Barata Cichetto – Senhor Brasil: Uma Fábula Foda Em Verde e Amarelo (ou Uma História em Quadrinhos Para Professores Com Camiseta do Che

Existiu num tempo um senhor a quem chamaremos de Brasil. O Senhor Brasil era um homem muito rico, mas bondoso e receptivo a todas as pessoas. Era rico, mas não tinha sequer a noção do tamanho de sua riqueza. Era enorme de porte, e suas dimensões, em todos os sentidos, eram intimidadoras. Intimidadoras a uns, mas muito atraentes a outros.

 

Dizem que o Sr. Brasil, quando de seu nascimento, era mais rico ainda, mas que seus pais percebendo sua riqueza passaram a roubá-lo. Não que os pais do Sr. Brasil tenham ficado ricos, pois logo tudo o que lhe foi roubado acabou sendo perdido em jogatinas. Mesmo assim ele ainda era muito rico e seus filhos, desde os naturais, até os que, ainda jovem ele adotou, eram muito felizes.

 

Acontece que o Sr. Brasil, por conta de sua enorme hospitalidade com todos, e por sua enorme pureza, cresceu meio abobalhado, e sempre foi feito de tolo por todas as suas esposas. Todas elas, sem exceção, lhe roubaram, deram sua riqueza a amantes de todas as partes do mundo. E todas elas, também sem exceção o traíram, na maioria das vezes em seu próprio leito.

 

Era triste o Sr. Brasil, mas como qualquer triste era efusivo e brincalhão, sempre demonstrando bom humor. Uma fachada que escondia o que era na realidade: amargurado e rancoroso, que não perdia o oportunidade de se vingar.

 

O Sr. Brasil foi casado muitas vezes, algumas com esposas muito cruéis que maltrataram seus filhos, o que o deixava muito triste. Mas como ele tinha que cuidar de sua riqueza, de seus bens, não tinha tempo para pensar nisso. Uma delas preferiu cometer suicídio a reconhecer sua traição, outra pediu divórcio logo após o casamento, esperando que ele implorasse por seu retorno. Essa deixou o leito pronto, quente, para uma irmã, que queria entregar toda a fortuna do Sr. Brasil a um russo, mas os filhos dele, amparados por uma matrona gorda e violenta o impediram, permanecendo no comando da casa durante quase vinte anos, tratando muitos de seus filhos com violência.

 

Quando finalmente elas deixaram de mandar na casa, o Sr. Brasil acreditou que poderia casar-se novamente, de uma forma mais livre, mas foi apenas um casamento arranjado, de conveniência, já que a indicada para o casamento morreu na noite anterior, deixando em seu lugar uma irmã que, sedenta de poder, e consciente da riqueza do milionário tratou de tentar fazê-lo acreditar que resolveria seus problemas, colocando seus filhos uns contra os outros, fiscalizando. Todos fiscalizavam todos, portanto ninguém fiscalizava ninguém. E assim, foi-se outro casamento fracassado, e o Sr. Brasil começou a ficar cada dia mais pobre.

 

Depois desse casamento, seus filhos acharam que deveriam ser eles mesmos a escolher a futura noiva. Assim foi feito, e entre duas, uma era Alagoana, metida a esportista, dona de jornal e que dizia ter os grandes lábios roxos, e a outra Pernambucana, uma daquelas bem grosseiras e ignorantes, que tinha perdido um dos dedos para se aposentar precocemente, e foi acusada de ter enganado outras pessoas e deixado de reconhecer uma filha. Ganhou a primeira, e muitos contam que alguns dos filhos mais ricos sabotaram a escolha, outros contam que de fato Alagoana de fato conquistou o Sr. Brasil, que nela via seu próprio retrato.

 

O fato é que tão logo terminou o casamento, e adentrou a sala de estar da mansão do Sr. Brasil, ela tomou todo o dinheiro que seus filhos tinham guardado, sendo que alguns até morreram do coração por causa disso. Entretanto, Alagoana não era tão poderosa assim, e logo os parceiros criminosos que a tinham ajudado na escolha perceberam que, se deixassem, ela os trairia, e então deram um jeito de ela sair de fininho, pela porta dos fundos da mansão, deixando em seu lugar uma Mineira sonsa, sua irmã bastarda, que só pensava em ter um Fusca e namorar no banco traseiro.

 

A Mineira sonsa, entretanto, tinha uma amiga, muito culta e estudada, uma Carioca que tinha até mesmo lecionado na Europa, e que a convenceu a ajudá-la na organização das finanças do Sr. Brasil, que estavam uma bagunça danada. E como ela sabia como mexer com números, de forma que eles dessem o resultado que ele queria, o Sr. Brasil e seus filhos viram suas riquezas aumentarem. Ao menos era o que os números diziam. E todos ficaram felizes.

