A produção local é de pouco mais de 28 mil m3 diários, causando um déficit de 50 mil m3. Evidentemente, esse números mudam conforme as oscilações de oferta e demanda, uma vez que novas usinas de produção de oxigênio estão sendo instaladas em regime de emergência, seja por parte do governo federal, ou por doação de entidades privadas, como o Hospital Sírio Libanês.

 

Pouco importa, agora, se Huck ou Felipe Neto mudaram de ideia, ou se eles enviaram os cilindros de oxigênio para Manaus. A briga de celebridades vaidosas não tem a menor importância neste momento. O que importa é que o fazer é mais importante que o falar, e toda ajuda é bem-vinda, seja de apenas um ou de mil cilindros de oxigênio.A propósito, Luciano e Felipe, obrigado pelo nada que fizeram.

 

Voltando ao quesito “logística”, não se trata de um bicho de sete cabeças. Todas as formas de transporte, exceto o ferroviário, são possíveis para alcançar Manaus. A prova disso é que aqui existe um dos maiores parques industriais do Brasil. Até mesmo a BR-319, a problemática rodovia que liga a capital do estado ao resto do Brasil está sendo útil no socorro às vítimas do vírus chinês. Tanto é que um comboio de carretas carregando oxigênio está a caminho, vindas de Porto Velho, em Rondônia. Essa conversa de que a logística é um obstáculo quase intransponível é pura conversa fiada. É evidente que transporte de cilindros de oxigênio exige uma série de cuidados, pois não de trata de uma carga qualquer. Ainda assim isso não é um empecilho.

 

A ajuda está vindo, também, de lugares inusitados, como a Venezuela do ditador Nicolás Maduro. Chegaram a Manaus por via rodoviária cinco caminhões carregando, ao todo, 107 mil metros cúbicos de oxigênio produzido na fábrica da White Martins localizada naquele país. O gesto de bondade do déspota está carregado de significado político. Segundo especialistas, o gesto visa melhorar a imagem do tirano ante a opinião pública de ambos os países. Nisso, o ex-presidente e (por enquanto) ex-presidiário Luís Inácio Lula da Silva aproveitou a oportunidade para agradecer o facínora pelo “gesto de grandeza política”, prometendo restabelecer relações diplomáticas com o país vizinho “tão logo conquistemos a democracia de volta para o Brasil iremos restabelecer relações políticas civilizatórias com o governo e o povo irmão da Venezuela”, enfatizou o líder da quadrilha desbaratada pela Operação Lava Jato. Cabe destacar que o oxigênio hospitalar também será útil aos refugiados do regime despótico do ditador Maduro que vieram tentar a sorte no Brasil. Muchasgracias, Nicolasito.

 

 

Já a China, lugar de surgimento do vírus, também ofereceu ajuda financeira e material, inclusive de oxigênio hospitalar, que deverá chegar nas próximas semanas. É o mínimo que o gigante asiático pode fazer. Vamos ver o que acontece.

 

 

Paralelo ao drama envolvendo a escassez de oxigênio hospitalar, a vacinação da população já se iniciou em Manaus e no demais municípios do estado do Amazonas:

“Com a entrega das primeiras 256 mil doses de vacina contra a Covid-19, do Governo Federal, e mais 50 mil doses do Governo de São Paulo, o Amazonas dará início à execução do Plano Operacional da Campanha de Vacinação. Ao todo, serão 306 mil doses da Coronavac, que serão destinadas a grupos prioritários conforme as diretrizes do Plano Nacional de Imunização (PNI), preconizado pelo Ministério da Saúde (MS).

 

A operação para execução do plano operacional para distribuição da vacina começou nesta segunda-feira (18/01), em reunião do Comitê de Resposta Rápida – Enfrentamento da Covid-19, em Manaus. Nesta manhã, o governador Wilson Lima participou da cerimônia de entrega do lote com 256 mil doses entregues pelo MS, em São Paulo. A previsão é que as doses cheguem a Manaus na tarde desta segunda-feira.

 

O Plano Operacional seguido está publicado no site da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM) e segue as diretrizes do Plano Nacional de Imunização (PNI), preconizado pelo MS.

De acordo com o secretário de Estado de Saúde, MarcellusCampêlo, a primeira reunião foi para comunicar os órgãos sobre a quantidade de doses e procedimentos iniciais. ‘A comunicação foi para passar o número já anunciado de doses e também para que as equipes já comecem a se preparar para uma longa noite de recebimento de vacinas’, explicou”.

 

http://www.saude.am.gov.br/visualizar-noticia.php?id=5699

 

Mas as coisas não saíram como o planejado. Denúncias de desvios de finalidade estão pipocando:

“Depois de ser interrompida nesta quinta-feira (21), a vacinação contra covid-19 dos profissionais de saúde que atuam em Manaus continua suspensa hoje. Segundo a prefeitura, a imunização na capital amazonense foi interrompida para que houvesse uma reprogramação na distribuição de doses, em meio a denúncias de aplicação em pessoas fora do público prioritário, que são profissionais que atuam na linha de frente contra a pandemia.

