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Crônica: Genecy Souza – “Jet Music Special” – O Disco Como Arquivo Vivo

Genecy Souza


É muito difícil encontrar algum ser humano cuja vida, ao menos em algum momento, não tenha algumas músicas que servem como marco representativo de acontecimentos, sejam eles bons ou ruins. Ainda que a música não seja a da preferência da pessoa, de alguma maneira, quando tocada em qualquer meio, reaviva momentos que estão guardados – e até esquecidos – em uma ‘gaveta’ da memória.


Comigo não foi diferente, ouço música desde sempre, mesmo quando ainda não tinha idade para saber o que aquele som significava. Só sei que era bom, mesmo que fosse uma canção de ninar cantada por algum parente que cuidava de mim. À medida em que fui crescendo quase toda música que eu ouvia saía pelo alto-falante do rádio, o resto eu aprendia na escola e nas brincadeiras com meus colegas. Muitas dessas músicas estão muito vivas no meu subconsciente, e são arquivos de passagens importantes na minha vida.


Nasci na mesma época em que surgiu a Jovem Guarda. Creio que Roberto Carlos foi o primeiro nome que liguei intuitivamente à determinada música que tocava no rádio. Segundo meu modo de entender o mundo ao meu redor, o Rei da Juventude simbolizava tudo que havia de mais moderno – roupas, sapatos, carros, etc. – e foi assim por algum tempo. Depois, passei a associar outros nomes às músicas que tocavam no único aparelho da casa: Erasmo Carlos, Wilson Simonal, Reginaldo Rossi, Jair Rodrigues, Ray Conniff, Rita Lee, Os Originais do Samba, Jorge Ben… A lista não parava de crescer.


Em 1973 meu pai comprou uma eletrola automática estéreo, com rádio AM-FM embutido, japonesa da gema. Não havia nada de mais moderno na vizinhança. Os primeiros discos foram comprados para abastecê-la. Infelizmente, eram aquisições esparsas, pois a renda da família não permitia comprar discos o tempo todo. Lembro que o primeiro LP a tocar na eletrola JVCNivico importada foi um do Agnaldo Rayol. Nele, havia uma música chamada Tempo de Chorar, versão para Homburg, um sucesso da banda britânica Procol Harum. É claro que só fui saber disso mais de 20 anos depois, graças ao arquivo da minha mente.Também, vim a saber que a letra em português nada tinha a ver com a original, e que isso era uma prática bastante comum na indústria da música no Brasil, pois, o que valia mesmo era a melodia e a qualidade da interpretação. Na verdade, essa prática existe até nos dias atuais, mas com efeitos para lá de discutíveis.


Em 1974 minha mãe comprou em uma filial da rede Casas Pernambucanas, um LP que chamou minha atenção por causa da bela arte da capa. Não sei se ela adquiriu o disco por causa desse detalhe, ou se em razão da faixa que abria o álbum, a qual estava nos primeiros lugares das paradas de sucesso. O hit era Sugar Baby Love, de uma banda de pop rock inglesa chamada The Rubettes. Já o álbum tinha um nome chamativo: Jet Music Special. A tradução é algo que não faz o menor sentido: “Música a Jato Especial”.


Jet Music Special é uma coletânea de sucessos internacionais estourados nas paradas de sucesso. No entanto, o pessoal lá em casa só ouvia a balada mela-cueca dos Rubettes, não dando a menor atenção às demais músicas do álbum. Essa tarefa coube obviamente a mim, por mera curiosidade e gosto — ouvia tudo com atenção. Para um garoto de 10 anos de idade, tudo aquilo era muito diferente do que já tinha ouvido até então.


