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Depois dos Cinquenta Não Intenta: Velho Não Devia Mais Viver – Freak News Nº 37

Barata Cichetto

Nos quarenta, cinquenta, sessenta, velho era quem tinha quarenta. Agora é só quem tem noventa. Ou cento e sessenta. Cada coisa que esse povo inventa. Imagina chegar aos cinquenta sem ter uma casa que vale cento e oitenta, um carro que custa no mínimo cento e quarenta… Ninguém isso aguenta. Lá pelos setenta, velho tinha respeito, mas agora suspeito, um tanto sem jeito, que velho é sempre o primeiro eleito, quando o crime é de sonhar, de pensar. Velho é sempre uma merda, e já disse a não ser para quem dele algo herda. Velho é uma bosta… Que de fato ninguém gosta. Em velho ninguém aposta, em velho ninguém acredita, porque velho é uma coisa maldita. Que fede mofo e falta de asseio, cheira saudade e sempre tem receio. Ah, claro, velho é feio, com suas rugas incrustradas, suas veias saltadas e suas fugas malfadadas. Velho é uma porcaria, mesmo que escreva poesia, e odeie a hipocrisia, e ainda acredite que clareie o dia, teme a noite eterna. Velho não presta, porque a galocha não empresta. Porque saber que o medo da chuva é o que lhe resta. Velho é sempre um idiota, que sempre cai no conto do agiota. Ah, mas dizem os cretinos de trinta e de quarenta, que velho é bom porque sempre aguenta, porque velho sempre tenta, mas nunca consegue levantar o caralho, porque dá trabalho, se levantar. Velho nem lembra mais o que é foder, nem recorda mais o que é poder. Velho, a Melhor Idade. Ah, sim a melhoridade, com sua precariedade. A Maior Maioridade. Mas é velho e não antigo. Porque ser velho é ser inimigo das palavras maltratadas, e das velhas senhoras rimas machucadas. Ser velho, porque velho é ser não estar, e a atenção prestar, que ninguém quer velho na sala de estar. E apenas sonha com o que dele restar. Velho sempre dá trabalho para comer, causa para por beber, e sem nem mesmo saber, velho dá trabalho por sobreviver. Não… Depois dos cinquenta… Não intenta, velho não devia mais viver.

25/06/2024

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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e editor do Agulha.xyz, e co-fundador da Editora Poetura. Um Livre Pensador.
Contato: (16) 99248-0091

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Vinnie Blues
Vinnie Blues
03/07/2024 12:55

Eu como velho que sou, concordo. Texto poético perfeito

Barata
Administrador
Responder a  Vinnie Blues
04/07/2024 0:03

Poesia tem dessas, como o humor: fazer poesia ou fazer rir com a própria desgraça…

Genecy de Souza
Genecy de Souza
03/07/2024 5:58

Recém chegado aos sessenta, entendo o texto como uma premonição, que, aliás, já está discretamente acontecendo. Meu maior medo é o da ‘melhoridade’, quando enfim serei tratado tal qual o bagaço da laranja.

Barata
Administrador
Responder a  Genecy de Souza
04/07/2024 0:04

Já passei 6 dessa .. Posso garantir: vai piorar.

genecysouza@yahoo.com.br
Responder a  Barata
06/07/2024 21:48

Sim.
Desconfio que já olham diferente. De admiração sei que não é.

Barata Cichetto
Administrador
Responder a  [email protected]
06/07/2024 22:33

Se alguém disser que te admira pela experiência e bláblabla… Desconfie. A única coisa que admiram em velhos é o dinheiro, quando esses o têm.

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