Cuba: a Longa Agonia do Paraíso

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Genecy Souza


A primeira vez que ouvi a palavra Cuba foi na infância, em meados dos anos 70. A palavra saiu da boca da minha mãe. Em sua completa ignorância política, ela se referiu a alguma notícia que deve ter ouvido no rádio; citou Cuba como sendo um lugar ruim. Eu, ainda mais ignorante que ela, não entendi o sentido daquela informação. Minutos depois deixamos o assunto morrer, pois havia coisas mais importantes em nossa ordem de prioridades de família pobre.

À medida em que eu crescia, volta e meia a palavra Cuba voltava à tona. O noticiário falava do sequestro de um avião brasileiro desviado para a ilha. Acho que devo ter ouvido a expressão regime comunista. O assunto também morreu logo depois. Cuba continuava sendo um lugar ruim, mas eu não entendia o real sentido do termo.

Naqueles tempos duros, nossa principal fonte de informação vinha do rádio, seguido pela televisão, jornais ocasionais e revistas (estas, raras lá em casa). Além da palavra Cuba, outras tantas eram divulgadas: Vietnam, Camboja, Biafra, Laos, Palestina, União Soviética, China – todas elas se referiam a lugares ruins, com guerras, matanças, legiões de refugiados, enfim. Lembro de ter folheado uma revista Manchete, a qual mostrava fotos de refugiados vietnamitas e cidades bombardeadas. O sentido daquilo tudo eu só começaria a entender na adolescência.

E eis que chega a adolescência. O gosto pela leitura já estava presente em mim. Curioso, eu frequentava a biblioteca da escola motivado por essa curiosidade — meus colegas iam à biblioteca porque eram obrigados por conta dos trabalhos escolares –. Muita coisa aprendi naquelas leituras aleatórias.

Em 1979, aos 15 anos, eu já sabia que o poder no Brasil era exercido por um regime militar, pois era constante a propaganda governamental em todos os meios de comunicação. Músicas enaltecendo a Revolução de 1964 eram cantadas na escola; slogans eram exibidos a todo instante. Também, nesse mesmo ano, tomou posse como presidente da República, para um mandato de seis anos, o general João Batista de Oliveira Figueiredo, o qual, em seu discurso de posse, prometeu fazer desta país uma democracia. Naquela época, eu já tinha plena noção da crise social, política e, sobretudo, econômica em que o Brasil estava submetido. A inflação era a palavra da hora, e, lá em casa, a entendíamos na prática; os salários evaporavam antes do fim do mês. Em agosto, no bojo da promessa do general Figueiredo, foi sancionada a Lei da Anistia, que possibilitou a volta do exílio de pessoas ligadas a oposição ao regime militar, inclusive aquelas ligas às ações de guerrilha nas cidades e nos campos. Dias após a sanção da lei, figuras proeminentes da política começaram a retornar ao país, entre elas, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Francisco Julião, Betinho, Fernando Gabeira, Vladimir Palmeira, Carlos Minc e Paulo Freire, os quais recuperaram seus direitos políticos, e seus crimes – sequestros, atentados terroristas, assaltos, assassinatos, entre outros — “perdoados”. O samba Tô Voltando, na voz da cantora Simone era sucesso nas rádios.

Com a volta dos anistiados, a imprensa relatava seus (mal)feitos. Aos poucos, fui tomando conhecimento de que muitos deles agiam sob os ideais marxistas (comunistas, socialistas, anarquistas, etc.) Aqueles que optaram pelas ações violentas, foram treinados em ações de guerrilha, sobretudo em Cuba. Havia algo de “heroico” naqueles relatos, mas eu ainda não percebia que a História estava sendo contada segundo a ótica dos perdedores daquilo que hoje chamo de Guerra Suja. Bem, guerra limpa também não há, mas não é o caso entrar nesse mérito agora.

