Desgraçados

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Barata Cichetto

“Era um desgraçado, aquele sujeito!”, ainda pensou Fagna ao retirar a mão de unhas longas de dentro da calcinha depois de se masturbar pensando no marido morto.

— Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado!

Desde menina, Fagna nunca refreou seus pensamentos, nunca os censurou e nunca deixou de segui-los, na maioria das vezes com custos altos que além da perda da filha de 18 anos, lhe custara também o marido e quase sua própria existência.

— Por que eu penso tanta merda? – Falou consigo antes de puxar as cobertas sobre a cabeça e tentar dormir.

Mas sabia que não conseguiria dormir, não tão cedo. Há anos, as noites de Fagna eram longas e insones. Apenas três ou quatro horas de sono, e ainda assim agitado, com sonhos intensos, em sua maioria. Sonhos dominados por estupros, coprofagia, incesto, monstros alienígenas de enormes pintos amarelos…

Eram assim os sonhos de Fagna. E noites e noites, antes de dormir ela se masturbava três, quatro, cinco vezes, sempre com o marido morto representando inúmeros personagens. Cada momento de masturbação de Fagna daria um romance inteiro, pois ela criava sempre uma história que sempre terminava com ela fazendo sexo com o personagem principal, encarnado pelo falecido, que ali era um estuprador, um seqüestrador, um padre, um policial…

E Fagna tentava dormir, tentava, tentava… Até que consumida pelo cansaço das orgias solitárias dormia, invariavelmente murmurando: “Desgraçado, desgraçado…”. Ao lado, na mesinha de cabeceira, caixas e caixas de comprimidos, um cinzeiro cheio de pontas de cigarro e a Bíblia que tinha pertencido a Jesus.

Jesus tinha morrido de forma misteriosa, assassinado por um seguidor de sua igreja neo-pentecostal. Com cinco tiros no rosto que deixaram seu rosto, outrora bonito, completamente desfigurado. O assassino suicidara-se com um tiro na cabeça depois de cometer o crime e sem deixar qualquer explicação ao ato. A Polícia deu o caso por encerrado, atribuindo a um acesso de histeria religiosa, sem qualquer outra ligação.

Mas Fagna era a única que sabia o que realmente motivara aquele crime, que retirara a vida do único homem que, entre todos com que ela estiveram em sua vida, ela realmente amara. E amara tanto que fora por isso que causara a morte dele.

— Como pode alguém amar tanto outra pessoa a ponto de causar sua morte? – Era quase sempre a ultima frase que ela pensava antes de pegar no sono.

Pregado em uma cruz, Jesus sorria a Fagna. Sua morte era eminente e ela se aproxima com uma enorme toalha de banho nas mãos. Enxugou-lhe o rosto e começa a chorar. Com as lágrimas ela lava os pés de Jesus e as enxuga com os cabelos. Um temporal se aproxima e a rajada de vento acompanhada de trovões e relâmpagos assusta a multidão que deixa ás pressas o lugar. E Fagna fica ali, sozinha, e Jesus lhe sorrindo com dentes cariados e podres. Um sorriso maroto, como de todos os santos. Relâmpagos explodem criando sobre a cabeça dele uma luz, parecida a uma auréola, enquanto Fagna suga o pinto do homem pregado na cruz. No momento do gozo, Jesus se solta do madeiro, com os pregos voando pelos ares e cravando na testa e no pescoço da mulher que cai ao chão banhada em sangue. Olhando para cima, ela ainda vê Jesus envolto em raios que o carregam ao céu. E uma voz ecoa pelos ares mais poderosa que os trovões:
— Fagna, sua cadela, você me matou!

Era mais uma vez um sonho recorrente que nas poucas horas de sono ela tinha. Com pequenas variações era sempre o mesmo. E Fagna acordava em prantos, com a roupa colada ao corpo, arfando e chorando. Mas em seguida, ajeitava-se na cama, abria as pernas e enfiando os dedos da mão dentro da buceta se masturbava pensando em Jesus, com um gozo sempre terminando em “desgraçado, desgraçado, desgraçado!” Depois se recompunha, ajoelhava-se ao pé da cama e fazia uma oração matinal que Jesus a ensinara e obrigava a fazer todas as manhãs, antes do café e de fazer sexo com ela.

Agora, sentada na cama, Fagna recordava-se disso, de como Jesus fazia sexo com ela todas as manhãs. E sentia nojo e vergonha, acompanhados de volúpia e prazer. Todas as manhãs, muito cedo Jesus a chamava, os dois ajoelhavam aos pés da cama e oravam durante alguns minutos. Nem bem a oração terminava e Jesus a apanhava pelos cabelos, a atirava sobre a cama e começava a mordê-la, estapear, chupar e penetrar violentamente. Ele adorava lhe comer o rabo e sempre que o fazia gritava: “Você é o Diabo, tenho que foder você, tenho que te ferrar, te fazer sentir dor. Grita Diabo, grita Satanás!” E quanto mais Jesus gritava, mais lhe batia e mais forte lhe penetrava, mais prazer ela sentia, mais forte era seu gozo. “Jesus te ama, Jesus te ama, Jesus te ama, sua cadela, sua prostituta do Inferno!” E era assim que Jesus gozava… E Fagna com ele.

Mas agora Jesus estava morto. E a culpa era dela, diuturnamente sentia isso, feito um coice a lhe acertar o peito, esmagar-lhe o coração. Ele não mais a comeria violentamente, não mais a foderia com devoção, jamais lhe bateria com fervor, jamais lhe chamaria de cadela nem de puta. Jesus estava morto e ela assim se sentia também. Masturbar-se era naquele momento a penitência que ela pagava por seu crime e entregava-se a ela com o mesmo fervor e devoção com que se entregava a Jesus.

Do Livro:
Desgraçados e Outras Novelas Curtas
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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