Genecy Souza – O General, O Office-boy e a Mulher Que Botava Ovo

Genecy Souza

João Figueiredo, o último dos generais-presidentes da República, prometeu, em 1979, em sua cerimônia de posse, que faria deste país uma democracia. Na verdade, ele tornou possível o retorno à normalidade democrática. Foi em seu governo que se abriram as porteiras para os filmes de sexo explícito. O Império dos Sentidos foi a carta de alforria para os sentidos reprimidos. A obra acabou por ser liberada em meados de 1980.

 

***

Em 1981, Percival era um adolescente ingênuo e virgem em tudo. Aos 17 anos ele sabia o que era sexo. Também, já tinha visto mulheres nuas nas páginas coloridas de revistas como Playboy, Status, Ele Ela, e em mais algumas, que seus colegas mais velhos no depósito da empresa em que trabalhava mostravam para o rapazote baixinho e magricela, pois era mais do que evidente que ele não conhecia o modus operandi da fornicação, da trepada, da conjunção carnal, enfim, da foda. Seus colegas (todos mais velhos) faziam questão de exibir as páginas que exibiam vaginas brancas, morenas, negras, rosadas, escancaradas ou fechadas, pentelhudas ou depiladas; bundas voluptuosas, seios firmes, coxas como que esculpidas a cinzel, olhos sedutores, cabelos lisos, cacheados, pretos, loiros ou ruivos; e bocas que não falavam, mas insinuavam sacanagens. Todas.Os colegas sacanas de Percival faziam questão de comentar diante dele as cenas de sexo que viam no cinema, as posições mais ousadas, as idas ao puteiro e os nomes das suas putas favoritas, bem como das “especialidades” que elas ofereciam: boquete, franguinho, “por trás”, suruba, espanhola, dupla penetração, cunete… Evidentemente havia exageros, mentiras, pois, alguns deles se apresentavam como verdadeiros atletas sexuais, do tipo que “dava três sem tirar”. O objetivo deles era desconcertar o puro e tímido office-boy. E eles conseguiam! Para completar, ainda prometiam levá-lo – à força – para um puteiro que havia perto da empresa, no dia do pagamento. Eles pagariam a conta. Percival corava, entrava em pânico, o que era reforçado por uma outra palavra: gonorreia, a qual volta e meia era mencionada. A doença estava ligada ao sexo, sem proteção, como era normal na época. Segundo alguns deles, um homem só era homem de verdade quando pegava uma. Para sorte deles, a AIDS ainda não estava no mapa.

 

Os colegas sacanas do office-boy, recém atirado ao selvagem mercado de trabalho, para ajudar nas despesas da família com o mísero salário mínimo que recebia. Para si cabiam algumas centenas de cruzeiros para os gastos pessoais. Sobrava mês no salário do Percival. Quase nunca havia cruzeiros disponíveis para comprar ao menos uma daquelas revistas de sacanagem que ele via expostas nas bancas de jornais. E quando havia, faltava coragem para encarar o dono da banca. Ele detestava expor-se, seja lá qual fosse a situação. Introvertido como só ele podia ser, era uma complicação dizer um simples “bom dia”, um necessário “com licença” ou um indispensável “obrigado”, quanto mais ter acesso àquele assunto proibido para menores.

 

Percival gostava muito de ler. Em um dos jornais que a empresa assinava, uma matéria saltou-lhe aos olhos: a Censura havia liberado para exibição pública o filme japonês O Império dos Sentidos, após muitos debates e controvérsias, dado o fato de ele conter cenas de sexo explícito. Sim, sexo explícito! Após uma breve consulta do significado da palavra “explícito” no dicionário, ficou claro que a proposta da película era contar uma história baseada em fatos reais, com cenas de sexo real, sem truques; o pênis entrando e saindo da vagina, e em quaisquer outros orifícios do corpo. Até então, os filmes disponíveis eram de sexo simulado, com grau de nudez regulado pela Censura Federal. Ele sabia que era assim, pois já tinha visto algo parecido, em cenas cuidadosamente ensaiadas e produzidas em alguns filmes “normais”. Embora ele ainda não tivesse assistido a nenhuma pornochanchada, tudo ficava limitado aos cartazes pregados na porta dos cinemas. Mas a maioria das porno-atrizes correspondiam às boazudas que estrelavam as páginas das Playboy da vida. O resto ficava por conta da imaginação.