 

A suspensão duraria 24 horas, mas nesta sexta-feira (22) a capital informou que a vacinação ainda não foi retomada. 

 

“A vacinação dos profissionais de saúde que atuam em Manaus ainda não foi reiniciada. Estão sendo discutidos com o estado os ajustes finais e a logística de distribuição das doses. Tão logo a Secretaria de Estado de Saúde (SES) informe ao município a listagem com locais e nomes dos profissionais a serem vacinados, toda a programação será retomada”, informou, em nota, o Departamento de Comunicação da Secretaria Municipal de Saúde.

O consenso entre prefeitura e Secretaria Estadual de Saúde é que, nesse primeiro momento de vacinação, o profissional que está mais exposto ao novo coronavírus terá prioridade. A vacina deve ser dada para quem trabalha nas unidades de referência, de média e alta complexidade, para quem tem contato direto com pacientes com covid-19, levando em conta fatores como comorbidade e idade. Na quinta-feira, antes da imunização ser suspensa, só quem trabalha nas ambulâncias do Samu havia recebido a dose.

 

Desvio: Ainda em Manaus, houve também uma polêmica em relação a fotos de vacinação. O prefeito de Manaus, David Almeida, falou sobre uma portaria proibindo fotos de vacinação, numa transmissão ao vivo nas redes sociais.

 

No vídeo, David Almeida disse que circulam fotos de pessoas fora do grupo prioritário sendo vacinadas. Alegou que não são vacinas contra a covid-19, e sim contra outras doenças. Segundo ele, são fake news.

O Ministério Público do Amazonas vai apurar as notícias de que houve desvio de vacinas para pessoas que não pertencem ao grupo prioritário.

O Tribunal de Contas da União (TCU), por sua vez, começou nesta semana um grande levantamento de informações referentes aos planos estaduais de vacinação contra a covid-19, com destaque para o mapeamento dos grupos prioritários, mecanismos para assegurar o respeito a essas prioridades e a logística de distribuição e aplicação dos imunizantes”.

 

https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2021-01/vacinacao-contra-covid-19-em-manaus-continua-suspensa

Este é o resumo de mais um ato da tétrica ópera cabocla que se desenrola em Manaus. Enquanto ainda falta oxigênio para muitos, sobra fôlego para os poucos privilegiados que estão furando a fila de vacinação por não estarem na lista de grupos prioritários, desviando verbas públicas em proveito próprio, colocando seu fanatismo ideológico e partidário acima da razão, alimentando ambições eleitorais, e, além do mais, fazendo jus ao triste perfil da elite brasileira que, por uma questão de posses, fama, ou de influência política, se acha no direito de atropelar os direitos das demais pessoas só para obter toda sorte de privilégios. Sabe-se que no Brasil muita coisa é feita por baixo dos panos. Enquanto milhares de seres humanos padecem, não só em razão de um vírus estrangeiro, mas pela indiferença e egoísmo de uma casta de privilegiados, que deixa bem claro que ainda falta muito para a sociedade brasileira se classificar como moderna. Salvo as exceções de praxe, por ora, o que vale mesmo é a Lei de Gerson.

 

É só. Por enquanto…

Genecy Souza – Escritor, Comerciário – Manaus – AM
Nascido em Manaus-AM em 1964, três semanas após aquele 31 de março/1º de abril, quase tão pobre quanto o Cristo, cresceu em um dos bairros mais fodidos da cidade, que ainda sofria as consequências do fracasso da época áurea da borracha. Desde muito pequeno adquiriu o gosto pela leitura, hábito que lhe causou fome de quase tudo. Nunca aprendeu nada na escola. Não é formado em profissão nenhuma, mas já exerceu um monte delas: office-boy, auxiliar de escritório, soldado, comprador, caixa, comerciário. Tentou ser empresário do ramo de discos, mas quebrou a cara. Hoje, trabalha em um escritório de contabilidade.
Sua fome de quase tudo também inclui: música, cinema, política, e tudo o mais que apareça em seu radar. É ouvinte de Lou Reed, David Bowie, Pink Floyd, Leonard Cohen, Billie Holiday, Curtis Mayfield, The Doors, Nina Simone, Belchior, Sérgio Sampaio, Raul Seixas, entre outros. Gosta de ser dono da própria opinião, sem no entanto impô-la às pessoas. Odeia ser patrulhado, vigiado, fiscalizado, rotulado, controlado, dirigido, censurado, lacrado, sacaneado e, como está na moda, “cancelado”. Tem ojeriza a todas as formas de extremismo, sobretudo, o fascismo, o nazismo e o comunismo, e é um observador crítico do mundo atual. Chegou à conclusão de que é individualista por natureza. Deixou de frequentar as redes sociais para manter a sanidade mental que lhe resta. Prefere andar sozinho.
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista em papel Gatos & Alfaces, ambas publicadas por Luiz Carlos Cichetto. Ainda vive em Manaus.

 
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