Dos Ridículos da Vida – Ao Leste do Éden

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Samuel da Costa


Bem antes de eu ser exilado, em uma remota repartição pública, em uma região desértica da cidade, em que vivo. Não! Eu não estava à espera dos bárbaros, pelo menos, não até naquele momento. Pois bem, antes de eu escutar os tilintares de chaves suspensas no ar, antes de eu ser infantilizado, por uma belíssima e celestial querubina de ébano, eu estava flanando no limbo. Eu vagava a esmo, indo de repartição em repartição, mas como eu fui parar em tal degradante situação? Tem como uma breve resposta, um dizer hindu: Quando elefantes brigam, quem se dá mal é a grama! ”

Voltando ao planeta terra, deixo os assuntos vagos e nevoentos para depois. Lá estava eu, em uma inauguração de uma unidade de saúde básica, o dito postinho de saúde, que pelas minhas contas já tinha sido reformado e entregue para a sociedade local, umas cinquentas vezes.

Pois bem, eu, o membro efetivo, do aparato repressivo do estado, circulava uniformizado, em meio aos civis, composto por uma maioria de puxa sacos de plantão do alcaide local. Um péssimo começo, digo eu, para uma longa e solitária noite de trabalho. Pois bem, eu não quero ser enfadonho aqui, nem um pouco, eu não vou reproduzir os longos discursos dos políticos e tecnocratas, que entregaram o aparato de saúde para o povo.

Contudo, faço aqui uma menção de um breve discurso, em particular, de um assessor, de um sub-assessor do assessor de um secretário do alcaide de plantão, um discurso dito particularmente para a minha pessoa é claro. O cidadão, um querubim, habitante do andar de cima, me disse com toda a propriedade deste mundo e outros possíveis mundos. O celestial ser disse o que me cabia, o que eu deveria fazer e como eu deveria me comportar. Pois bem, um prelúdio das tais chaves tilintando suspensas no ar, creio eu e como resposta mandei o querubim se catar e vida que segue. Depois de uns bons anos de aparato repressivo, de eu posto diante da lei usando o portentoso uniforme paramilitar, creio que eu ser infantilização por parte dos querubins e querubinas.

Desmontado o circo, as luzes se apagaram e fico eu sozinho com um aparato estatal novinho da silva, em um bairro perigosíssimo, cheio de gente empobrecida, o bairro onde me criei alias. Era um inverno, bem típico do sul, frio e muito frio e quando se aproximava da alvorada eis que alguém bate na porta do aparato. Já que o meu turno começou mal e como sou um marxista e ateu materialista, não poderia rezar para que não terminasse do mesmo jeito.

Tarde da noite, alguém bate na porta, abri a moderna porta envidraçada, diante de mim uma senhora idosa, que bateu na porta, ela diante da lei, eu como membro de um órgão repressor. Vi umas vinte pessoas, de pé e no noturno frio invernal. Eu, o representante do estado, deveria pô-la no seu devido lugar e dizer que o aparato estatal, estava fechado, naquela perdida hora noturna. Mas, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, a senhora idosa me pediu uma cadeira. Eu, como cidadão do limbo, olhei com mais atenção e vi mais três senhoras em meio a pequena multidão.

Agora vem na minha mente, as chaves tilintando suspensas no ar, como eu queria tê-las escutado elas antes deste fato. Então, eu decidi abrir a porta do aparelho estatal e deixar o povo sair do frio e do relento. Quando a pequena multidão, adentrarem na repartição pública, eu pedi gentilmente que eles e elas, se organizassem sozinhos, por ordem de chegada. Problemas à vista, eu deveria ter pensado bem, não com o coração de um cidadão do baixo clero, do andar de baixo, do subsolo da sociedade estratificada. E sim, com a racionalidade dos celestiais querubins e querubinas, dos andares de cima, pois a conta não tardaria e uma pesada pata de elefante cairia na minha cabeça de formiga.