Em 1980 fui atirado ao mercado de trabalho. Certa vez, um colega de trabalho me emprestou um exemplar da revista Seleções do Reader’s Digest, que era relativamente barata. Nela, havia uma matéria a respeito do que era a vida em um país comunista (já não lembro qual). Foi um choque. Resolvi comprar a revista religiosamente todos os meses ao longo de 10 anos. Em cada edição sempre havia ao menos uma matéria descrevendo histórias de gente perseguida, torturada e presa em regimes comunistas: União Soviética, Alemanha Oriental, Camboja, Romênia, Tchecoslováquia, Polônia, China, e, claro, Cuba. Eram casos escabrosos, que me levaram a entender o sentido das expressões ‘regime comunista’, ‘ditadura militar’, ‘ideal socialista’, ‘sistema capitalista’, ‘social-democracia’, ‘marxismo-leninismo’, e tantos outros. Também, aos poucos, fui descobrindo que a palavra ‘democracia’ podia ter seu real sentido desvirtuado para atender interesses obscurantistas. Por exemplo: havia duas Alemanhas: A República Federal da Alemanha (capitalista e democrata) e a República Democrática Alemã, uma ditadura comunista submetida ao poderio da União Soviética, apesar de ostentar a palavra “democrática” no seu nome oficial.

Em Abril desse ano, a imprensa começou a noticiar a fuga em massa de cubanos tendo como ponto de partida o porto de Mariel. O estopim dessa crise humanitária aconteceu desta forma:

“O êxodo do Mariel, um dos grandes movimentos migratórios do século XX, completa 35 [41 em 2021] anos. Mais de 120.000 cubanos saíram da ilha em apenas sete meses — entre abril e outubro de 1980 — com destino aos Estados Unidos, principalmente Miami, que se viu tomada pela chegada em massa e repentina de cidadãos que fugiam do regime de Fidel Castro, à época ainda contando com o apoio da União Soviética. A crise migratória de Mariel foi um choque para Cuba e para os EUA, dois países vizinhos (um pequeno; o outro, um gigante) que conviveram com mais de meio século de desconfiança e agora buscam o caminho do reencontro. “O mito da revolução cubana começa a cair com Mariel”, afirma sem pestanejar Sebastián Arcos, diretor associado do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida.

Essa onda migratória tem sua origem em um incidente diplomático entre Cuba e Peru. Em 1º de abril de 1980, um grupo de cubanos bateu um veículo [ônibus] contra as grades da embaixada do Peru em Havana para solicitar asilo. Um suboficial que protegia o edifício morreu ao tentar evitar a entrada. Castro exigiu do Peru a entrega de seus compatriotas e ameaçou retirar a proteção da delegação diplomática, algo que no fim acabou acontecendo. E então veio a surpresa. Mais de 10.000 cubanos irromperam em pouco tempo na embaixada peruana solicitando asilo. Sem ninguém ter essa consciência, estava começando um imponente movimento migratório que, como acontece agora na Europa com a crise dos refugiados, deixou de boca aberta os dirigentes políticos, que demoraram semanas a dar uma resposta ao fenômeno.

A ocupação da embaixada peruana levou Castro a anunciar a abertura do porto de Mariel para que pudessem sair da ilha os cubanos que desejassem. Dezenas de barcos procedentes de Miami, do primeiro exílio cubano, o que aconteceu depois da vitória da revolução, chegaram ao porto de Mariel para transportar familiares para os Estados Unidos. O tráfego de embarcações era diário, constante, com imagens que sacudiram a consciência mundial. O dramático êxodo durou sete meses, até que os Estados Unidos, sob a presidência de Jimmy Carter, fecharam as portas pelas repercussões negativas que a crise migratória estava tendo na política doméstica. Mais de 125.000 cubanos chegaram aos Estados Unidos nesses meses intensos, transformando definitivamente a história recente da ilha e da revolução cubana, mas também de Miami, que sofreu uma mudança que levou anos para ser assimilada (…)”.

https://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/13/internacional/1442113548_063090.html

Êxodo de Mariel

Essa catástrofe humanitária deixou bem claro algo que eu já sabia, ainda que superficialmente: Cuba era um lugar ruim. Ao mesmo tempo, nasceu aí o meu horror a ditaduras e, paralelo a essa ojeriza, nascia também o meu profundo desprezo pelo comunismo. Logo, eu não tardaria a incluir o nazismo e o fascismo nesse pacote tétrico, pois, a princípio, essas ideologias habitam a mesma fossa fétida que alimentou – e ainda alimenta – os mais sórdidos ideais de desumanismo, mesmo que apresentados em vistosas embalagens, belas palavras e promessas de igualdade de direitos e liberdades plenas.

