Foto: Mercado Livre

Crônica: Guca Domenico – Cultura Em Sete Pontos

Guca Domenico


1. Hegemonicamente dominada por intelectuais sem títulos, a cultura brasileira é um mar de mediocridade, resultado da combinação entre “povo” e “guias”. De um lado a ignorância primata que busca atender o hedonismo sem perspectiva, na outra ponta a teorização rastaquera cujo verniz acadêmico camufla intenções sórdidas.


2. Os meios de difusão estão aparelhados pela patranha que considera a última palavra o binômio “explorados” versus “exploradores”, apreendida do sistema educacional comprometido desde a raiz. As crianças brasileiras recebem teorias prontas que justificam os fins, jamais são oferecidos meios para compreensão que não estejam de acordo com a cartilha.


3. Escola no Brasil é um verdadeiro matadouro da liberdade de pensamento e impera a vingadora pedagogia do oprimido que não aponta adversários combatíveis ao nível de ideias, e sim inimigo a exterminar, moral e fisicamente. Desde tenra idade a criança é exposta ao palavrório pragmático de educadores morais. Professores que estimulam o contraditório são banidos como faziam e fazem os fanáticos de inteligência duvidosa com os infiéis.


4. Décadas de proselitismo desta natureza tem como produto milhões de alunos que agora operam nas escolas sob a alcunha de professores, quando na verdade são reprodutores autômatos sem capacidade de discernimento. Conversar com um indivíduo assim é experiência desagradável que reforça a descrença na raça humana, dada a quantidade de lugares-comuns em sua fala. É uma verborreia decorada, monólogo interior que bem faz o interlocutor em ouvir calado para não estimular a jactância que deveria sair por outro orifício que não a boca.


5. Se a educação é incapaz de expandir mentalidades, ao contrário, as comprime, que milagre poderia salvar a cultura? Óbvio que é Impossível.


6. Quando o consumidor de cultura se arrisca a entrar no cinema para assistir a uma película nacional, excepcionalidades à parte, basicamente assistirá a um tratado de “problemas sociais” dimensionados à luz do entendimento marxista de quem jamais passou da segunda página da Bíblia do Profeta Karl. Não há uma película que trate, por exemplo, da morte. Filmes que edulcoram bandidos (vítimas da sociedade) existem à mancheia. Dramas pessoais são tidos como algo sem relevância, “coisas da classe média”. Não são vistos com bons olhos pela crítica e têm sua carreira abreviada por falta de público que é amestrado para responder somente a estímulos acertados. Na concepção dos cineastas brasileiros existe o pobre bom e o rico mau. A classe média é ridicularizada numa espécie de autoflagelo libertador dos pecados do consumismo. Supõe-se assim que os pobres não tem ambição alguma – nem devem! Precisam ser mantidos onde estão, tutelados pelos guias para não cair na tentação do consumismo da classe média. E os ricos? Bem, os ricos financiam os cineastas.

7. A crítica musical da sociedade capitalista é feita ingenuamente por rap e rock’n roll, justamente os gêneros nascidos no território símbolo do capitalismo, os EUA, e exportado mundo afora como forma de contestação do status quo. Para possibilitar tal manifestação há em seu entorno a indústria cultural que comercializa desde megaeventos a instrumentos musicais, camisetas e bottons, utilizando da compra de espaços em programas de rádio e TV para impor a estética da rebeldia empacotada a vácuo, já estelirizada e pronta para o consumo.

Guca Domenico é músico e jornalista. Trabalhou em vários veículos de comunicação impressa e foi membro da banda Língua de Trapo, junto com Laert Sarrumor.

 
Compartilhe
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

3 Comentários
Newest
Oldest Most Voted
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários
GENECY DE SOUZA

O item 6 já é o bastante para acionar a metralhadora do cancelamento, haja visto que a elite da Sétima Arte nacional é sensível até os ossos às críticas e questionamentos quanto à forma e o conteúdo, no que tange a abordagem de temas sociais e políticos complexos, quase sempre observados por uma lupa de viés marxista.

Da metade da década de 80 até mais ou menos o final da década de 90, tentei entender a mensagem que as pessoas por trás dos roteiros e das câmeras. Entendi quase todas; em algumas, nem me dei a esse trabalho.

O tempo passou e o cinema nacional se modernizou, mas o velho maniqueísmo continua o mesmo, pois, salvo exceções, as cabeças por trás dos roteiros e das câmeras seguem usando a mesma lupa, seja por comodismo ou por medo das patrulhas que abundam por aí.

Genecy

Texto impecável. O que se vê, se ouve e se fala nestes tempos de correção política e de tráfico de ideias pré-fabricadas, revela que a abundância de informação ao alcance de todos, não significa necessariamente uma abertura ao novo. Salvo exceções, ideias e conceitos carcomidos pela obsolescência, ainda são o norte que une os oportunistas e os tolos de sempre.

Lu Genez

como sempre, uma visão extremamente realista do que se é.

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091