Desistência e Desexistência

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Barata Cichetto


Desisto! Mas ainda existo. Hesito entre o desistir e existir. Hesito entre ser o que existo. E existir o que sou. Não desexisto. Há um limite a qualquer coisa. Até para os limites. Piso em cacos de vidro, de xícaras quebradas na beira da cama. Não sei até quando ela aguenta. Ela, minha cama. As xícaras não aguentaram. E ela, até quando aguenta? Ela… Ela… Um mistério. Uma confusão. Uma paixão. Escritores gostam de confusão e de paixão. É o que lhes alimenta a alma trajada eternamente de um luto por si própria. A alma do escritor. Uma alma que luta por sempre sair de um Inferno que ela mesma criou. Não há infernos, nem céus. Escritor é profissão insalubre. São tantos riscos de morte. Igual piloto de avião. Escritores são pilotos ou são aeronaves? Pilotos, de aeronaves sem tripulação nem passageiros. Solitários num espaço só deles. Até quando aguenta a pressão da cabine da minha aeronave, sem que meus miolos se despedacem pelos ares? Meu corpo aos pedaços espalhado pelos mares. Há mares. Bares. Lares.. Nenhum deles é meu lugar. Nos ares, talvez. Desexistência não é morte, nem ausência. Desexistência não é desistir da existência. Desexistência não é falta de experiência. Nem demência. Nem dormência. Desfalecimento. Falecimento. Dor no peito. Dores nas juntas. Dores são sinal de existência, mas não de vida. Desexistência. Desexistência. Desexistência. Quando ela irá desistir? É uma questão de tempo. Pouco… Muito. O suficiente? Para quê? Enigmas de pó. Pergunto ao Pó. Ao Fante e ao Elefante. Efervescente. Não há sinal de água em Marte. Até quando a humanidade resiste na sua inércia? Inércia mortal. Abismo real. Miram o abismo, mas o abismo não lhe sorri, mas escancara uma boca fétida, com seu hálito mortal. Sopra de dentro do abismo o vento da morte. Extermínio. Estamos mortos desde quando deixamos de ler poesia tomando chá. O mundo acabou no fim do século XIX e ninguém percebeu. Todos os poetas estão mortos. A poesia está morta. A literatura está morta. Apenas espumam pela boca, assassinados pelo veneno do modernismo criminoso. Tenho obras imensas, mas não recompensas. Tenho obras extensas, tensas, intensas, mas minhas recompensas são a fome e a falta de dinheiro. Ninguém nasceu por mim. Ninguém irá morrer por mim. Quando ela desiste? Desistiu antes. Queria a farra, a putaria e o luxo. Até quando resisto? Até quando existo? Não sou poeta nem palhaço. Penso no tempo que passou. O relógio mata a o tempo. É um jacaré faminto. E penso comigo que a literatura é a nossa vingança conta o tempo. Presente. O tempo nunca é presente. Nem futuro. O tempo é apenas passado. Remoto. Quero o controle remoto do tempo. Perdi o controle. Tudo a seu tempo, dizia minha avó, que o tempo engoliu feito jacaré. Tudo HÁ seu tempo? Não ando no arame farpado com uma metralhadora nas mãos. Onde estão as putas? Ainda pergunto à televisão. Assisto um filme. “Profissão de Risco”… Rebecca da Costa com suas pernas enormes. Uma cabeça na mala. Uma mala na cabeça. Cabeça dói! A alma corrói. Escrevo. Escrevo. Escrevo. Nos próximos dias tiro meus últimos dentes. Preciso de uma dentadura. Postiça. Dói a coluna. Que existência é essa cheia de resistência? Não sou Barata. Nem Kafka, nem metamorfose. Ambulante, apenas. Um ambulante mercador da morte. E da dor. Queria escrever minhas memórias, mas me falta a memória. Meu cérebro arde e queima. Dor. Cérebro dói? Preciso pensar. Pensar. Pensar. Queria escrever contos. Contrapontos. Ponto a ponto. Ponto por ponto. Quem conta um conto, aumenta um ponto. Aumento um ponto, mas não conto. Desisti da ficção. Escrevo poesia, que poesia é carne. É sangue, suor, lágrimas. E sexo. Poesia é o que temos de mais próximo ao sexo. Mas ainda prefiro sexo. Sexo. Sexo. Sexo. Prefiro gozar a rimar. Queria fazer sexo o dia inteiro, mas falta o fôlego e sobram as dores. Dor e prazer. Adoro chupar buceta! Se contorça feito uma lagartixa sem rabo, minha delicia. Até quando irá se contorcer comigo? Teus jorros secaram. A fonte secou? Não desista da dor. Não desista dos líquidos. Nem dos sólidos. Não desista de mim.

Disse eu!

29/07/2016

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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