 

A empresa fornecia transporte para alguns funcionários. De manhã, Percival e alguns colegas embarcavam na caçamba de uma picape Ford F-100. Essa carona aliviava as despesas com transporte, uma vez que ainda não existia o vale-transporte. O trajeto consistia em passar por uma avenida onde havia um cinema. Sempre havia um grande painel pintado, reproduzindo o cartaz do filme que estava em cartaz e os horários das sessões. Um belo dia, o coração do office-boy deu um salto: o painel reproduzia o cartaz do polêmico O Império dos Sentidos, que estrearia dali a alguns dias. Um dos ocupantes da caçamba da F-100 vibrou, com um “Esse eu vou ver!”.

 

Ainda faltava mais de um ano para Percival atingir a idade de 18 anos, esse passaporte para a sacanagem. Enquanto isso, a polêmica relacionada ao filme tomou contada cidade. Naturalmente, o assunto contaminou o debate. Havia quem quisesse proibir aquela pouca vergonha para “proteger a família, a moral e os bons costumes”. E havia uma corrente que defendia a exibição do filme, pois a Censura já o havia liberado para maiores de 18 anos. Percival dava pouca importância ao debate. O que chamou sua atenção foi o comentário de que o Juizado de Menores havia designado agentes para atuar na porta do cinema, objetivando flagrar a presença de menores de idade e, se for o caso, tomar medidas drásticas nesse sentido.

 

Todos os dias Percival via o cartaz. E todos os dias o filme era comentado por seus colegas. Um deles, chegou com o comentário de que “a japonesa botava um ovo”, e que, no final no filme, ela “cortava fora o pau do japonês”. Os clientes que visitavam a empresa também tinham o filme em pauta. O office-boy magricela ficava imaginando como uma mulher podia botar um ovo, e por que qual motivo ela deceparia o pênis do parceiro. Outro colega comentou que o filme era tão real que dava para ver o japonês gozando. Isso era demais para o puro Percival, que não sabia como era essa coisa de gozar, pois, com seu próprio pau ele só sabia mijar, apesar das frequentes ereções típicas dos adolescentes. Ele sempre ouvia falar na expressão “tocar punheta”, mas não sabia qual era o desfecho dela. Até então sua mão direita também era virgem. O sexo ainda era um território a desbravar, e o gozo era um prêmio a ser conquistado.

 

O tempo passava e O Império dos Sentidos continuava em cartaz, pois era um sucesso absoluto. Percival não tirava o filme da cabeça. Certa tarde, ele passou em frente ao cinema, no momento em que o público estava saindo após uma sessão. Ele observou um sujeito que aparentava estar excitado e com uma mancha que se destacava em sua calça. Percival deduziu que o filme era tudo aquilo que dele tanto se falava. De súbito, ele resolveu estabelecer uma estratégia para assistir ao filme, mesmo sendo ainda menor de idade. A vontade teria que vencer o medo de ser flagrado pelo Juizado de Menores, visto por algum vizinho ou colega, e até mesmo por um parente, o que seria o cúmulo da humilhação. O tímido e reservado Percival teria que enfrentar um longo período de vergonha; talvez ele viesse a morrer dela. Ou. Se o Juízo Final estivesse para acontecer naqueles dias, ele não poderia morrer sem cumprir aquele que seria seu último e secreto desejo – ou sua última primeira e última aventura.

 

Certo dia, em mais uma das caronas, no trajeto de sempre, o painel de O Império dos Sentidos ostentava um cartazete, onde estava escrito: “Última semana”. Percival sentiu um frio na barriga. Devia ser uma terça, talvez quarta-feira. Algo tinha que ser feito. Talvez nunca mais houvesse outro filme de sexo explícito depois daquele, pois a Censura poderia proibir novamente. Talvez o Fim dos Tempos estivesse mesmo próximo. Ele não poderia morrer — ao menos com seus olhos e ouvidos – virgem. Percival pôs-se a maquinar um “plano infalível”, afinal, a mulher que botava um ovo não podia mais esperar.

