Foto: Antonio Costa/Gazeta do Povo/Arquivo

Áureo Alessandri – Manifestações não criam processos políticos

Áureo Alessandri

Tenho tido algumas divergências com algumas pessoas, gente de boas intenções, sobre a eficácia das manifestações de rua que ocorreram no Brasil recentemente.


Pacientemente, me voluntariei a entender qual era a origem da divergência entre mim e esse pessoal super bem intencionado – aquele mesmo que acaba, involuntariamente, enchendo o inferno.

 

Antes que digam que sou contra manifestações e que como alternativa sugiro ficar em casa coçando o saco, já faço o desarme antecipado: Sou a favor de manifestações de rua e defendo que todos tenham direito a fazê-las quando e onde bem quiserem.


A questão é que, ao contrário da maioria, gosto de entender o que vou fazer antes de sair fazendo a esmo.

 

Pois bem. Qual a questão sobre as manifestações então? Por que as pessoas acampam por meses a fio em frente ao Comando Militar do Sudeste em São Paulo há quatro anos e os militares não se mexem?
Por que as recentes manifestações contra o lockdown foram ignoradas solenemente pelos poderosos?

 

Tentarei explicar de forma clara: Porque o poder não vem das ruas e não emana do povo – ao contrário do que afirma retoricamente o primeiro artigo de nossa constituição socialista.


Se você acredita que o poder emana do povo é porque você foi enganado e ainda não se deu conta.

 

As manifestações não são capazes de criar processos e fatos políticos. As manifestações são capazes apenas de apoiar ou não os processos políticos que já estejam criados no âmbito do poder.

 

Não foram as manifestações de rua que criaram o movimento Diretas Já em 1983. O movimento Diretas Já foi engendrado por políticos de esquerda, por ideólogos comunistas e por ex-terroristas anistiados que, através de uma proposta de emenda constitucional, queriam a volta imediata das eleições diretas para cargos executivos.

 

Esses ícones da esquerda montaram um plano bem ajeitado e cooptaram artistas malandros e outros babacas famosos de vários setores, inclusive do esporte – como foi o caso de um famoso jogador de futebol bêbado.

 

As manifestações de rua, gigantescas, apenas apoiaram um processo político que começou em cima, nos corredores do poder, com a paulatina e mal feita redemocratização do país.


Não foram as manifestações de rua que fizeram Dante de Oliveira propor a emenda constitucional.


As manifestações apenas serviram para os políticos afirmarem perante todos que “as eleições diretas para presidente são a vontade do povo”.
O povo foi USADO para legitimar um projeto político cujo teor implícito lhe era desconhecido.

 

Avancemos no tempo com um exemplo mais recente: As manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff.

 

Estive na Avenida Paulista. Mesmo com meu 1,82m tive que ficar na ponta dos pés pra conseguir respirar em alguns momentos, tamanha era a multidão que tomava a avenida e todas as ruas adjacentes.


Mas foi a presença de toda essa gente nas ruas que fez Dilma cair? Não.

 

A verdade é que o PT vinha se indispondo com sua base fisiológica de apoio há algum tempo. Gente do PMDB estava muito insatisfeita com a divisão desigual do produto dos escandalosos roubos ao erário.

 

O PT precisava devolver o investimento feito pelo Foro de São Paulo para eleger Lula e era exigido a abastecer com cada vez mais dinheiro as campanhas de seus parceiros ideológicos em toda a América Latina além de sustentar a ilha parasita de Fidel Castro – o pai do plano todo.

Isso implicou numa redução substancial na parte dos parceiros de quadrilha no Brasil. O PMDB em especial viu seus ganhos reduzidos e viu o PT atacar fortemente seu setor evangélico, cujas campanhas eram bancadas pelos esquemas geridos por Eduardo Cunha.

 

Preteridos na divisão do butim, bastou que o PMDB se juntasse ao PSDB – também insatisfeito por ter sido traído no teatro das tesouras que tinha como pilar a alternância de poder entre eles e o PT – para criar um fato político que fosse capaz de ejetar Dilma do poder central.

Era preciso criar um motivo. Notem que embora participassem e soubessem de tudo, o PMDB e o PSDB nunca acusaram Dilma da compra superfaturada de usinas sucateadas, nem de desfalques bilionários na Petrobrás e nem de financiar obras faraônicas no exterior a fundo perdido.

 
“Pedaladas fiscais”. Algo que o povo mal desconfia do que se trata e que, embora ilegal, era o que de menos pernicioso Dilma fazia ao país.
O movimento para a derrubada de Dilma foi deflagrado pelo PMDB nos corredores do poder numa verdadeira briga de quadrilha e foi juridicamente embasado por juristas pagos pelo PSDB.

