Diário de Bordo, Data Estelar: 23 de Novembro de 2002

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Barata Cichetto


Pompéia…. o bairro onde o Rock Brasileiro mostrou que existia…! O SESC

Jales é uma cidade quase no limite do estado de São Paulo. Mais de seiscentos quilômetros da capital. Há cerca de um ano a Patrulha tocou ali, para cerca de mil pessoas, numa chácara. Desta vez, o lugar é um galpão alugado pelo Carlinhos, figura muito simpática que tem um bar de Rock na cidade, o TNT Rock Beer.

Chegamos á cidade por volta das nove da manhã e fomos direto ao Hotel Terraço, onde formos recebidos pela simpaticíssima pessoa do Euclides, dono do mesmo. Aliás a gentileza e simpatia de todos os funcionários desse hotel é algo que deve ser destacado. Das arrumadeiras, porteiros, recepcionistas, todos muito amáveis.

Depois de um merecido descanso de umas três horas, vamos ao local e começamos a descarregar o “Azulão”. Uma forte chuva despeja sobre a cidade, mas poucas horas depois e vários problemas com o som, a banda passa o som e saímos para jantar.

Por volta da meia noite o Carlinhos vai buscar a gente no hotel e rumamos para o galpão. A casa está bem cheia, a banda de abertura que é da cidade e que também abriu o show da vez anterior está fazendo seu som, com o baterista, algo difícil, levando o vocal. O repertório são covers de outras bandas e algumas músicas próprias.

Uma da manhã e a Patrulha entra no palco. Já no inicio, pau no microfone do Júnior que o impede de fazer, como costumeiramente faz, as apresentações das músicas. O pessoal da mesa deu vários furos e Junior se irrita. Mas o show prossegue e quando rola o mix de Zeppellin, a galera pira…. com exceção de dois doideras que passam o tempo todo “jogando futebol” com as várias latinhas de cerveja espalhadas pelo chão do salão e uma garota que permaneceu o show inteiro sentada em uma cadeira no fundo, de braços e pernas cruzadas, totalmente imóvel.

Me mexo pelo salão, tiro fotos, filmo algumas passagens e o show acaba com “Columbia”, velho clássico da Patrulha. Antes disso entra “Robot” com o Rodrigo inflando as veias da testa e cantando com uma garra enorme. Ela parece mais pesada do que nunca!

Cerca de três da manhã, James e Samuca desmontam a aparelhagem. Daniel fora embora no final da noite pois tinha que tocar no domingo com sua banda num festival do Hangar 110. Tudo pronto, voltamos ao hotel.

Algumas horinhas de sono e voltamos ao salão, carregamos o ônibus e rumamos de volta á São Paulo.

São cerca de uma da tarde e o sol na Washington Luis é causticante. Paramos em um posto de gasolina em Votuporanga onde nos espera a muito simpática família do Alemão, duas irmãs, cunhado e sobrinho que me pede um Cd da Patrulha e diz que adora o som da banda. Diz que ficaria muito feliz se tocassem na cidade. Na entrada de São José do Rio Preto, encontramos o Juninho que nos proporciona a mais grata surpresa dessa viagem: vamos até sua pequena chácara onde somos recebidos pelos seus pais com churrasco e uma “pequena” panela de peixe cozido, além, é claro de umas “brejas” geladas. Ali estão além de nós e o Juninho, o Fabio, baixista da Hare, o Rodrigo, a Luciana e o Buba do Cultural Bar, o Cristiano, da Rádio e outros amigos e amigas. O local é paradisíaco e brincamos com o fato.

Por volta das cinco da tarde subimos de novo no Azulão. Alemão reclama um pouco pois se embrenho no mato e foi picado por abelhas. Em poucas horas entramos na Rodovia dos Bandeirantes, parece-me que é um trecho novo. Estrada fantástica, tirando o fato de não possuir um único posto de gasolina e de ter caros pedágios.

Passa um pouco da meia noite quando chegamos em São Paulo. Descarregamos o “Azulão” e cada um segue seu destino. Chego em casa e descubro que a Patrulha ganhou mais um fã: Raul, meu filho mais velho, escuta Robot e quer saber de todos os detalhes da viagem. “It’s Only Rock’n’ Roll, But I Like It”….

