Genecy Souza – O Rinoceronte na Loja de Cristais e o Elefante não Conhece a Própria Força

Genecy Souza

Não. Esta matéria não vai tratar da vida selvagem na África nem na Ásia. Por outro lado, sim, mas é de uma outra selva, onde tudo vale na luta pela sobrevivência.

Sobrevivência política, para ser mais claro.

 

Essa política abrange toda sorte de interesses, incluindo a manutenção de certos (maus) hábitos e tradições que remontam àquele 22 de abril de 1500, quando Pedro Álvares Cabral e sua frota aportaram e “descobriram” o Brasil, anexando a nova terra ao domínio português. Tais hábitos e sugestões foram sofrendo mutações ao longo dos 521 anos de existência do nosso país. Aconteceu de tudo neste país, exceto a sua dissolução. Graças a esperteza e ambição de nossos antepassados, o Brasil até aumentou de tamanho, ao contrário dos países vizinhos, que não tiveram a mesma sorte. O maior país da América Latina e o 5º do mundo é tão grande, que nele tudo cabe, de bom e de ruim.

 

De bom, destaque-se que falamos o mesmo idioma no país inteiro; a diversidade étnica impressiona, os valores culturais são múltiplos e vastos; a natureza e as riquezas naturais são invejáveis – há água doce e florestas em abundância. Complete-se como o alto índice de industrialização e diversidade econômica.

 

Infelizmente, esses atributos não foram capazes de tornar o Brasil uma nação realmente proeminente no cenário mundial. É um país notado por seu tamanho, evidentemente. Por outro lado, nosso país não dá as cartas, não determina rumos, embora seja ouvido nos organismos internacionais que de fato mandam no mundo. Quem fala grosso são as potências de sempre: os EUA, a Rússia, a China, a França, o Reino Unido, a Índia, as nações do Oriente Médio e o Japão, só para ficarmos nos principais. Não sei por quanto tempo o país do Pelé permanecerá na condição de coadjuvante – e, em certos casos, figurante – nessa enorme peça cênica internacional. Só sei que estamos atrasados.

 

Já de ruim, dentre os muitos fatores que tornam a sociedade brasileira ainda extremamente refém dos velhos vícios políticos e sociais, é a incapacidade de mudar o rumo das coisas de maneira mais rápida, mais aguerrida, e até mesmo violenta. Não sei se ainda é cedo para considerar que a histórica passividade dos brasileiros diante da péssima qualidade de seus políticos está mudando. Como se sabe, certas mudanças provocam crises. Ou o contrário. A verdade é que um evento importante contribuiu fortemente para o que chamo de ‘desarrumação geral na loja de cristais após a entrada de um rinoceronte’.

 

A ‘loja de cristais’ é a política brasileira, e o ‘rinoceronte’ é o presidente Jair Bolsonaro. Simples assim, não é mesmo?

 

Bolsonaro não é o primeiro rinoceronte a entrar na loja de cristais: Dom Pedro I, Deodoro da Fonseca, Getúlio Vargas e os generais que implantaram o regime militar em 1964, também podem ser considerados esse bicho imprevisível. Todavia, de um modo ou de outro, apesar de mudanças importantes, certos maus hábitos sobreviveram e até ganharam novos nomes, mantendo a vergonhosa desigualdade social na ordem do dia e na vida dos cidadãos: muitos possuem pouco, e poucos possuem muito. Dadas as características deste enorme país, essas discrepâncias já deveriam estar extintas desde a Era Vargas, ou quem sabe após o movimento de 1964.

 

Na verdade nua e crua, os brasileiros tem sido tratados como otários, gado, massa manipulável, graças a sua absurda falta de educação política, esse grau de ignorância que sempre serviu de lastro para interesses político-eleitorais responsáveis pala manutenção de lideranças políticas e de currais eleitorais que passam de pai para filho. O brasileiro é o elefante que ainda não se deu conta da força que possui.