 

Percival deixou sua incipiente barba crescer, só para parecer mais velho; o seu cabelo já estava bastante grande para ajudar no disfarce. Sua carteira de estudante da escola noturna era no formato de caderneta, bastante comum na época. Na primeira página, onde estavam sua foto e seus dados pessoais preenchidos à caneta, ele, usando uma gilete, paciente e cuidadosamente alterou o ano de seu nascimento. Com isso, 17 anos viraram 19, embora ele, de perto, aparentasse ter 14. Ele confiava demais em seu cabelo grande e na barba rala no queixo, além de um bigode pouco evidente. Ele escolheu a sessão das 19:30, quando não haveria tanta gente. No entanto, ele só compraria o ingresso 15 minutos após o início do filme, para o caso de evitar um vexame no caso de o golpe ser descoberto, seja pelo bilheteiro, seja pelo porteiro. Antes, ele estudou a área como se fosse um terrorista ou um assaltante, para identificar qualquer pessoa que aparentasse ser do Juizado de Menores, ou de ser reconhecido pelas tão temidas pessoas que ele conhecida.

 

Com o plano em execução, Percival respirou fundo ainda na rua. Subiu a escadaria do cinema (que se chamava Chaplin) resolutamente em direção à bilheteria, com o dinheiro contado na mão, forçou a voz para parecer mais grossa: “Uma inteira, por favor”, sem no entanto encarar o bilheteiro. Primeiro obstáculo vencido. Em seguida, dirigiu-se ao porteiro, entregando-lhe o ingresso, também sem encará-lo, mas aparentando naturalidade. O funcionário girou a catraca. Percival entrou, em um estado de pânico controlado, sem olhar para trás. Se fosse hipertenso como é hoje, ele teria morrido ali mesmo, infartado. Mais um obstáculo vencido. Três metros depois, o Paraíso na forma de uma grande tela na penumbra estava diante de si.

 

Com os olhos se acostumando à sala escura, logo veio o primeiro choque: a japonesa estava botando um ovo! Ao mesmo tempo, Percival estava procurando uma poltrona vazia. Encontrou uma das poucas disponíveis, no meio da fileira. Sentou-se com a mais firme ereção que já tivera — e com o coração a mil, os olhos arregalados. Logo em seguida, cenas reais de penetração e – glória! – a ejaculação do japonês. Ao mesmo tempo, ele deduziu: “Ah! Então, isso é que é gozar…” Ato contínuo, o líquido leitoso expelido pelo pênis do amante da insaciável mulher era o que os seus colegas do trabalho chamavam de “gala”, e que é ela que contém os espermatozoides que fazem a mulher engravidar. Percival tinha descoberto a pólvora.

 

A exemplo de 99% dos espectadores naquele cinema, o enredo de O Império dos Sentidos não tinha a menor importância. Tão desimportante quanto era saber a biografia de Nagisa Oshima, o celebrado diretor japonês. O que valia ali era o sexo pelo sexo, os gemidos de um casal trepando. Um chocante espetáculo visual para um público que, até aquele evento, só se valia das pornochanchadas produzidas em sua maior parte na mal afamada Boca do Lixo de São Paulo. Aquela exibição de O Império dos Sentidos era um exercício de voyeurismo coletivo combinado com a Sétima Arte.

 

Durante a exibição do filme veio o grande susto, quando o lanterninha disse: “Ali tem um…” A ereção de Percival se desfez em dois segundos, seu coração saltou à boca. Não havia um plano de fuga. O Fim do Mundo, pensou, havia chegado; “fui descoberto!”. As tórridas cenas de sexo explícito que prendiam a sua atenção, de repente se esvaíram. Ele estava perdido, beirando o desespero. Felizmente, e, para alívio do jovem aventureiro, a fala do lanterninha era para indicar a um espectador retardatário uma poltrona desocupada. Sem mais tesão por causado susto, Percival seguiu assistindo ao filme, apenas para esperar a cena em que o ator teria o pênis decepado por sua parceira, pois o amante desejava obter o máximo de prazer, um orgasmo máximo, o que de fato aconteceu, após ele ser enforcado pela amada.