A crise de Mariel foi o ponto de partida para o meu anticomunismo/antifascismo/antinazismo e suas variações, das mais suaves às mais radicais. E Cuba, é claro, sempre receberia minha atenção especial, no entanto, sem deixar de observar o que ocorria em outros países submetidos a regimes ditatoriais, mesmo aqueles que não orbitavam, ao menos diretamente, em torno dessas ideologias. Naquela época de informação limitada, a revista Seleções foi uma importante fonte de consulta. É óbvio que aquelas matérias não eram suficientes para atender minhas necessidades de informação, o que me obrigava a procurar livros que tratavam do tema, mas a oferta era muito limitada.

O fim do regime militar teve como marco a posse de José Sarney como Presidente da República em 15.03.1985, no lugar de Tancredo Neves, que estava hospitalizado gravemente doente. Tancredo viria a morrer em 21.04 daquele ano, tal era a gravidade de seu estado de saúde. Sarney assumiu de vez o comando do país, iniciando uma nova fase política denominada Nova República. Nesse período, os partidos que haviam sido proscritos pelo regime militar recuperaram seu direito à legalidade. Entre esses partidos estavam o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido dos Trabalhadores (PT), fundado em 1980. Esses quatro partidos conquitariam papel relevante na política brasileira nos anos subsequentes, mas não necessariamente por motivos nobres.

À medida que a década de 80 avançava, mais eu agregava conhecimento sobre Cuba e do grande apoio que o regime desse país recebia dos partidos citados, bem como dos que foram sendo criados ao longo dos anos. Fidel Castro era tratado como um astro pop, não obstante as denúncias de crimes contra os direitos humanos, da exportação da Revolução Cubana para vários países do Terceiro Mundo, sobretudo na América Latina e na África. Ernesto Che Guevara, um ‘mártir’ da revolução recebia a veneração de um santo. Esses dois símbolos revolucionários gozavam da atenção especial de artistas, jornalistas, políticos, intelectuais, formadores de opinião, entre outros. Eram raras as manifestações contrárias a Fidel e Che, exceto por figuras proeminentes do regime militar. Ser de direita naquele tempo era um posicionamento cada vez mais combatido, haja visto ela estar associada a perseguições, torturas, golpes de estado, censura, exílio e ao desaparecimento de adversários políticos. Por outro lado, ser de esquerda era sinônimo de avanço, liberdade, fraternidade, de ‘descolamento’, etc. A Queda do Muro de Berlim no final da década, deixaria essa esquerda nua e exposta em praça pública, estando nessa situação até os dias que correm.

Barrio La Timba

Cuba ganhava cada vez mais a minha atenção, especialmente pelo drama dos balseros, pessoas que se aventuravam a atravessar o Canal da Flórida em precárias embarcações rumo aos EUA, fugindo da vida miserável que levavam em seu país. O regime comunista, no poder desde 1959, restringia a emigração de seus cidadãos por meios legais. Lamentavelmente, muitos pereceram na perigosa travessia. Os que eram capturados pela polícia cubana sofriam retaliações do governo de Fidel Castro. Não raro, esses infelizes capturados voltavam à aventura, tão logo houvesse condições para tal. Apesar de a imprensa brasileira noticiar essas fugas, não lembro de haver demonstrações de indignação por parte da intelectualidade brasileira, afinal de contas, onde já se viu fugir do “paraíso”?

Sim. Cuba era um paraíso. Lá havia leite e mel, como na Terra Prometida da Bíblia. Entusiastas do regime comunista contra argumentavam qualquer crítica com a justificativa (furada) de que a saúde e a educação eram de primeira qualidade e gratuitas; havia emprego farto e todo mundo era feliz. O governo (entenda-se: Fidel) provia tudo a todos. Marx e Engels, se vivessem nesses dias, morreriam de orgulho. O povo amava Fidel e seus discursos que duravam horas. A igualdade era a marca da revolução. O ditador desafiava o poderoso inimigo do outro lado do Canal da Flórida. Para Fidel e seus seguidores, os Estados Unidos eram um inimigo a ser riscado do mapa, embora seu país vergonhosamente dependesse dele para quase tudo, apesar dos efeitos do embargo econômico imposto à ilha em retaliação ao confisco de empresas norte-americanas presentes no país, que justificava todas as burradas cometidas pelos burocratas do Partido Comunista Cubano. Cabre frisar que Fidel quase arrastou o mundo para uma guerra nuclear em 1962, na famosa Crise dos Mísseis. A firme determinação do presidente John Kennedy em não permitir a instalação de mísseis balísticos soviéticos na ilha obrigaram a URSS a desistir da peleja.

