Enciclopédia Rock – Volume II – 07 – O Início do Rock

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Walter Possibom


Apesar de no decorrer de sua história o Rock and Roll ter ficado mais marcado por astros brancos, deve-se aos negros, escravos trazidos da África para as plantações de algodão dos Estados Unidos, a criação da estrutura rítmica e melódica que seria a base do Rock. Os cantos entoados pelos negros durante o trabalho, no início do século XX dariam origem ao Blues. Focado basicamente no vocal, o Blues era geralmente acompanhado apenas por violão.

Enquanto o Blues se desenvolvia nos campos e pequenas cidades, nas grandes cidades por sua vez tocava-se o Jazz, baseado na improvisação e marcado por bandas maiores e arranjos mais elaborados, com percussão e instrumentos de sopro.


Por um outro lado, nas igrejas evangélicas desenvolvia-se a música gospel negra, que embora obedecendo as escalas de Blues, caracterizavam-se por rítmo frenético ou mesmo sensual, canções de redenção e esperança para um povo oprimido. A música era acompanhada por piano ou órgão.

As guerras mundiais serviram, entre outras coisas, para acelerar vertiginosamente a produção industrial nos Estados Unidos. Os negros do Sul, descendentes de antigos escravos da lavoura, que vinham cultivando sua música de raízes africanas, acabaram por se constituir na grande massa de operários das indústrias do Norte e do Oeste, formando guetos por todo o território americano. Nessa condição, espalhavam seus três tipos básicos de música: Rhythm’n’Blues, gospel e ballad. Isso forçou o relacionamento entre negros e brancos favorecendo a influência mútua entre a música negra (Blues e seus derivados) e a música branca (principalmente Country e Jazz).
Da fusão do Blues original com os ritmos mais dançantes dos brancos surgiu o rhythm and Blues, que levou a música negra ao conhecimento da população consumista.

No início da década de 50, com o final da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Coréia, os Estados Unidos despontavam como grande potência mundial. Mais do que em qualquer outro momento da história era incentivado o gozo da vida, marcada que estava a sociedade pelos anos de sofrimento da guerra. A população de maneira geral e inclusive as minorias pela primeira vez tinha dinheiro para gastar com supérfluos como música. Com o anúncio da explosão de bombas atômicas pela União Soviética e um possível “fim do mundo” a qualquer momento, a ordem geral era aproveitar cada momento como se fosse o último.

O apanhador no campo de centeio – J.D. Salinger

Numa época de mudanças surgia uma corrente intelectual inédita contrária à antiga política, rebeldia esta refletida na literatura, como no livro O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, mas mais notadamente no cinema com a glorificação da antítese dos antigos valores em filmes como O Selvagem (em que Marlon Brando interpreta um delinquente).

Em pleno crescimento econômico capitalista o consumo era considerado fator primordial para geração de empregos e divisas, bem como o melhor antídoto contra o comunismo, e a busca por novos mercados consumidores era incessante. Obviamente a parcela mais jovem da população rapidamente se mostrou mais facilmente influenciável e ao público adolescente pela primeira vez foi dado o direito de ter produtos destinados ao seu consumo exclusivo, bem como poder de escolha.

Estranhamente, porém, os jovens brancos em grande parte se negavam a consumir a música normalmente consumida pela maioria branca. Começaram a buscar na música dos guetos algo diferente. Com a indústria fonográfica de grande porte não preparada para suprir o público consumidor com este tipo de música ganharam importância selos pequenos de música negra.

A aceitação deste tipo de música pelo público de maior poder aquisitivo levou a incipiente indústria fonográfica da época a investir na evolução do estilo e procura e contratação de novos talentos, principalmente na procura de um jovem branco que pudesse domar aquele estilo aliando a ele uma imagem que pudesse ser vendida mais facilmente. Tornaram-se comuns os relançamentos de versões de músicas dos negros regravadas por artistas brancos, que terminavam por tirar os verdadeiros criadores do estilo do topo das paradas.

Uma outra grande revolução de costumes estava em curso. Sexo deixava de ser tabu e passava a ser considerado diversão (tanto para o homem como para as mulheres). As canções de amor por pressão do público comprador passavam a dar lugar a letras mais sacanas, embora muitas vezes fosse necessário criar versões atenuadas de versos mais diretos.

Os jovens na década de 50

A mistura explosiva da empolgante música negra com o consumismo branco adolescente havia sido feita… a explosão era questão de tempo…

Mas quem teria sido o homem que mereceria ser coroado como responsável pela “criação” do Rock and Roll? Obviamente um estilo musical tão complexo não poderia ter sua invenção atribuída incontestavelmente a apenas um indivíduo ou grupo de indivíduos. Mas se alguém merecesse ter seu nome associado à “criação” do Rock como o conhecemos este alguém não seria Elvis ou Bill Haley ou Chuck Berry ou nenhum outro cantor ou band leader. O “inventor” do termo Rock and Roll e grande responsável pela difusão do estilo foi o disk jokey Allan Freed, radialista de programas de rhythm and Blues de Cleveland, Ohio, que primeiro captou e investiu na carência do público jovem consumista por um novo tipo de música mais energética e primeiro percebeu o potencial comercial da música negra.

Trixie Smith

O termo Rock and Roll era uma gíria dos negros americanos, referente ao ato sexual, presente inclusive em muitas letras de Blues (a exemplo de My Daddy Rocks Me With a Steady Roll da cantora Trixie Smith, de 1922). Allan Freed foi o responsável por usar o nome sonoro para denominar o novo estilo musical em que estava investindo.

Em 1951 Allan Freed criou o programa Moon Dog Show mais tarde renomeado para Moon Dog Rock and Roll Party ao mesmo tempo em que promovia festas de dança com o mesmo nome, movidas inicialmente a Blues e rhythm & Blues e mais tarde pelo ritmo que havia ajudado a definir e divulgar. Suas festas apesar dos constantes atritos e reclamações por parte das autoridades eram um sucesso. Tumultos lhe valeram dezenas de processos por incitação à violência.

Enquanto a juventude adotava o novo ritmo como sua marca registrada os adultos, principalmente das parcelas mais conservadoras da sociedade, a taxavam como causa de toda delinquência juvenil… apesar do exagero dos protestos, não estavam de todo errados, o gosto pelo Rock era realmente parte do estilo das gangues juvenis.

Walter Possibom, São Paulo, SP, é escritor e guitarrista da banda Delta Crucis e Livre Pensador.
Facebook: https://www.facebook.com/wpossibom/

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