Imagem: Internet - Sem Restrições

Crônica: Genecy Souza – Relatos de Um “Cancelado” da Internet

Genecy Souza


Foi rápido e sem dor: bastaram alguns cliques e, pronto! Lá fui eu, mandado para o desterro, à danação eterna para arrastar a corrente atada aos meus pés, a andar sem rumo e sem descanso; um pária virtual. Me vejo como aquele leproso da Bíblia, que grita: “Impuro!”, advertindo as pessoas sãs que estou por perto. Sou um pobre coitado digno de pena. Ou de desprezo. Depende do olhar de quem me vê.

 

 

Estou só – como sempre – em meu quarto-exílio, gozando do meu ostracismo. Ouço o ruído do meu ar-condicionado e os latidos dos cachorros ao longe. Tenho muitos discos, meus companheiros de sempre, mas não quero ouvir nenhum agora. Tenho também meus livros, e uns vinte deles à espera dos meus olhos. E ainda: vídeos, revistas, enfim. A internet está à mão, mas não quero acessá-la agora. O(s) mundo(s) que ela mostra me cansa(m) às vezes. O melhor remédio é ficar na minha, unplugged, se é que me entendem.

 

 

Não corro mais o risco de ser cancelado. Guardadas as devidas proporções, agi como os russos fizeram com Napoleão Bonaparte: tática de terra arrasada, ou seja, nada fica para o inimigo.Zerei a possibilidade de novos cancelamentos. Traduzindo: fechei todas as redes sociais, exceto o WhatsApp por necessidades/exigências profissionais e familiares, mas apenas para assuntos realmente indispensáveis. A única exceção é que mantenho nele apenas dois amigos dos tempos de Facebook, ambos também cancelados. Entretanto, fui educado, saí da rede do Sr. Zuckerman sem bater a porta. Anunciei o dia e a hora da minha saída: 31 de janeiro de 2019. Agradeci os bons amigos e amigas que lá permaneceram pela companhia e as boas conversas. Houve quem lamentou. Já outros deram de ombros. C’estlavie. Ou. Foda-se o mundo que não me chamo Raimundo. O mundo continua girando.

 

 

A autoria do meu cancelamento partiu de Frank, o meu até então amigo-irmão por mais de 30 anos, do tempo em que a internet era apenas uma ficção futurista. De repente, aquela amizade tida como sólida se desfez em alguns cliques. Admito que não foi por falta de aviso (dele). Eu sabia que minha hora haveria de chegar em algum momento, pois já estava cada vez mais evidente sua insatisfação a respeito dos comentários postados no Facebook, por mim e por tantos outros. Ele ficava bastante incomodado com críticas, comentários, aforismos, vídeos, piadas que contrariavam suas convicções e preferências políticas. Preferi pagar o preço da espera, ou seja, me fingi de morto só para dar uma dedada no coveiro.

 

 

Evidentemente, nenhum dos comentários eram dirigidos à pessoa do meu ex-amigo-irmão. Eu sempre soube respeitar as opções políticas, ideológicas, sexuais, culturais, religiosas das pessoas até o limite do possível (entenda-se: desde que não afetem a minha intimidade ou liberdade de expressão e de pensamento). Frank é de esquerda. Conheci-o assim, e isso nunca foi um problema para nós.Além do mais, ele se apresentava como anarquista, perfil nem sempre bem visto pela esquerda tradicional. Para mim, essa postura era irreverente e até engraçada.

 

 

Muita coisa acontece em 30 anos. De bom e de ruim. As pessoas amadurecem e envelhecem. Ou apenas envelhecem,sem no entanto amadurecer. Há quem se torne sábio o bastante para analisar o mundo ao redor. E há aqueles que constroem bolhas, e nelas preferem viver, mas não se conformam em ficarem a sós nesse mundinho à parte. Eles preferem formar um rebanho para lhes servir de claque. Esse é o caso de Frank.

 

 

Estamos vivendo um fenômeno denominado cultura do cancelamento, o que, na verdade, não é propriamente uma novidade. A título de exemplo, basta dar uma olhada no que déspotas carniceiros do porte de Hitler, Stalin, Mao TseTung, Franco, Mussolini, Saddan Hussein, General Pinochet, Idi Amin, Fidel Castro e o Aiatolá Khomeini, por exemplo, cujo poder absoluto lhes permitia intimidar, espionar, censurar, perseguir, prender, torturar, exilar e, claro, matar seus adversários, fossem eles reais ou imaginários. Todos esses atos eram extensivos a parentes, amigos, colegas de trabalho e a outras pessoas relacionadas com os perseguidos. A História está repleta de relatos aterradores sobre o tratamento dado a quem simplesmente ousava pensar diferente do poder dominante, que possuía todo um aparato, a começar por uma imprensa subserviente, intelectuais e artistas complacentes por força do medo ou da conivência para fazer valer os ideais dos líderes de plantão.