 

Acontece que as regras que os filhos tinham escolhido, se é que tinham sido mesmo eles, diziam que uma nova escolha deveria acontecer. E, claro, quem seria escolhida, senão a Carioca inteligente, de fala bonita, fluente em outros idiomas, e que tinha ainda resolvido o problema das finanças do Sr. Brasil? A Pernambucana ainda tentou, mas não era páreo. Os filhos estavam encantados com ela.

 

E a Carioca esperta consertou mesmo a casa do Sr. Brasil. Não que tenha realmente consertado tudo, já que a coisa que ela sabia melhor, era como esconder o pobreza dos filhos, para parecer que estavam maravilhosos. Ela sabia como deixar tudo brilhando sem de fato estar limpo, ela sabia gastar com os cartões de crédito sem que parecesse que foi ela, e coisas assim.Mas o fato é que a economia na casa do Sr. Brasil estava equilibrada, as contas eram pagas no vencimento, não havia credores na porta, as compras eram feitas com certo rigor e os filhos podiam andar de cabeça erguida, orgulhosos daquela nova madrasta.

 

Tinham orgulho de vê-la, altiva, falando em nome do Sr. Brasil em todas as partes do mundo, tinham orgulho em vê-la na televisão falando com eles todos, tinham orgulho da sua fala, da sua voz. E mesmo que ainda tivesse problemas,o Sr. Brasil se sentia bem, e estava, de certa forma, feliz, embora soubesse que sua esposa era também o traía e roubava.

 

Durante os oito anos em que a Carioca foi a esposa do Sr. Brasil, a Pernambucana sempre trabalhou nos bastidores e na vizinhança para mostrar que a outra não prestava, que era falsa e arrogante, embora diante dela se mostrasse gentil e atenciosa. A muitos dos filhos do Sr. Brasil ela mentia, dava presentes, dizia que eles não precisavam trabalhar, pois afinal o pai era rico e poderia prover seu sustento. Ninguém sabe de onde ela tirava dinheiro para essas coisas, e alguns até comentam que ela se prostituía a um russo.

 

Assim, a Pernambucana de nove dedos foi conquistando muitos dos filhos, especialmente aqueles mais pobres, e mais especialmente ainda os mais pobres preguiçosos. Dessa forma ela conseguiu ser escolhida a preferida do Sr. Brasil, e finalmente pode desfrutar de todos os luxos de sua principal mansão. A Carioca tinha deixado a casa toda arrumada, uma boa parte dos filhos limpos e indo para a escola, as finanças do Sr. Brasil estavam em ordem, e o milionário, que antes da chegada dela, era tido como um caloteiro, um pé de chinelo, tinha finalmente recuperado o prestigio com os vizinhos, até mesmo os de longe.

 

Uma das primeiras coisas que ela fez foi dar esmolas a todos os filhos pobres, dizendo a eles que não, eles não precisavam trabalhar, afinal eram pobres e tinham que continuar pobres, vivendo da esmola que ela lhes dava. Depois se tratou de se aboletar nos sofás mais finos, de seda e veludo da mansão, e ser paparicada por um cem numero de filhos interesseiros, que a adoravam.

 

Num segundo momento, pegou muitos dos filhos que eram pobres e disse a eles que não, que eles não eram pobres, e que, sim, eles poderiam ir a Disney e comprar carros em duzentas e cinquenta prestações. É claro que a molecada adorou. Enfim, alguém tinha dito a eles que eles não eram pobres, e eles acreditaram. E lá se foram, viajando de avião, comprando carros, fazendo prestações. Estavam felizes, aquela sim era a esposa ideal para o Sr. Brasil.

 

Outra das coisas que ela fez, e que agradou tanto ao Sr. Brasil, e a maior parte dos seus filhos, é que ela sabia que o esposo adorava futebol. Então tratou de trazer uma Copa do Mundo para o quintal dele. Os filhos pagariam a conta, claro, dane-se, o importante é que ela os agradaria, e assim poderia ser a eterna esposa do Sr. Brasil, que apesar de tudo, não achava agora que sua esposa anterior, a Carioca, fosse tão boa assim.

 

Seus filhos estavam mais alegres, podiam enfim fazer o que quisessem, que ela não ralhava. Que moral, por exemplo, o Sr. Brasil tinha para brigar com os filhos que fossem bêbados, já que ela, sua esposa, vivia às voltas com um copo de cachaça? Que moral ele poderia ter com alguém que fraudasse algo, já que ela era aposentada fajuta. E especial e principalmente, que moral ele tinha para instigar e até obrigar os filhos a estudarem, quando a própria esposa, rainha do lar do Sr. Brasil era semi-analfabeta?

 

Durante os primeiros anos tudo correu da forma como Pernambucana esperava: ela dava um monte de porcarias inúteis aos filhos do Sr. Brasil e eles ficavam felizes, enquanto ela mais ainda, pois ali, naquela mansão, cercada de todos os luxos, ela fazia o mais gostava de fazer: nada. Nada a não ser tomar cachaça e fuxicar com as colegas do prédio grande próximo. Era tudo o que Pernambucana queria, e ela não queria nunca mais sair dali.

