Imagem: Michel Gaida, por Pixabay

Crônica: Genecy Souza – Eu e Meus Discos, Meus Discos e Eu

Genecy Souza


Eu não sei quantos discos eu tenho, perdi a contas dos discos que já tive, e não sei de quantos discos eu preciso para me considerar satisfeito, abastecido, completo, feliz, sei lá. Sei de gente que tem 10, 20, 50 vezes mais discos do que eu, que gosta de exibi-los no YouTube e em sites e blogs especializados. Parabéns para eles. Se são colecionadores ou acumuladores, realmente isso pouco importa. O que importa é que essas megacoleções não despertam em mim a menor inveja. A melhor coleção é a minha, pois a conheço de cabo a rabo, e só eu sei o duro que dei para comprar cada um dos discos que a compõem. Todo colecionador é um conquistador.

 

Do primeiro disco que comprei com o meu suado dinheirinho até o mais recente, existe uma história que envolve longas esperas, pouco dinheiro, cartão de crédito estourado, desapontamentos e aprendizados que colam como tatuagem. Revolvendo as lembranças armazenadas no HD que existe dentro da minha cabeça, chego, por exemplo, àquele álbum que há muito tempo estava na minha lista de desejos e que aparece de repente, mas o meu bolso está vazio; o dia do pagamento está longe, a angústia por conta do medo de uma frustação iminente cobra uma atitude. Para ontem, diga-se. É que tem um cara de olho no disco que também estou de olho. É o único disponível. É pegar ou largar. Eu me recuso a largá-lo em favor do outro pretendente, um rival não declarado, tal qual dois leões disputando uma fêmea. É egoísmo puro e simples. Faço uso do charme que não tenho. Estrategicamente peço ao balconista que guarde aquele tesouro até o dia X. Também peço a ele que guarde outros dois ou três, importantes, mas não urgentes, só a título de incentivo – o cara vive das comissões sobre as vendas. A estratégia (quase) sempre dá (ou deu) certo. Cumpro a promessa, mesmo detestando fazê-la.Uma promessa é para mim uma forma de prisão. Volto à loja antes do dia X, e com o dinheiro em mãos, contadinho. Pago a conta. Levo o meu tesouro e mais os outros dois ou três. O balconista fica feliz. Ele vai me tratar melhor da próxima vez. Ele ganha comissão, vale repetir. Isso é um caso de amor. Aos discos, não ao rapaz.

 

Ao chegar em casa, feliz pela concessão do auto-presente, ouço a minha conquista faixa por faixa, leio o encarte, quero saber o nome de todos que tornaram aquilo tudo possível — em 1975! –. Também ouço na sequênciaos outros dois ou três, importantes, mas não urgentes, como já disse. Tudo certo, como dois e dois são quatro. Só que não. Eu quero mais. Sempre. A caçada (ou garimpagem) recomeça no dia seguinte. Na verdade, ela nunca terminou. Nem terminará. Ainda sonho com aquele, de 1982; um outro, de 1966; e, mais aquele, de 1991, que os críticos odeiam, mas eu não. Enquanto nenhum deles cai na minha rede, me satisfaço com outros peixes, importantes, mas não urgentes. Sabe como é, né?

 

Meus discos me contam a História, histórias e estórias, verdades e mentiras; me apontam caminhos, estradas sinuosas com abismos; me levam para o espaço sideral ou para dentro de mim; ora me enganam, ora me abrem os olhos. Há aqueles que querem mais é que eu me foda ou que foda-se o mundo. Uns me convidam para fumar um baseado, mas eu não aceito. Ouço o que eles dizem, mas não faço o que seus autores, intérpretes e músicos fazem/fizeram. Prefiro ser eu o dono dos meus erros. E há aqueles que me convidam para dançar, mas eu não sei.