11/23/2002

Fábrica Pompéia, um local fantástico, antiga fábrica que foi palco de históricos eventos, como a gravação da “Fabrica do Som” que lançou a maioria das bandas que ainda andam por ai… A Baratos Afins, a loja mais antiga ainda existente na Galeria do Rock. A Patrulha do Espaço… Todos contemporâneos… Puro Rock’N’Roll!

O tinha tinha amanhecido quente, mas uma ventania trouxe um temporal… São Paulo, sexta-feira, temporal…. e o transito fica caótico… Cheguei ao SESC as três e meia da tarde e debaixo de chuva descarregamos o Azulão. Agora temos mais duas forças, o James que retornou e o Juninho, batera de São José do Rio Preto, que falamos quando do Diário de …., que agora está morando em São Paulo.

Montado o equipamento, estou ali pela choperia, quando avisto o Serguei, figura folclórica, verdadeira lenda viva, que as quase 70 anos demonstra que o Rock é a verdadeira fonte da juventude. Trocamos algumas palavras e, enquanto a Patrulha passa o som, procuro matar a saudades daquele lugar.

No camarim, Junior reclama de dor de cabeça e saímos, eu e Luiz Domingues, para comprar remédio. Na rua encontramos com Marcelo Watanabe que nos acompanha. Ao retornarmos, as luzes da choperia já estão apagadas e rola um vídeo sobre Lanny Gordin. Logo em seguida, a primeira banda da noite, Effervescing Elephant, eficiente, num som bem cru. Vou ao camarim e encontro Catalau e a galera do Makina do Tempo, que veio inclusive com alguns amigos, diretamente de Brasilia. Em seguida é a vez da banda Laranja Freak, que tem na performance de seu tecladista seu grande diferencial. O cara, com um cabelo enorme, na altura da cintura, pula e joga o cabelo por cima do teclado, cai de joelhos sem largar o teclado e tal. Parece possuido!

Mais uma vez no camarim, Serguei conta suas histórias e a galera da Makina do Tempo se prepara. Desço e ao circular pela choperia, encontro Ricardo Schevano – que é irmão do Marcello e baixista do Baranga, que acabou de lançar um disco muito bom – junto com o Paulão Batera. Um pouco mais adiante, outro batera, o Paulo Rezende…. Puxa, apenas o SESC Fábrica Pompéia e a Patrulha poderiam reunir tanta gente boa. Sem falar naquela galerinha fiel: Ronaldo, ex Manager da banda, Karina, Junior. o Paulinho de Itu, que trouxe-nos um jornal que eles fazem lá e na qual saiu matéria sobre a Patrulha.

Depois da apresentação de Catalau é a vez do Makina do Tempo, que depois faz a base para a apresentação do Serguei, que com sua calça prateada rebola e brinca com se tivesse 25 anos…. Sorridente, na platéia, Luiz Calanca, o dono da Baratos Afins.

Onze e tanto na noite, a Patrulha sobe ao palco. O show vai ser curto e o set list inclui apenas seis musicas, mas é claro que a galera, enlouquecida, não deixaria a banda sair e ai tome bis. O show foi maravilhoso com a galera cantando junto com Rodrigo e Marcello e parece que ali os bons tempos dos festivais de Rock, dos shows fantásticos estão de volta.

A noite está fria, mas o calor que aquela apresentação da Patrulha gerou, seria capaz de esquentar a Pompéia inteira, a cidade, o estado… mas principalmente, foi capaz de aquecer o coração daquela galera toda que voltou pra casa com a sensação quente de que viveram emoções que há muito não experimentavam….

5/23/2003

Entre final de 2001 e até meados de 2004, acompanhei a banda Patrulha do Espaço, em suas turnês, como manager, e fora muitas outras atividades, como ter criado a idéia, nome e feito a arte (imitando um compacto de vinil) do disco “.ComPacto”. Durante uma boa parte desse tempo eu escrevia esses “Diário de Bordo”, que eram publicados no meu site “A Barata”. Eles 2012, eles foram reunidos num livro com tudo que escrevi sobre a banda, chamado “Patrulha do Espaço no Planeta Rock”.

Do Livro “Patrulha do Espaço no Planeta Rock“, Barata Cichetto, editor’A Barata Artesanal, 2013 – Esgotado

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e  Livre Pensador.

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