A maior arma do déspota era o seu carisma, aliada a sua notável oratória e capacidade de articulação. Reconheça-se em Fidel um ótimo vendedor de casas pegando fogo. E assim, mesmo a imprensa dita ‘imparcial’ engolia a verborragia de Castro sem reclamar, o que acabava sendo ótimo para desviar a atenção dos graves problemas que assolavam o cubano comum, como a falta de liberdade, a forte censura, a dura repressão a opositores reais e imaginários e ao apoio de Cuba a movimentos armados ao redor do mundo. Fidel sabia manter sua pequena ilha no centro das atenções, especialmente aquelas que lhe beneficiavam, mantendo a solidez de sua ditadura.

Já no final da década de 80 adquiri o livro Retrato de Família com Fidel: Fidel Castro Visto por um Ex-íntimo, de Carlos Franqui (Editora Record, 1981). Franqui era um jornalista, crítico de arte, poeta e ativista político cubano que apoiou Fidel nas ações de guerrilha contra a ditadura de Fulgêncio Batista. Ele foi figura importante nos primeiros anos da revolução. Todavia, suas fortes críticas ao modo como Fidel conduzia o novo governo, o fizeram afastar-se gradualmente, até romper com o ditador em 1968. A gota d’água do rompimento foi a carta assinada por Carlos Franqui na qual condena a invasão da Tchecoslováquia pelo exército soviético. O escritor deixou Cuba para sempre, mas não de criticar seu antigo líder e seus desatinos. Na verdade, Fidel era o grande traidor da revolução cubana, como se constaria nas décadas seguintes até sua morte.

O livro de Carlos Franqui me deixou bastante impressionado pela forma como a revolução era vista por dentro. Até aquele momento, tudo o que eu sabia era produzido por fontes externas. Minha aversão ao regime cubano alcançou um novo patamar. Lembro que comprei dois exemplares do livro. Ofereci um a um amigo, o Tadeu, simpatizante do regime, além de ser militante do Partido dos Trabalhadores. Esse amigo se apresentava como uma pessoa aberta à pluralidade. Ele, educadamente, recusou o presente, sob a justificativa de que Cuba era alvo de injustiças e mentiras, tachando o autor de contrarrevolucionário, agente da CIA e outras frases de efeito típicas de pessoas doutrinadas. Fiquei com os dois livros por anos a fio.

Outro amigo meu, o Frank (o qual já apareceu em alguns artigos no Agulha), também de esquerda, anarquista e “libertário”, não demonstrou o menor interesse pelo livro. Em 2019 ele me cancelaria no Facebook e no WhatsApp, em razão das fortes críticas que eu dirigia a seus ídolos Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva, entre outras figuras proeminentes da política e das artes, também por conta dos sucessivos escândalos, crise econômica resultante em altos índices de desemprego, e do alinhamento (político e financeiro) a ditaduras latino-americanas e africanas, em especial a cubana, para a qual foram desviados milhões de dólares dos pagadores de impostos, para custear a construção do porto de Mariel, sustentar o Programa Mais Médicos, além de outros investimentos temerários que dificilmente serão recuperados. O fanatismo de Frank tinha um pé em Cuba (apesar de ele negar isso por muito tempo) e outro no lulismo, extinguindo uma amizade que já durava 30 anos.

Em 1989 o comunismo sofreu um duro golpe com a queda do Muro de Berlim. Esse fato histórico determinou o fim de governos despóticos na Europa, que foram caindo um a um. Dois anos depois chegaria a vez da União Soviética. Ato contínuo, o dinheiro russo deixou de abastecer os cofres do regime cubano. Muita gente, inclusive este escriba, achava que a família Castro e seus agregados seriam enxotados da ilha. Apesar da grave crise econômica que se abateu sobre o país, no que se chamou de Período Especial, Fidel conseguiu manter-se no poder, graças a sua eloquência e a eficiente máquina repressora que sempre esteve às suas ordens.