A faixa número dois é MyThang, um funk de James Brown. A música possui um ritmo frenético e uma interpretação vigorosa do grande astro da black music. Em seguida, vem I Told You So, um soul, de uma banda chamada Delfonics. A faixa seguinte é Soul Power ‘74, outro funk da banda Maceo & The Macks. A faixa no 5 é How Do You Feel The Morning After, um soul romântico de Millie Jackson, e, fechando o lado A, o funk barra-pesada Damn Right I Am Somebody, da banda Fred Wesley & The J.B.’S. O lado B abre com o pop romântico Charade, dos Bee Gees. A faixa dois tem Gonna Make You An Offer You Can’t Refuse, outro soul romântico na voz de Jimmy Helms. Em seguida, um obscuro Bo Cooper interpreta a pop e alegre Don’t Call It Love. Jim Capaldi interpreta a pop-rock romântica It’s All Up To You. Another Saturday Night é um rock de Cat Stevens. Encerrando o álbum, temos o reggae This Is Reggae Music, de um grupo jamaicano chamado Zap Pow.


Como se pode observar, Jet Music Special reúne vários gêneros musicais, que na época nada me diziam, a não ser pelo fato de que se tratava de músicas realmente muito boas. Ironicamente, o hit que abre o álbum é a mais fraca de todas. Com o passar dos anos, e à medida em que eu amadurecia, meus gostos musicais também foram evoluindo, a ponto de considerar essa coletânea como um marco importante na minha formação como consumidor de música. Não que o que eu ouvia antes dele não signifique nada. Não se trata disso, Jet Music  Special é um divisor de águas no meu modo de ouvir música. O fato está na forma como passei a captar os sons, arranjos e interpretações, mesmo não entendendo nada do que os artistas dizem nas letras em inglês.


O disco ficou conosco por anos a fio, até que um dia desapareceu, mas não da minha cabeça. Todas as músicas de Jet Music Special possuem um significado muito forte na minha vida, sendo elas uma espécie de trilha sonora de momentos da minha vida de criança e de adolescente e de adulto.


Em 1996 pus em prática um sonho que nasceu nas faixas de Jet Music Special: uma loja de discos. Quero dizer: o sonho era meu, mas a grana era do meu patrão. Ele me incentivou a instalar o negócio em uma de suas lojas. Inicialmente, era só um pequeno espaço cedido para a venda de CDs, fitas cassete, fitas VHS e acessórios, mas foi crescendo até ocupar a loja inteira, a qual foi batizada, claro, como JET MUSIC. Meu objetivo era criar uma loja que fosse diferente das outras, um referência diferente no comércio de discos. Não havia LPs, pois já era considerado um produto obsoleto. O negócio começou bem, mas não se consolidou, devido a uma série de desacertos de ideias e objetivos com meu sócio-patrão. Deixei o negócio em menos de dois anos, ou seja: fui “saído”. A loja ainda continuou por algum tempo, até ter suas atividades alteradas para outros tipos de produtos. A Jet Music foi um sonho abatido por fogo amigo em pleno voo.


Cinco anos atrás, em visita a um sebo empoeirado e desorganizado, apenas para matar tempo, me deparei com o Jet Music Special, em meio a LPs de pagode, bolero, sertanejos. O álbum que me trouxe tantas lembranças estava novamente em minhas mãos. Para um disco que já contava mais de 40 anos, até que não estava mal. Paguei com prazer os cinco reais pedidos por ele. Pagaria 50 reais, se fosse necessário. O que importava é que ele voltasse para mim.


Graças à internet pude esmiuçar o conteúdo do álbum, procurando saber um pouco mais sobre as músicas e os artistas que as interpretam, inclusive os que permanecem obscuros até hoje. Também, descobri que Jet Music Special é parte de uma série de quatro LPs. No entanto, ele é a estrela que brilha mais forte, principalmente em razão dos comentários que outros colecionadores fazem a respeito do álbum.


Neste ano de 2020, em que se produz música nas mais diversas formas de mídia; em que o LP foi “ressuscitado” e transformado em artigo de luxo para o deleite de poucos; em que o CD continua jurado de morte, e, o que é pior: a cultura musical, mesmo bastante diversificada, não possui o mesmo impacto da cena musical dos anos 70, um LP como Jet Music Special permanece como testemunha da história da vida de muita gente como eu.

 
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