Áureo Alessandri – Trump viaja no tempo para alertar Bolsonaro

Áureo Alessandri

Eram quase vinte e três horas em Brasília.

 

O presidente Jair Bolsonaro desfrutava de um raro momento de tranquilidade no banheiro de sua suíte no Palácio do Planalto, comodamente sentado no vaso sanitário, quando um turbilhão azulado irrompe no meio do banheiro.

 

Do turbilhão surge caminhando a figura imponente de Donald Trump, vestindo num macacão de astronauta, mas sem o emblema da NASA. Num gesto largo ele arranja seu topete loiro (tingido) enquanto Bolsonaro, estupefato, tenta tapar a semi-nudez com o celular.

 

Entre o desconforto de levantar-se do vaso e recolocar as calças, Bolsonaro balbucia titubeante:

 

― Que porra é essa? Trump?

 

―  Calma, my friend, Jair. Sou o mesmo Trump que você conhece, mas eu vim do ano de 2023 pra te avisar de uma coisa: Você vai se fuder como eu me fodi.

 

―  Me fuder? Em 2023?– diz Bolsonaro mal levantando a calça do pijama e procurando o botão da descarga, sem tirar os olhos da pele alaranjada de Trump.

 

―  You know… Nós americanos ainda estamos na vanguarda… Inventamos uma máquina do tempo. Eu estou viajando no tempo pra aprender umas coisas e vim aqui te avisar que no futuro você está screwed.

 

―  Mas você está falando português!

 

―  Sim. Como o seu inglês não engrena eu decidi aprender português nas minhas viagens no tempo – diz Trump ainda com seu sotaque novaiorquino.

 

Bolsonaro aciona a descarga e um cheiro desagradável se espalha pelo banheiro. Diante da careta de Trump, Bolsonaro se justifica:

 

―  Desculpa aí, Trump, mas é que você chegou numa hora ruim.

 

―  Não se preocupe, meu amigo. Eu também fiz muitas cagadas.

 

―  Mas e aí? Que negócio é esse de eu me fuder no futuro?

 

―  Eu vim avisar que você vai se fuder em 2022 como eu me fodi em 2020. Você vai perder a eleição como eu perdi, Jair.

 

―  Porra. Que merda!

 

―  Não se preocupe com o cheiro, my friend.

 

―  Me refiro ao futuro…

 

―  Oh yeah, of course. Sorry.

 

―  Mas eu duvido que vá perder, Trump. O povo me adora. Eu sou o mito.

 

―  Não se engane com isso, Jair. Isso é bullshit. O povo não decide a política.

 

―  Nada a ver! O povo me ama. Me carregam nos braços aonde quer que eu vá.

 

― O povo também me amava e olha o que aconteceu. Eles até invadiram o Congresso por mim e não deu em nada.

 

―  É… o Congresso… aqui no Brasil o congresso não me deixa governar. Mas eu posso convocar plebiscitos e colocar a vontade do povo a meu favor – reflete Bolsonaro, lembrando que não teve tempo de se limpar.

 

―  Plebiscito? Bullshit again, Jair. A corte suprema que você tem aqui no seu país cancelaria qualquer plebiscito. Veja o que aconteceu comigo. Eu confiei na Suprema Corte e eles me abandonaram.

 

―  É…o STF… Mas sempre terei as Forças Armadas…

 

―  Quem?

 

―  The Army – Diz Bolsonaro mal disfarçando o orgulho de ter falado duas palavras em inglês.

 

―  Oh c’mon, man! The Army? Olhe pro que aconteceu comigo. Eu achei que os militares viriam marchando quando eu comecei a cantar “Glory,Glory Hallelujah”, mas não apareceu um seal sequer pra legitimar a invasão do Capitólio.

 

―  Peraí! Mas a moça que foi baleada era militar.

 

―   Yes, mas uma militar desarmada… Uma só. Olha aí o resultado… Zero. A imprensa nem se sensibilizou por ela ser mulher. A imprensa nos odeia, Jair.

 

―  É… tem razão. Mas eu confio que o povo vai votar em mim de novo – diz Bolsonaro vasculhando uma gaveta para procurar um desodorizante.

 

―  Votar? The election? C’mon mister president! Eles têm as urnas eletrônicas, man. Eu também confiei que ia ganhar as eleições e olha no que deu. Aquele Sleepy Joe… damnhim! Além disso você não tem nem partido e não emplacou o voto impresso.

 

―  Puxa… por que é tão difícil?

 

―  Ser presidente de direita não é fácil, Jair.

 

―  Me referia a achar um bendito desodorizante de banheiro.

 

―  Oh… Sure.

 

Bolsonaro acha o desodorizante e finalmente borrifa uma dose generosa no ar. Trump respira fundo e faz sinal de positivo com a mão.

 

―  Olha aqui Trump… eu vou fazer a reforma administrativa. Vou enxugar o Estado. Vai ser meu grande feito.

 

―  Eu sei, my friend. Só tenha o cuidado de não fazer a cagada que eu fiz. Cortei as verbas estatais dos principais órgãos de pesquisa científica… Os únicos que serviam pra alguma coisa. Fui enxugar o Estado e damn it! Fiz merda.

 

De tanto falar em merda, Bolsonaro acaba percebendo que não concluíra seu ato devido à chegada intempestiva de Trump em seu banheiro.

 

―  Sabe… Preciso ir de novo…Táoquei?

 

―  Where?

 

―  Você sabe… Terminar de cagar.

 

―  Oh… Well. Não se preocupe, o portal já está se fechando e eu preciso mesmo ir.

Bolsonaro estende a mão mas Trump lança um olhar fortuito para o lavabo. Bolsonaro entende e desiste do cumprimento.

 

Trump caminha lentamente rumo ao turbilhão azul, o portal do tempo, enquanto Bolsonaro se apressa em sentar― se de novo no vaso sanitário.

 

A caminhada de Trump rumo ao portal só é interrompida pelo brado final de Bolsonaro:

 

―   Porra, Trump! Faltou você dizer quem é que vai ganhar a eleição!

 

―  Eu já não sei dizer, my friend.  Cada vez que viajo pro passado o futuro se altera. É como nos filmes de Hollywood. Sinal que ainda dá pra você reverter o resultado…

 

Trump acena e desaparece no portal do tempo, que se fecha, enquanto Bolsonaro solta um peido.

Áureo Alessandri é Engenheiro, escritor, autor do romance Conspiração Andron, e músico das bandas Blues Riders e Delta Crucis.

 
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