 

 

Lamentavelmente, as práticas de cancelamento abordadas no parágrafo anterior ainda são praticadas em pleno século 21, seja pelo velho método, seja pelas redes sociais, com o diferencial de que os cancelamentos são executados virtualmente, sob os mais diversos pretextos e justificativas que torturam o bom senso, perseguem o benefício da dúvida e exilam o saudável hábito democrático de divergir dos conceitos majoritários de mundo. Ninguém pode agir como dono da razão, embora ela já possua centenas ou milhares de donos.

 

 

Nos dias que correm, a prática correção política impõe uma via única de pensamento e de ação, não importa o tema que estiver em debate: aborto, sexualidade, racismo, democracia, identidade de gênero, ideologia, liberdade de expressão, fascismo, geopolítica, economia, direitos humanos, meio ambiente, minorias étnicas, islamismo, feminismo, desigualdade social. E, para completar esse confuso quadro sócio-político e cultural, temos a pandemia causada pelo novo coronavírus, batizado oficialmente de Covid-19, que está ceifando não só vidas humanas, mas as economias e os empregos, o que, direta ou indiretamente também está tirando vidas humanas. Que ciclo cruel esse, não?

 

 

E é no bojo desse estado de coisas que a cultura do cancelamento versão século 21 prolifera como uma praga. O milagre da internet trouxe consigo esse desarranjo nas relações humanas, com destaque para os efeitos danosos no núcleo familiar das pessoas. Não se sabe até onde isso irá dar. Tudo o que se escreve nas redes sociais está sujeito a críticas, insultos, denúncias sem fundamento, acusações, patrulhamento, ‘dislikes’, bloqueios, ‘lacrações’, enfim… todos contra todos. Como se não bastasse, as pessoas passaram adotar políticos, intelectuais, artistas e celebridades, às quais devotam uma fidelidade canina e uma subserviência amoral, abrindo mão de um mínimo de senso crítico ou de uma abertura ao contraditório, com vistas a revisão de conceitos. Mudar de ponto de vista é praticamente um crime grave, passível, ora vejam, de cancelamento.

 

 

É evidente que há quem se beneficie dessa confusão, seja na forma de pessoas, empresas, entidades, grupos e partidos políticos, ONGs, organismos nacionais e internacionais e, claro, governos, principalmente aqueles com viés autoritário, e os que já são autoritários de fato. O velho lema “dividir para conquistar” continua valendo, mesmo que sob outros nomes, digamos, mais moderninhos.

 

 

A sentença proferida por um “juiz” (Frank) do Tribunal da Internet, Seção Facebook, só me trouxe benefícios. Já não desperdiço tempo nem noites de sono vasculhando as redes sociais, à cata de comentários, trocas de farpas, compartilhamento de inutilidades e de fakenews. Recuperei o tempo para fazer as coisas das quais sempre gostei. Não sofri uma espécie de “crise de abstinência” por não mais frequentar o Facebook, portais e blogs inúteis. E isso é muito bom, pois concluo que não desci ao nível de um viciado. É evidente que não posso abrir mão da internet. No entanto, é cada vez mais prazeroso ser o dono das minhas ações. De um modo ou de outro, o mundo nunca saiu do meu radar.

 

 

Vi Frank poucas vezes após meu cancelamento. Evidentemente não nos falamos mais. Evitamos um ao outro: ele a mim, por vergonha; e eu a ele, por decepção. Não sei o que ele estará fazendo agora. Imagino que esteja promovendo cancelamentos a torto e a direito daqueles que ousam discordar de suas ideias políticas, artísticas, culturais, filosóficas, etc. Talvez esteja caçando “fascistas” em toda parte, pois ele deve vê-los se esgueirando atrás de muros, saindo pelos bueiros, andando sobre os telhados ou escondidos atrás das árvores. Ironicamente, ele é aquilo que se propôs a combater. Sei que ele presta culto à personalidade daquele ex-presidente que esteve preso por corrupção, o qual só está solto graças a manobras de seus amigos instalados nas mais altas esferas do Poder Judiciário. O meu ex-amigo-irmão é um Camisa Negra dos tempos modernos. Mussolini teria orgulho de Frank.

 

 
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2 Comentários
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Lu Genez

cancelado? não…. liberto.
nada tão subversivo nos tempos de hoje… pensar.

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