Entre a queda do infame Muro e o esfacelamento da URSS, foi fundado, em julho de 1990, o Foro de São Paulo, organismo idealizado pelo Partido do Trabalhadores (entenda-se: Luiz Inácio Lula da Silva) para “aprofundar o debate e procurar avançar com propostas de unidade de ação consensuais na luta anti-imperialista e popular, promover intercâmbios especializados em torno dos problemas econômicos, políticos, sociais e culturais que a esquerda continental enfrenta”. Em outras palavras, o Foro objetivava submeter a América Latina a governos de esquerda, em contraposição aos Estados Unidos e tudo o que ele significava. É inegável o sucesso que essa organização obteve grande influência no avanço de governos de esquerda no continente. Obviamente, o organismo beneficiou Cuba. Segundo a Wikipedia, o Foro de São Paulo não tem sede própria, mas sabe-se que seu endereço é o mesmo da sede do Partido dos Trabalhadores. Com a vitória de Lula nas eleições de 2002, o dinheiro brasileiro foi fundamental para o financiamento do regime castrista. A fonte secou a partir de 2018, com a vitória de Jair Bolsonaro. Apesar disso, o Foro continua firme e forte com o objetivo de promover a volta do PT ao governo. Infelizmente, a grande imprensa brasileira, intencionalmente ou não, sempre subestimou a capacidade e a influência nefasta do Foro de São Paulo na política brasileira e de outros países. Um exemplo claro dos efeitos destrutivos dessa organização é a Venezuela de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. O mais é desnecessário dizer.

Em 1994 foi lançado no Brasil o livro Antes que Anoiteça, de Reinaldo Arenas (Editora Record). O autor também lutou pela revolução e por ela foi engolido, triturado e cuspido, como tantos outros que vieram antes e depois dele. Arenas era assumidamente homossexual. Embora fosse um escritor talentoso, ele não tardaria a descobrir que a revolução não lhe daria lugar, tampouco respeito. O livro cativa a atenção do leitor já nas primeiras páginas. De maneira simples, objetiva – e às vezes até divertida – Reinaldo Arenas narra suas aventuras e desventuras no, digamos, submundo da revolução, expondo todas as mazelas e hipocrisias de uma sociedade que na verdade só mudou por fora. Após várias tentativas, Reinaldo Arenas conseguiu fugir da Ilha da Fantasia da esquerda mundial, se radicando em Nova York, onde cometeu suicídio em 1990. O escritor também era portador do HIV. Antes que Anoiteça foi adaptado para o cinema, com direção de Julian Schnabel. O filme estreou em 2000. O ator espanhol Javier Barden interpretou Reinaldo Arenas em uma atuação marcante. Desta vez não ofereci o livro a ninguém, tampouco recomendei o filme; optei por não me emputecer com gente estúpida.

Os anos se passaram, mas Cuba nunca saiu do meu radar. Chegamos ao século 21 com a ditadura castrista tão firme como começou. Algumas mudanças ocorreram, ainda assim muito longe do ideal. O presidente norte-americano Barack Obama, nos oito anos em que esteve no poder, promoveu uma política de reaproximação com Cuba. Os irmãos Castro, obviamente aproveitaram bem a oportunidade, sem no entanto oferecer contrapartidas, como uma abertura democrática e a liberalização da economia. O Partido Comunista continuou mandando como sempre, sob os aplausos explícitos ou dissimulados da elite cultural brasileira e internacional. Como sempre, os isentões permaneceram em cima do muro, dado o medo que sentiam de criticar o regime cubano. As vozes abertamente críticas eram (e ainda são) alvos de ataques e acusações infundadas.

Em 2021 Fidel está morto; seu irmão Raúl está “aposentado”. Che Guevera segue sua sina de ‘astro pop’, com a sua imagem estampada em camisetas, pôsteres, cartazes, etc. O governo é exercido por um fantoche nomeado pela nomenclatura do Partido Comunista Cubano, após uma eleição fake e sem concorrentes. Uma nova constituição foi promulgada. Apesar de alguns avanços, tudo continua na mesma. O povo cubano continua levando uma vida tão ou mais fodida quanto antes. O governo de Donald Trump se encarregou de cortar grande parte das bondades concedidas pelo seu antecessor Barack Obama. No entanto, o regime resiste.