 

Jair Bolsonaro é o rinoceronte da hora. A loja de cristais não vê a hora de colocá-lo para fora. Vivo ou morto. Na verdade, morto ele quase foi, ao ser vítima de um atentado à faca por um ex-militante do PSOL em plena campanha eleitoral de 2018, na cidade de Juiz de Fora. Até o momento, não se sabe quem foram os mandantes do crime, graças a ações da Justiça, que impedem que as investigações se aprofundem. A tese de que o quase assassino Adélio Bispo agiu por conta própria é o mesmo que acreditar que Elvis Presley está vivo– ou que beijo engravida.

 

Uma série de fatores contribuíram enormemente para a eleição do ex-capitão do Exército, uma figura cômica com tiques de maluquice folclórica, tal qual um Enéas Carneiro ou um Eduardo Suplicy, entre eles está uma sucessão de escândalos surgidos nos governos Lula e Dilma, destacando-se o mensalão e o petróleo, que praticamente ajudaram a derrubar – ao menos em parte – toda a mística que envolve a figura de Luís Inácio Lula da Silva e sua pose de invencível. Apesar de seu inegável carisma, Lula deixou claro que era apenas mais um a se servir da ingenuidade dos cidadãos brasileiros, inclusive aqueles com alto grau de instrução. O resultado dos dois governos Lula e de um e meio da Presidente Dilma Rousseff – salvo alguns pontos positivos – foi de puro desalento. Nunca se roubou tanto na história deste país, e nunca antes tantas ditaduras amigas desses governos foram tão beneficiadas com o dinheiro dos pagadores de impostos, que foram utilizados como fiadores dos vultosos empréstimos. Os calotes já estão acontecendo. Dificilmente veremos novamente a cor do dinheiro que foi drenado dos cofres públicos, a título de financiar um projeto de hegemonia política, que felizmente foi parado, mas não se sabe por quanto tempo, visto que Lula, após ser libertado da prisão graças a manobras jurídicas, deseja retomar o poder em 2022. Na savana política brasileira, Lula pode ser classificado como uma hiena velha e cínica.

 

Enquanto o dia 02 de outubro de 2022 não chega, Jair Bolsonaro prossegue na difícil tarefa de cumprir os quatro anos de mandato para o qual foi eleito. Mais uma vez, nunca na história deste país, um presidente eleito democraticamente conseguiu fazer tantos inimigos, seja na política, seja na imprensa (leia-se: Organizações Globo, jornais Folhas de São Paulo, O Estado de São Paulo, entre outros), intelectuais, jornalistas, artistas, setores da Igreja Católica, ONGs mais que suspeitas, formadores de opinião, influenciadores digitais, setores do empresariado, blogs, sindicatos (aí, nenhuma surpresa); entidades de classe, entre elas, a Ordem dos Advogados do Brasil, profissionais da medicina, e por aí vai. Cabe, também, acrescentar os ministros do Supremo Tribunal Federal, em especial, Alexandre de Morais e Roberto Barroso, pivôs de uma crise entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, cujo desfecho ainda não se sabe como será.

 

Resta ao Mito pouco mais de um ano de mandato. Evidentemente, o Presidente não é mais o mesmo dos discursos inflamados da época de campanha. Algumas promessas não puderam ser cumpridas, enquanto outras tiveram que ser alteradas, por conta das maquinações políticas necessárias para sua permanência no cargo. Em outras palavras, Bolsonaro teve que abrir mão de alguns dedos para não perder a mão ou até o braço inteiro. Ele teve que negociar com o tal Centro Democrático – o famoso Centrão – para ter a garantia da governabilidade.

 

Se os tempos fossem outros – ou se o Brasil fosse uma republiqueta latino-americana ou africana –, Jair Bolsonaro recrutaria alguns oficiais leais, soldados e sua considerável legião de apoiadores, rapidamente subjugaria o Senado, a Câmara dos Deputados e, claro, o Supremo Tribunal Federal, além de outras instituições da República, para fazer valer suas ideias. Após um período de euforia inicial, as pressões e boicotes internacionais prejudicariam de tal maneira a economia, que o entusiasmo popular seria transformado em revolta. Em pouco tempo Bolsonaro estaria preso, exilado ou morto.