 

Acontece que a danada da Pernambucana tinha muitos amantes e precisou pedir favores e dinheiro emprestado a muitos deles. Eram os filhos mais espertos do Sr. Brasil, aqueles que ela sabia serem os mais influentes da hora de decidir se ela continuaria ou não.  E então, sem pestanejar um só segundo, ela transou com todos eles. E foi uma louca completa, uma devassa, uma autêntica Messalina. Fez anal, oral, transou em tudo quanto foi lugar. E a todos ela dizia a mesma coisa: que era a ele que ela amava, não aos outros, que queria mesmo era que o Sr. Brasil morresse para que ela ficasse com a herança. Aliás, dizem as más línguas que ela diariamente dava um pouco de veneno a ele, esperando que um dia finalmente ele estivesse moribundo, e, no leito de morte implorasse por ela, por seus cuidados, por seus carinhos, e principalmente que cuidasse como um pai, de seus filhos.

 

Um dia as coisas começaram a ficar complicadas para Pernambucana, e os credores começaram a cobrar o Sr. Brasil, de contas que ele sequer tinha conhecimento. E o que ela fez foi colocar a culpa em alguns poucos amantes, dizendo que tinha confiado neles, mas que eles realmente não eram de confiança. O Sr. Brasil acreditou nisso, e ela continuou gastando o que não tinha, dando presentes caros a seus amantes e mais e mais esmolas a alguns de seus filhos, que passaram, cada dia mais, gostar mais da madrasta do que do pai.

 

Por oito anos Pernambucana foi a rainha do lar do Sr. Brasil, e agora era hora dela deixar a mansão, pois era a regra. Seus planos, no entanto, eram de voltar muito breve a morar na mansão do Sr. Brasil. E então, depois de colocar em prática seu plano maléfico de indicar uma prima, que ela sabia ser burra feito uma porta, fazendo os filhos acreditarem que ela seria exatamente igual a ela própria, e que era de sua inteira confiança, Pernambucana se foi, levando tudo de valor que havia, inclusive presentes que tinham sido dados ao Sr. Brasil, e não a ela.

 

Durante algum tempo os filhos, especialmente aqueles que tinham sido cooptados pelos favores, esmolas e mimos dados pela Pernambucana acharam que ainda eram felizes, e toleravam todos os deslizes da atual esposa do pai, mas aos poucos, ela começou a pensar, que apesar do trato que tinha com a prima, que ficaria ali apenas o tempo suficiente para a volta da outra, ela também estava gostando de morar na mansão. Tratou então de buscar os mesmos amantes da prima, com a diferença que na hora de fazer oral e anal, ela nomeava outra, muito parecida com a prima, para que ninguém percebesse a diferença.

 

Acontece que um dia os amantes perceberam que estavam sendo enganados, e, para piorar, também Pernambucana percebeu. Alguém tinha que fazer alguma coisa para parar aquela mulher, e então montaram uma armadilha, colocando alguns talheres de prata, que na verdade eram falsos, na bolsa dela. Um dos mordomos, que era da confiança da outra foi o encarregado de dar o berro de ladra. E assim, ele próprio pode assumir a governança provisória da casa, até que outra esposa possa ser escolhida pelo Sr. Brasil.

 

E o pobre Sr. Brasil esse momento se encontra extremamente triste, cabisbaixo e preocupado, muito amedrontado, mesmo, pois não sabe se a próxima esposa que os filhos lhe escolherão será alguma amiga intima da antiga esposa, que foi presa, depois que alguns dos amantes contaram ao Sr. Brasil sobre algumas das coisas que ela tinha feito. Ou se será alguma outra, mandona e autoritária, ou ainda uma frouxa e ladra.

 

Até lá, o Sr. Brasil terá que conviver com o trauma psicológico de ter percebido que, no final das contas, todas as esposas, traidoras, ladras e perversas com que ele se casou, e que o traíram e roubaram, eram na verdade suas filhas.

 

Por que diabos nunca tinham lhe contado isso?

 

Araraquara, 05/09/2018

Barata Cichetto nasceu em São Paulo, Capital e atualmente mora em Araraquara. É escritor, poeta, artista plástico, webdesigner e webradialista. Tem 26 livros publicados, desses 14 de poesia. Politicamente define-se como Liberal, e poeticamente como Anarquista-monaquista. Ama Rock’n’Roll e musica barulhenta em geral. Nasceu no Ano da Graça de Madonna, Michael Jackson e Bruce Dickinson.

 
Compartilhe
  • 0
  • 0
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
Assinar
Notificar
guest


Atenção: O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais ao autor, a outro usuário ou a qualquer grupo ou indivíduo identificado. Caso isso ocorra, nos reservamos o direito de apagar o comentário para manter um ambiente respeitoso para a discussão.

 

0 Comentários
Inline Feedbacks
Ver Todos os Comentários

Site Criado Por Barata Cichetto - (16) 99248-0091