Lou Reed em 1975, fotografado por Mick Rock

Crônica: Barata Cichetto – Viver é Representar Uma Farsa Em Tom de Comédia

BARATA CICHETTO

– FUNDADOR

Em meados de 1974, eu estava prestes a completar 16 anos. Era virgem, mas já trabalhava de Office Boy desde os 14. O Rock tinha entrado nas minhas veias há uns quatro anos, primeiramente pelo rádio de pilha, depois pelos discos de um amigo, mais novo, mas com mais grana. No início daquele ano tinha quebrado o cabaço com uma apresentação de Rock, e da forma mais gloriosa possível, com a apresentação de Alice Cooper em São Paulo. Era preciso quebrar outros, e comecei a frequentar a chamada Boca do Lixo e o Museu do Disco, ambos no centro de São Paulo. E também a rabiscar poemas, um tanto tolos e ingênuos, nas folhas de um caderno que tinha sobrado de um ano letivo anterior, mas que não eram mostrados a ninguém. Meu tripé “Sexo, Poesia & Rock’n’Roll” começava aos poucos a ser levantado, e em poucos meses estaria literalmente de pé. Às vésperas de meu aniversário, minha inauguração como homem e poeta: Dalva, uma mulata linda, de peitos pequenos e bunda grande e pele lisa feito um demônio. Ela percebeu minha ingenuidade e foi doce feito um demônio. Eu andava há tempos passando pelo “ponto” dela e a desejando, e tinha escrito uma poesia – creio que minha primeira sobre putas – e naquele dia entreguei a ela, depois de uma gozada totalmente sem jeito. Ela leu, sorriu e guardou o papel no sutiã. Naquele mesmo dia, passei no Museu do Disco, e também quebrei outra virgindade, depois de namorar muito: comprei meu primeiro disco de Rock: “Slade Alive”. Estava feito! Na mesma época, saiu uma revista, “Rock, a História e a Glória”, com dois caras dividindo a capa: Lou Reed e David Bowie. Papai e mamãe, mamãe e papai. Li as biografias e as letras e me identifiquei imediatamente com as de Lou. Passei a me sentir como ele, já que eu também, dentro da minha ainda então inocência pueril, pensava também viver a “Barra Pesada”.  Ele em New York, e eu na Noviorque dos trópicos. Meses depois, tingi roupas de preto e comprei um óculos de sol, tipo aqueles de caminheiro, que era o que o Poeta usava. Eu era Lou Reed. Me sentia Lou Reed e queria ser poeta como Lou Reed. E pronto. (Durante muitos anos, e creio que isso ainda persista, nunca imaginei estar escrevendo um poema, mas uma letra de Rock, que eu estaria, feito o Poeta Maior, declamando ou cantando à frente de uma banda barulhenta). Dai a começar amizades com putas, travestis e sapatas do centro foi um passo. Era inspirado pelas letras de Lou, mas minhas atitudes não eram forçadas, eu me sentia bem naquele meio. Me sentia identificado com sua dor e sua paixão, e muito da violência doméstica que aquelas pessoas tinham sentido na carne também me fazia sentido. A diferença era que a maioria justificava sua conduta e suas mazelas com isso. Eu apenas curtia. Namorava as putas, tinha amigas que eram donas de puteiros, e me apaixonava cada vez mais por aquele mundo da Boca do lixo, incluindo os estúdios do cinema de pornochanchada da região. Lou Reed tinha sido meu Virgílio, meu Caronte, naquela descida aos círculos do Inferno, onde todos os pecados eram resumidos a três: Sexo, Poesia e Rock. E por ele, Lou Reed, encarnei e encarei todos os meus demônios. Mesmo agora, 45 anos depois, ainda trago o Inferno representado por essa trilogia satânica, e acreditem, é por ela que ainda continuo minha caminhada neste planeta. Virgilio é morto, o barco de Caronte à deriva, mas eu continuo, mesmo que torto e tonto, andando pelos círculos eternos do Inferno: Sexo, Poesia e Rock’n’Roll. Já não há mais putas nem poesia na São João, tomada pelos camelôs caetaneados e deslumbrados, os cinemas agora são igrejas, as companhias cinematográficas fecharam, meus cabelos ficaram brancos e Lou Reed está morto. Não há mais um mundo que nos crie, que nos aceite, que nos entenda. Não tem o mundo de hoje lugar para pessoas assim. Ele não comporta pessoas como Lou, como Bowie, a não ser como meros ídolos de pano podre mortos que são facilmente negociáveis. A sociedade de hoje, asséptica e ao mesmo tempo podre, não comporta nem suporta as mazelas, mas nada faz a não ser mudar o sentido das palavras. Não aceito ser de plástico, não aceito a falsa assepsia, o falso moralismo, o falso capitalismo, o falso comunismo. Não aceito o banditismo, o vitimismo. Vou continuar enfiando isso no rabo de todo mundo, gostem ou não. Não vou ficar quieto, não vou fingir que não sou o que eu acredito, e nem acreditar que não estou aqui, como bem desejam. Lou Reed está morto, Bowie está morto. Eu ainda não

 

27/10/2019, Seis Anos Após a Morte de Lou Reed

 
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