 

As manifestações pró-Governo no dia 7 de setembro deixaram claro que o Presidente goza de considerável apoio popular. Diante disso, onde está o mistério?

 

Jair Bolsonaro assumiu um país quase na bancarrota econômica resultante dos (des)governos petistas. Ele é o principal responsável pela saída da direita conservadora do armário (para o qual ela jamais deveria ter ido). Ser de direita deixou de ser palavrão. Para um país governado por governos de esquerda nos mais de 30 anos após o regime militar, parece que entendeu, às duras penas, que é necessário haver opostos ideológicos para que as forças político-ideológicas coexistam e se vigiem mutuamente, de maneira que se evite a hegemonia de quaisquer dessas forças. Pouco importa o rótulo que se utilize – progressistas, conservadores -, o que importa é que a sociedade aprenda a controlar quem a governa, e não o contrário.

 

O advento da praga chinesa (ou, pandemia da Covid-19) ajudou a escancarar a imensa miséria na qual vivemos. Ao mesmo tempo, nunca se viu tantos oportunistas transformarem esse drama em um meio para promoção pessoal, financeiro e político. Tolhido por uma ação do STF, que transferiu para governadores e prefeitos a tarefa de criar políticas de combate ao vírus, Jair Bolsonaro teve apenas a tarefa de abrir o cofre e distribuir recursos a torto e a direito. Evidentemente, boa parte desse dinheiro tomou outro rumo. Por outra lado, verificou-se o desperdício de recursos em obras que pouco ou nada resultaram em benefício da população, sobretudo à parcela mais humilde.

 

Ainda no início da pandemia, contrariando a tese do lockdown nacional, afirmando que era necessário combater o vírus, sem no entanto comprometer a economia, Bolsonaro ganhou as pechas de genocida, negacionista, entre outros. Seus inimigos, declarados ou não, pressionaram pela instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, cujo objetivo – ao menos oficial – é investigar as ações do Governo Federal no combate à pandemia. Na prática, o objetivo da CPI, apelidada de CPI circense, é minar o presidente, por meio de manobras jurídicas e políticas, haja visto haver muitos interesses em jogo, entre eles o futuro dos integrantes da infame comissão. Tanto pode dar certo, como pode dar errado.

 

A loja de cristais ainda está em pânico. Até agora, e apesar dos esforços para pô-lo para fora, ele teima em permanecer no recinto, quebrando os valiosos cristais, que nada mais são do que símbolos da velha e odiosa política brasileira.

 

Não sou simpático ao rinoceronte. Todavia, dadas as circunstâncias, e pela ameaça de retorno na antigo status quo, é melhor que o bicho fique onde está. Quem sabe o povo brasileiro se dê conta de que é o elefante que conhece a própria força e saiba usá-la a seu favor.

Genecy Souza – Escritor, Comerciário – Manaus – AM
Nascido em Manaus-AM em 1964, três semanas após aquele 31 de março/1º de abril, quase tão pobre quanto o Cristo, cresceu em um dos bairros mais fodidos da cidade, que ainda sofria as consequências do fracasso da época áurea da borracha. Desde muito pequeno adquiriu o gosto pela leitura, hábito que lhe causou fome de quase tudo. Nunca aprendeu nada na escola. Não é formado em profissão nenhuma, mas já exerceu um monte delas: office-boy, auxiliar de escritório, soldado, comprador, caixa, comerciário. Tentou ser empresário do ramo de discos, mas quebrou a cara. Hoje, trabalha em um escritório de contabilidade..
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista em papel Gatos & Alfaces, ambas publicadas por Luiz Carlos Cichetto. Ainda vive em Manaus.

 
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