Noves fora os inimigos reais e imaginários de sempre, Cuba tem dois inimigos bastante reais: a internet e o vírus da Covid-19. Em 11 de julho, o povo cubano mandou sua obediência bovina às favas, e foi para as ruas demonstrar seu cansaço por causa do estado de penúria na qual vive. O mundo olhou para ilha com grande assombro, pois uma manifestação espontânea com aquela magnitude — e contra o regime! – era algo incomum:

“Nos últimos anos, tornou-¬se comum a imagem de ruas tomadas de manifestantes convocados pelas redes sociais, em mobilizações populares sem lideranças definidas. Mesmo assim, a propagação do fenômeno em Cuba, no domingo 11, pegou todo mundo de surpresa. A perseguição de dissidentes na ilha é recorrente, desgastante e, muitas vezes, brutal, mas nem todo o aparato repressivo foi capaz de conter a insatisfação dos cubanos, fartos da falta de dinheiro, comida, remédios, energia elétrica e tudo o que é essencial. Os atos tiveram início em San Antonio de los Baños, a 30 quilômetros da capital, Havana, e em Santiago, com milhares de pessoas, sobretudo jovens, exigindo o fim dos apagões diários e vacinas contra a Covid-19. Ao todo, sessenta cidades registraram protestos, com viaturas policiais destruídas e uma loja estatal saqueada.

Em Havana, a violência da polícia não impediu que centenas de manifestantes cercassem o Capitólio Nacional, símbolo da cidade, entoando gritos nunca ouvidos antes de “abaixo a ditadura”, “liberdade” e “pátria e vida” — este, uma aberta subversão do slogan oficial, “pátria ou morte”. A repressão não demorou. Segundo a Anistia Internacional, ao menos 140 pessoas estão presas ou desaparecidas — uma blogueira dava entrevista ao vivo à TV espanhola quando a polícia bateu na porta de sua casa. Os abusos foram expostos através da hashtag #SOSCuba, que reuniu uma profusão de vídeos de espancamentos e prisões. O presidente Miguel Díaz-Canel foi à TV denunciar a “provocação sistêmica” de dissidentes manipulados pelos Estados Unidos com o intuito de causar “uma maciça explosão social” e atribuiu a crise econômica ao inimigo de sempre: o embargo comercial americano. De fato, a medida em vigor há mais de sessenta anos, embora não afete alimentos e remédios, dificulta muito as transações. Mas a má gestão da economia, aliada à paralisação do turismo no último ano e à intensificação dos apagões por falta de investimentos nas linhas de energia, contribuiu para piorar muito a vida dos cubanos. “A pandemia funcionou como gatilho para expressar a insatisfação represada”, diz Luis Martinez-¬Fernández, professor de história da University of Central Florida. (…)”

https://veja.abril.com.br/mundo/acabou-a-paciencia-as-manifestacoes-em-cuba-contra-a-ditadura/

Mais uma vez, minhas esperanças de que o regime comunista vai cair são renovadas. Lamentavelmente, e sem surpresa nenhuma, a claque de simpatizantes e apoiadores do governo despótico que manda e desmanda na ilha há mais de 60 anos, não teme expor-se ao ridículo. Nos tempos que correm, a informação tem velocidade impressionante; mentir e omitir crimes contra um povo inteiro tem seu preço. Por quanto tempo esses idiotas permanecerão em suas bolhas ideológicas, praticando suas hipocrisias?

Evidentemente, a máquina repressora do Partido Comunista Cubano está agindo como era de se esperar; prisões estão acontecendo, pessoas estão desaparecidas, certamente a tortura está correndo solta. O velho regime está com medo. É óbvio que o ele não irá cair logo, mas é alentador saber que os protestos de 11 de julho estão mostrando ao governo de Cuba que o fim daquela utopia está, enfim, decretado. É só uma questão de tempo. Espera-se que o porto de Mariel, tristemente célebre como ponto de fuga de milhares de cubanos quarenta anos atrás, em breve possa receber os filhos e os netos dos marielitos, para refundar o país, e fechar as portas da Disneylândia da esquerda mundial.

20/07/2021

Genecy Souza, de Manaus, AM, é Livre Pensador.

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