Eu como problemas e desgraças, nunca andam sozinhos, meia hora depois, eis que surge na porta do aparato estatal, uma menina. Ela deveria ter uns dezesseis para uns dezessete anos, digo pelas roupas que vestia, pois ela era bem maior que eu, coisa que não é difícil. Com olhos vidrados, andar arrastado e lento, ela segurava o antebraço esquerdo dilacerado por golpe de algum objeto contundente. E logo, a pequena multidão, passou a olhar para a menina-moça, que andava trôpega, ele com olhos estarrecidos, pois estávamos em uma unidade de saúde e sabemos que lugares assim, estas cenas não acontecem.

Eu me adiantei e fui ver o que ocorreu com a menina-moça, olhei bem para o antebraço dilacerado dela. Eu perguntei o que havia acontecido, e ela me relatou que estava bebendo com um amigo e depois que uns goles e outros o tal amigo avançou para cima dela. E como percebeu que não conseguiria nada, o bom amigo, pegou uma jarra de vidro e tentou acertar a cabeça da menina-moça. Uma pequena tragédia bem comum nos subsolos, da sociedade estratificada.

A retirei dos olhares estarrecidos, pensei em deixa-la em uma das salas de atendimento do aparato, mas eu não poderia deixa-la sozinha. Então, decidi conduzi-la para a sala da gestora do aparato estatal. Chegando lá, pedi para a menina-moça se sentar e peguei o telefone, liguei para o aparato repressivo local. Eu me identifiquei, disse onde eu estava e relatei o ocorrido, para uma querubina. Do outro lado da linha, a celestial atendente, do aparato repressivo, pediu os meus dados pessoais, disse que era estranho o meu relato, nessa hora disse para mim mesmo, que eu também achei estranha a história. Mas por fim, informei que o bom amigo da menor de idade, poderia estar à espreita e solicitei uma viatura, para o local. Tranquilizei a menina-moça, dizendo que ela logo seria entendida e partiu, pois eu tinha um aparelho estatal para resguardar e guardar e ela precisava ficar sozinha.

Eu poderia acabar aqui o meu relato, mas tinha uma primeira patada de elefante à vista. Para espanto meu, pois quanto maior o cargo mais tarde chega ao trabalho, pois a querubina-mor, a gestora da unidade de saúde chegou para abrir o aparato de saúde. E susto da querubina, pois a unidade de saúde estava aberta e a sala de espera estava lotada.

A primeira patada, que cai na cabeça da minha pessoa, foi ouvir da querubina celestial e diante da pequena multidão, qual o motivo de eu ter aberto o aparato de saúde antes do horário previsto. Eu relatei que eu nada sabia dos horários do aparato estatal. A segunda patada, em público nem veio, pois o espanto maior, para a celestial querubina gestora, ao saber por mim, que uma feminina menor de idade, agredida estava na sala dela. Despedi-me com o bom sentimento de dever cumprido e com a certeza que não colocaria mais os pés naquele aparelho de saúde pública.

Dos muitos ridículos da vida, um tempo depois lá estava eu no meu doce exílio e prestes a ser infantilizado por uma belíssima querubina de ébano e chega nas minhas mãos uma convocação da procuradoria. Foi até a procuradoria saber o que havia, para além das densas alturas. Eu tive que responder a inquirição dos motivos de eu abrir o aparato de saúde, antes do horário e o que uma menor de idade fazia alojada no aparato de saúde. Depois de contextualizar o contexto de eu abrir o aparato antes do horário e abrigar uma menor agredida de para a comissão de ética. Dos muitos ridículos que a vida me impôs fui informado de mais dezesseis denúncias estavam abertas contra a minha pessoa. Elegei perseguição, pois a denúncias pararam quando o querubim-mor da minha repartição perdeu o cargo. E nos meses que se seguiram me informaram que todas foram arquivadas.

Fragmento do Livro: “Dos Ridículos da Vida”.

Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina. – Email: [email protected]

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