 

Meus discos me ensinaram a ler livros “diferentes”,a ver filmes fora do comum, a apreciar artes plásticas, a entender fatos históricos marcantes. Eles me apresentaram a Hieronymus Bosch, George Orwell, David Lynch, a psicodelia, o Verão do Amor, Lewis Carroll, a Guerra do Vietnan, Edgar Allan Poe, Quentin Tarantino, Stanley Kubrik, Antonio Gaudi, Julio Verne, a pop art, Marquês de Sade, Woodstock, Luiz Gonzaga, a Guerra Fria, Jack Kerouac, Andy Warhol — e até mesmo a Bíblia(!). Enfim, nada como a música para juntar tudo isso.

Meus discos foram pensados e concretizados por gente incomum, com talento acima dos demais mortais, muitas vezes megalomaníaca, arrogante, exigente, devassa, egocêntrica, insegura, viciada, às vezes violenta, egotista, egoísta, hipócrita, enfim… defeitos, digamos, perdoáveis, desde que a obra seja boa, para dizer o mínimo. Não tenho a menor dúvida que, graças a esses defeitos humanos, os meus discos são o que são. Deles eu tiro verdades embaladas em notas musicais.

 

Minha coleção já foi maior. Optei pela qualidade, não a quantidade. Infelizmente, já não tenho mais o tempo em que podia ficar 4, 5, 6 horas na frente do aparelho de som. Entretanto, no pouco tempo que disponho atualmente para ouvir discos dedico a devassar as letras, os arranjos, os porquês, os motivos e as inspirações dos artistas que expuseram suas impressões do mundo em gravações. É uma nova fase bastante compensadora, além de prazerosa.

 

Os meus discos são testemunhas dos altos e baixos da minha vida, dos erros e acertos, das vitórias e das derrotas. Passados mais de 40 anos do primeiro disco comprado com o meu dinheiro, constato que continuo a aprender sobre os vários aspectos da vida, desta vez, com mais clareza e velocidade. É verdade que a minha idade ajuda bastante. Também é verdade que tornei uma pessoa extremamente crítica sobre o que ouço e vejo. Identifico na hora os picaretas da música, atuais e passados, suas idiossincrasias, e a incrível capacidade que ele possuem em decepcionar aqueles que os tinham como heróis há 20, 30, 40, 50 anos.

 

Dizem que devemos separar a arte do artista, mas até que ponto? Hoje, em pleno século 21, graças a velocidade das comunicações proporcionada pela internet, tudo acontece muito rápido, e nem sempre é possível fazer um julgamento dos fatos na mesma velocidade. Entretanto, todo esse progresso tecnológico ajudou a mostrar o artista como ele é realmente. Infelizmente, o retrato nem sempre é bom. A decepção é gritante. Os contestadores irreverentes de outrora, que desafiavam governos e costumes, salvo honrosas exceções, hoje não passam de milionários bajuladores de déspotas, ou covardes demais para enfrentar os opressores reais. Não e mesmo, Mr. Waters?

 

Ao longo dos anos, fomos perdendo nomes importantes que, de uma forma ou de outra, ajudaram a moldar nossa forma de pensar e agir/reagir, mas não necessariamente concordando com o que eles diziam ou faziam: David Bowie, Lou Reed, Leonard Cohen, Raul Seixas, Chuck Berry, Walter Franco, Frank Zappa, Cazuza, Jerry Garcia, Joey Ramone, Renato Russo, Ronnie James Dio, Syd Barrett, Nico, Gregg Allman, Neil Peart… Sim, a lista é longa.

 

Por fim, e apesar dos pesares, é gratificante saber que, em 2020, muitos daqueles astros da música dos anos 60, 70 e 80 ainda estão em atividade, boa parte deles sem o viço criativo de outrora, mas, ainda assim, produzindo e lutando contra a decrepitude da idade e do corpo. Eles sabem que a morte lhes faz acenos por estar cada vez mais próxima. De qualquer modo, eles permanecerão vivos nos discos que estão na minha coleção de discos formada e mantida a duras penas, e que contam a História, histórias  e estórias. C’est la vie.

 
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