 

Após a cena trágica, Percival pôs em prática a última parte do seu plano infalível: deixou imediatamente o cinema. Havia pessoas no saguão aguardando o início da próxima sessão. Deu uma olhada rápida. Não havia nenhum conhecido. Já na rua, dirigiu-se para o ponto de ônibus, assustado, mas feliz. No dia seguinte, na empresa, um dos meus colegas, mais uma vez mencionou o filme. Desta vez, o office-boy sorriu sem corar, quase dizendo que também vira o filme.

 

Em 1982, finalmente Percival conquistou a maioridade e o passaporte para a sacanagem nas telas. Filmes de sexo explícito já eram mania nacional –ele assistia a todos que entravam em cartaz: Garganta Profunda, O Diabo na Carne de Miss Jones, Atrás da Porta Verde, Coisas Eróticas, Calígula, e trocentos outros. Ele viu putarias não apenas na tela, mas também nas poltronas e nos banheiros, mas nunca ousou participar, pois o risco era alto. À medida que amadurecia, sentiu, na prática, que o sexo pouco ou nada tinha a ver com aquilo que aquele misto de atores e atletas sexuais exibiam. Mas aí, já é outra história.

 

Percival teve a oportunidade de rever o filme dez anos depois, desta vez com outros olhos e ouvidos, pois ele já era um cinéfilo em busca de uma nova compreensão do que era, afinal, a Sétima Arte. O Império dos Sentidos, de um bizarro filme de sexo explícito, metamorfoseou-se em uma bela, porém trágica história de amor desmedido, ora repulsivo, ora encantador. A saga passional de Sada e Kichi dificilmente poderia ser transplantada para a tela do cinema sem olhar e a maestria de um diretor como Nagisa Oshima, cuja sensibilidade evitou contaminação por um agente bastante comum no cinema dito erótico: a vulgaridade.

 

Oshima é responsável por outro filme marcante: Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983), um drama de guerra baseado em fatos reais ocorridos na Segunda Guerra Mundial, tendo como ator principal David Bowie, em uma atuação notável. Anos depois, o rock star Bowie passaria a integrar a galeria de heróis de Percival.

 

Decorridos 40 anos da aventura do retraído office-boy, agora um colecionador de acidentes de percurso (sexuais, amorosos, existenciais, ideológicos, profissionais, etc.), a lembrança de O Império dos Sentidos sempre vem à tona, quando se menciona o nome do general-presidente João Figueiredo, ou, quando ele passa em frente ao cinema que serviu de palco para sua aventura. O cinema fechou as portas há alguns anos, derrotado pelos sofisticados e caros cinemas de shopping centers, bem como pelo XVideos, Porn Hub e similares disponíveis na internet: gratuitos, fartos, e para todos os gostos e taras. O proprietário do Cine Chaplin, conhecido por ser dono de um rico acervo de objetos pornô-eróticos, e de uma magnífica coleção de discos, morreu; e Nagisa Oshima, também.

Genecy Souza – Escritor, Comerciário – Manaus – AM
Nascido em Manaus-AM em 1964, três semanas após aquele 31 de março/1º de abril, quase tão pobre quanto o Cristo, cresceu em um dos bairros mais fodidos da cidade, que ainda sofria as consequências do fracasso da época áurea da borracha. Desde muito pequeno adquiriu o gosto pela leitura, hábito que lhe causou fome de quase tudo. Nunca aprendeu nada na escola. Não é formado em profissão nenhuma, mas já exerceu um monte delas: office-boy, auxiliar de escritório, soldado, comprador, caixa, comerciário. Tentou ser empresário do ramo de discos, mas quebrou a cara. Hoje, trabalha em um escritório de contabilidade..
Possui textos publicados na revista digital PI Ao Quadrado e na revista em papel Gatos & Alfaces, ambas publicadas por Luiz Carlos Cichetto. Ainda vive em Manaus.

 
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Daniel Kaemmerer

Simplesmente sensacional.

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