Paulo Castro – [Salamandras, ondinas, gnomos]

Paulo Castro

Salamandras, ondinas, gnomos.

Essa galera.

Você chama demônios protegida pela adaga e o pentagrama.

Eu vi uns bichos feios com aquele vinho batizado de ervas que tu me deste. Se esse inferno fosse meu, amor, eu mandava ladrilhar.

Conhecer você, uma fria.

Quem mandou eu me inscrever naquele curso de sexo tântrico, achando que ia passar o rodo nas meninas de cabelo rasta. Sim. Comi umas. Até esbarrar em você.

Grudou em mim. Se diagnosticou  namorada.

― Gata, acho que posse não tem nada a ver…

E tu me passando o baseado:

― A magia vai te ensinar que Amor não é posse. Briguei. Bati boca. Saí pela porta trilhilhando a breguice de um caçador de sonhos.

Nessa noite eu estava comendo uma garota de programa japonesinha. Ela em cima. Eu olhando pra porta me deparo com o cachorro negro entrando no quarto. Os olhos brilhavam como fósforos em brasa.

Caguei-me. Modo de dizer. Estava acompanhado.

Lembram do Fausto do Goethe? A primeira vez que Mefistófeles aparece para o herói é como um cão negro.

E o meu mostrava os dentes.

E a japonesinha sobe e desde. Tirei ela de cima de mim. O cão fez um sorriso e saiu do quarto. 

― Lindinha, outra noite continuamos. Pensei no Palmeiras.

― Tava ruim, mestre ? Não gostou do carinho?

― Jet Li, você é uma delícia, toma tua grana, pega mais, te levo até a porta.

Medo de encontrar o canino belzebu ainda lá. Mas nem sinal.

Claro. A ficha caiu. Era coisa tua. Se dizia bruxa.

― Caralho! Você mandou o Mefisto pra atrapalhar uma foda minha !

― Suas fodas de agora em diante serão comigo. 

― Mas não é “faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”? Teu Aleister Crowley?

-Isso, e a lei , pela clavícula de Salomão, sou eu quem dito, playboy. Anota aí e vem agora pra minha casa.

Casamos numa igreja com a cruz invertida. Dizeres em latim.

Amarrou meu nome, porque hoje sou completamente apaixonado pela minha bruxinha.

Temos um filhote. Com incipientes chifrinhos no cocoruco.

Organizamos orgias de solstício, mas eu só quero comer ela. As outras são enfeite.

Tiro férias da empresa para nossas viagens, a conhecer locais místicos pelo mundo. E nadarmos, brincarmos na água.

Viajamos também com nosso sucesso de curso “Dificuldades no relacionamento ? Resolva com 666”.

Que mulher!

Que safada!

Minha demoníaca para toda vida!

 

Paulo Castro é médico psiquiatra e psicanalista, foi cronista semanal no jornal , “O Correio Popular”, de Campinas, parceiro de Hilda Hilst e Jota Toledo. Tem cinco livros impressos e uma peça de teatro encenada em Portugal.

 
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