Da Minha Janela Vejo Tudo (Comentários de Um Cancelado Semi-Enclausurado) #3 (A Interrupção da Gravidez Ou o Direito de Matar Crianças)

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Genecy Souza


Na madrugada de 30 de Dezembro de 2020, o Senado da Argentina aprovou o projeto de lei apresentado pelo governo do presidente Alberto Fernández, que legaliza a prática do aborto no país platino. Após um longo debate que se estendeu por 12 horas, a vitória do projeto foi de 38 votos. Os votos contrários vieram de 29 senadores; houve também uma abstenção. A nova lei coloca a Argentina no 67º posto entre os países em que o aborto é uma prática legal.

No país de Evita Perón, pela nova lei (que ainda depende de regulamentação), a partir de agora será possível interromper a gravidez até a 14ª semana de gestação. Após esse período, o aborto só será permitido em caso de risco de vida para a mãe ou se o feto for resultado de um estupro. O serviço será público e gratuito. A lei também não obriga o médico a realizar o procedimento. Entretanto, a unidade de saúde deverá indicar o profissional que se disponha a fazê-lo.

Resumo da ópera: promessa de campanha cumprida. O slogan “meu corpo, minhas regras” agora é, com o perdão do trocadilho, uma regra na Argentina.

Dei uma ‘googlada’ para ver como é um feto humano na 14ª semana de gravidez. Segundo o site Tua Saúde

 

“O desenvolvimento do bebê com 14 semanas de gestação, que são 4 meses de gravidez, marca o aparecimento da linha negra na barriga de algumas mulheres e do crescimento de cabelos no feto. O rosto está completamente formado e ele pode até franzir os lábios, virar a cabeça, fazer caretas e enrugar a testa, mas ainda sem grande controle sobre esses movimentos.
Nesta semana o corpo cresce mais rápido que a cabeça e está coberto por uma camada de pele fina e transparente, através da qual se veem os vasos sanguíneos e os ossos. (…)”.

Sabendo que a nova lei permite a interrupção da gravidez “até a 14ª semana”, me prendo nesse tempo-limite para imaginar a cena em que o médico realiza o procedimento, os medicamentos e os instrumentos utilizados para a “solução do problema”. Depois de algumas horas e alguns dias de recuperação, a mulher ficará livre, leve e solta. Se o “problema” vier a ocorrer novamente, é só procurar o serviço público de saúde, que a solução estará ao dispor.

Sou da opinião que a mulher adulta e dona de si, ciente de seus valores, direitos e responsabilidades, pode fazer o que bem entender do seu corpo. Todavia, o ser humano que se desenvolve em seu útero não pode estar à mercê de decisões que venham a negar seu direito à vida. Excetuando-se as ações que o justifiquem, o aborto é uma forma de assassinato de um inocente.

Não sou religioso, tampouco ligado a questões filosóficas. E, claro, não sou uma mulher. Portanto, jamais passarei pela experiência de uma gravidez. Prefiro seguir uma linha muito simples de raciocínio, não cabendo aqui discutir questões relacionadas à biologia, à fisiologia, à sociologia, enfim… O que sei é que aquele ser que se desenvolve no útero é uma pessoa em formação, que, após nove meses a partir da concepção, será dado à luz, e terá todo um futuro pela frente. Esta é uma simples questão de consciência.

Não se pode negar a imensa quantidade de mulheres que caem em uma situação de gravidez indesejada pelos mais diferentes motivos, a começar pela falta de uma educação sexual mais efetiva nas escolas e no lar, passando pela pouca ou nenhuma informação a respeito dos mais diversos métodos contraceptivos.

Cabe frisar que, lamentavelmente, o estupro é, de longe, a pior forma de violência contra a mulher, que muitas vezes resulta em uma gravidez compreensivelmente indesejada. Neste caso, há quem prefira completar a gestação, entregando o bebê para adoção. De um modo ou de outro, não é nada fácil a mulher carregar no útero um ser humano que foi concebido por um ato de extrema violência.

Admito o aborto para os casos de má formação do feto e de risco à vida da mulher. Já para a gestação resultante de um estupro, o aborto só deveria ser realizado, infelizmente, na falta de uma alternativa favorável à criança. Espero que a lei do aborto na pátria do peronismo inclua o acompanhamento psicológico à mulher, antes de ela tomar uma decisão que não poderá ser revertida.

Apesar da legalização do aborto na Argentina ter deixado milhões de mulheres felizes com a medida, o tema não se encerra aí. No Brasil, as tentativas de levar o assunto a diante ganharam novo fôlego, apesar do atual governo se colocar frontalmente contra a ideia.

Muita água ainda há de rolar sob a ponte.

01/01/2021

Atenção: este texto reflete apenas o meu ponto de vista sobre o fato, não significando que eu esteja com a razão. Contudo, você é livre para manifestar para manifestar sua concordância ou discordância, desde que mantido o mínimo de respeito pela minha opinião.

(Texto Publicado  Originalmente no Extinto Site “BarDoPoeta, em 2021)

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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