 

Os milhões de pessoas que foram às ruas, eu incluso, apenas apoiaram esse movimento político de derrubada de Dilma, afinal “pedalada fiscal” – seja lá o que fosse – parecia ruim.

 

Nós apenas legitimamos o processo político nascido em cima. Apoiamos a causa criada por políticos , que em seguida puderam afirmar perante todos: “é o povo que quer Dilma fora da presidência”.

E o povo não estava errado. Nunca esteve.

 
Errado é acreditar que são as manifestações que criam os processos políticos.

 

E aqui chegamos aos dias de hoje, no governo Bolsonaro.


Razões para irmos às ruas e às portas dos quartéis não faltam. Sobram!

 

Mas qual é o processo político em curso?  ABSOLUTAMENTE NENHUM.


Não há uma causa acontecendo. Há motivos, todos fragmentados, mas nenhum processo político em curso.

 

Uns vão aos quartéis pedir intervenção militar, outros para pedir o fechamento do STF, outros para pedir a execução de Lula em praça pública.

 
Ali do lado, alguns vão às ruas pedir o fim dos lockdowns, outros querem a utilização da cloroquina, outros protestam contra o preço do gás e outros vão pela retirada de nano-robôs 5G de dentro das vacinas chinesas…

 

Tudo difuso. Tudo fragmentado. É por isso que as manifestações tem se mostrado inócuas: Porque não correspondem a nenhum processo político vigente.


E a culpa não é do povo.

 

E, quando chego a este ponto, escuto o rompante de uma parte daqueles que tratam as manifestações como se fossem questão de fé:
“Os militares só vão agir se formos às ruas aos milhões”.


BALELA!  CONVERSA FIADA!

 

Se não for ninguém, dizem que é porque não foi ninguém. Se milhares comparecem, dizem que não é o suficiente e se milhões vão às ruas, dizem que a coisa tem que ser resolvida na base da estratégia, o tal xadrez 3D – coisa que o povo ignaro que não engraxa coturnos não tem capacidade intelectual de compreender.


Basta desse tipo de falácia!  Os militares não agem porque lhes é conveniente não agir.

 

O povo já mostrou inúmeras vezes que ainda está pronto a apoiar o presidente mas é preciso que ele, buscando alguma saída que ainda lhe reste, acenda o estopim de algum processo político que possa ser apoiado pelo povo.

 

Qualquer um.

Áureo Alessandri é Engenheiro, escritor, autor do romance Conspiração Andron, e músico das bandas Blues Riders e Delta Crucis.

(*) Conspiração Andron – Áureo Alessandri Neto
Lançamento: 1 Maio 2017

Tudo o que vemos no presente é consequência direta ou indireta do que foi feito no passado. A despeito de seu privilegiado intelecto, Paul Judd não passava de um jovem desesperançado e com um passado cheio de tragédias. Conduzido por seu tio Robert Henderson – notável físico ganhador do prêmio Nobel pela teoria do tunelamento do espaço-tempo e pela construção da potente máquina capaz de provar sua teoria, Judd se viu mergulhado e protegido num mundo acadêmico por anos a fio, onde pode desenvolver adequadamente seu promissor intelecto. O que nem ele e nem ninguém jamais poderiam prever é que no futuro a teoria elaborada por seu tio pudesse envolve-lo numa diabólica trama de espionagem, morte e mentiras sobre seu próprio passado na qual lhe restasse como guia apenas misteriosos enigmas e mensagens póstumas altamente criptografadas. “Conspiração Andron” é um romance de ficção científica com personagens marcantes e narrativa direta, capaz de guiar o leitor através de um labirinto de drama, romance, espionagem, mistério, suspense e ação que liga o presente com o passado sem que seja necessário apelar para a fantasia pura e simples.

 

Comprar: https://www.amazon.com.br/Conspira%C3%A7%C3%A3o-Andron-%C3%81ureo-Alessandri-Neto/dp/9897745939

 
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Mauro da Silva Xavier

Também me senti usado nas Diretas Já e no impeachment da Dilma. Inclusive o primeiro, aparentemente, foi inócuo, uma vez que a tal proposta não foi aprovada, apesar de milhões de manifestantes em todo o Brasil. O resultado da não aprovação foi uma revolução? Nada, foi um profundo silêncio. Mas… ele foi APARENTEMENTE inócuo, pois o resultado oculto foi atingido. O apoio de grande parte da população aos políticos e terroristas organizadores do movimento, apoio este forte até hoje.

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