Dos Ridículos da Vida — Entre as Luzes e as Trevas

Samuel da Costa

Começo esta pequena digressão, não me rotulando ou, mesmo me justificando, eu somente quero fazer um relato, de uma pequena particularidade corriqueira, de quem é do baixo escalão da máquina pública em uma pequena e perdida cidade.

E lá estava eu no início do século XXI, com a cara nos livros, estava chovendo e fazia frio, e a poucos meses dali, eu iria prestar o temível vestibular, para entrar na universidade. Eu, devidamente uniformizado, estava trabalhando em um aparelho de lazer, na periferia da minha cidade, um pequeno espaço arborizado, com direito a um parque infantil e aparelhos de ginástica à beira de pequeno rio, que corta a cidade.

A chuva fina e fria, eram o bastante para produzir lama e deixar o espaço vazio. E eu não estava sozinho, estava ladeado dos zeladores do espaço, o responsável, um ajudante do responsável e uma zeladora. Todos nós em um cubículo, em silêncio em uma cena pitoresca, em uma manhã em um início de semana do inverno do sul.

Em mais um dia no paraíso, para a minha surpresa, a minha superiora hierárquica, veio pegar o meu ponto, a querubina e a sua motoneta pré-histórica estavam encharcadas. Digo eu, para a minha surpresa, porque a semideusa estava doente e o departamento de segurança pública local, não tinha veículos motorizados de quatro rodas.

A querubina estava ofegante e indignada, com veemência, me inquiriu porque eu não estava fazendo as rondas periódicas, no perímetro do pequeno passeio público. Eu olhei bem para a querubina, olhei para trás, para a janela atrás de mim e vi o espaço arborizado que eu estava guardando e resguardando. E mais uma vez a querubina, fez a mesma pergunta, eu como agente do aparato repressivo do estado, investido de toda a subserviência que o aparato paramilitar que eu servia e ainda servo, no momento que escrevo este relato. Eu disse que iria sim, fazer as rondas do perímetro. O responsável do aparelho que estava acendendo um palheiro, um cigarro artesanal, com dificuldade conteve o riso, homem que estava ao lado e um pouco atrás da querubina. Os demais companheiros de subsolos, denotavam que não entenderam nada. Surpresa com a minha subserviência bovina, a minha superiora hierárquica, feliz da vida com o dever cumprido ligou a motoneta pré-histórica e desapareceu. E o universo se recompôs e eu voltei aos meus estudos e não fiz ronda alguma coisa.

Anos depois, eu percorrendo os corredores da vida, encontrei e falei brevemente com a querubina em questão, ela muito doente me disse constrangida que o querubim-mor, o chefe de divisão, passou de carro na frente do aparelho de lazer. O querubim-mor indignado, viu que eu não estava fazendo as rondas, ligou para a minha chefe imediata e cobrou dela a minha inação. Anos depois, a doença da minha superiora hierárquica se agravou e ela faleceu, a doença se agravou devido às rodas de motoneta, que ela fazia em meio às chuvas e frios.

Fragmento do Livro: “Dos Ridículos da Vida”.

Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina. – Email: [email protected]

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