Cemitério dos Britos, Araraquara. Foto: Barata

Decerto Que Não!

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Barata Cichetto


1 –
Quando eu morrer perguntarão por mim aos sobreviventes? Decerto, a algum. Quando eu morrer, sentirão falta de mim? Decerto algum! Quando eu morrer, lerão meus poemas, tentando suprimir a falta? Decerto, algum! Quando eu morrer, falarão das qualidades que eu tinha e que nunca notaram? Decerto algum! Quando eu morrer, sentirão saudades do meu andar, dos meus trejeitos, do meu jeito? Decerto, algum! Quando eu morrer aqueles que me mataram sentirão culpa? Decerto nenhum!

2 –
E quando eu morrer, algo diferente ocorrerá nas existências dos que sobreviverão a mim? Decerto a alguém! Quando eu morrer, lágrimas sinceras rolarão pelas faces? Decerto de alguém! Quando eu morrer, descendentes brigarão por um pedaço do meu espólio, mesmo que seja apenas uma idéia sem valor? Decerto alguém. Quando eu morrer, outras saberão como sem eu sobreviver? Decerto por alguém. Quando eu morrer, haverão seis fracos a empunhar as alças do meu caixão? Decerto que alguém. E quando eu morrer, meus sobreviventes farão algo por alguém? Decerto que ninguém!

3 –
Amanhã ninguém lembrará. Depois do velório. Cada um em suas casas, tomando café com bolacha água e sal. Uma pequena lágrima e uma lembrança de quinze minutos, durante uma conversa sobre frivolidades. Um pequeno soluço, um pequeno gesto. Apenas coisas pequenas. E nada mais. Minhas pilhas de cadernos de poemas jogados num canto, até ir parar no aterro sanitário. Solitários. Com urubus pousando sobre as folhas sujas de merda, terra e restos de comida. Urubus não sabem ler poemas. Decerto que não.

21/10/2015

Do Livro:
Pornomatopéias
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Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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