Dos Ridículos da Vida — Uma Bula de Remédio e as Novas Tecnologias Digitais

Samuel da Costa

Da minha passagem pelos subterrâneos do baixo escalão da máquina pública local, acumulei várias situações ridículas, às vezes trágicas e às vezes cômicas e muitas das vezes ambas. Ressalto uma passagem específica, eu membro do aparelho repressivo do estado, fiz amizade com outro membro do aparelho repressivo do estado. Ele um vate, um mestre poeta popular, ligado à escola literária do romantismo, o movimento espírita e a era de ouro do rádio.

E ressalto aqui que no primeiro decênio do século XX, eu homem negro, ligado as belas-letras pós-modernas, marxiano, materialista histórico, estava diante de um outro homem negro imerso as belas-letras, imerso na onda tecnológica do início do século XX. Eu estava diametralmente diante do meu oposto, das minhas visões de mundo e de práticas literárias.

Onde tinha tudo para dar errado, fizemos uma boa parceria no mundo das belas-letras, não quero aqui me alongar na nossa saga, nas quebras literárias e matar o leitor de tédio. O que fica é que o meu irmão de farda e de literatura se modernizou, outrora estagnado, teve um significativo avanço no mundo literário.

Para ir direto ao ponto, o meu irmão de farda e de literatura, montou um ateliê na própria casa e aprendeu a se conectar na rede mundial de computadores. O vate, nascido ainda na primeira metade do século XX, teve a ideia de repassar o que aprendeu para a irmã octogenária, ela também montou um escritório particular, mas para se comunicar com parentes que vivem distante dela.

Até aí nada de novo no front, e para os ridículos da vida, lá estava eu fazendo uma visita para a senhora idosa e conectada no mundo virtual. Até ela pedir para fazer pesquisas no novíssimo computador de última geração. Entre amenidades fúteis, ela me pediu para encontrar uma bula de um remédio na rede mundial de computadores. Não soube o porquê, mas vi os problemas à vista, eu com o meu um metro e sessenta e oito, olhei para trás e lá estava o marido da senhora, um homem negro de um metro e noventa. Ele com a cara amarrada lançada para mim, me dizendo que não era uma boa ideia, e a senhora ordena que eu parasse de olhar para trás segue-se em frente. Encontrei o que ela queria, deu um zoom na bula e lá estava ela, a senhora de um metro e meio lendo em alto e bom tom os efeitos contrários do tal remédio para o coração.

E lá estava eu com medo de um ser quase o dobro do meu tamanho e este por sua vez com medo de uma mulher de um metro e meio. Ressalto aqui que levei um bom tempo para fazer uma outra visita ao casal idoso. Onde acumulei mais algumas histórias que vou deixar para depois.

Fragmento do Livro: “Dos Ridículos da Vida”.

Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina. – Email: [email protected]

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