Arte: Marcelo MD Tadeu

A Ficção Nossa de Cada Dia: Uma Fábula Fabulosa de Marta Sertã De Paula

2020 foi o ano, que o Reino de Bras-il, assim como toda a Terra, foi invadido por uma terrível doença, que ninguém sabia ao certo como começara, embora as comadres, que se reuniam na Praça de Ua’Sap, insistissem que tinha vindo do distante Reino de Chi’A. Sabia-se que matava e que não existia cura. O pânico estabeleceu-se, principalmente depois que todas as tentativas para erradicar a praga, mostraram-se infrutíferas. A maldita doença passava por baixo de portas fechadas, mesmo com o povo usando panos grossos para tapar a boca e o nariz e quase secando o rio, que cruzava o Reino, de tanto que todos lavavam tudo.


Nada detinha a contaminação e muitos ficaram doentes e morreram. O medo só cresceu, passados os primeiros meses, que foram muito difíceis; não apenas pelos mortos e suas famílias, mas pelo fato que o povo não podia trabalhar (se não fosse o Rei, muitos teriam passado fome, ou virado ladrões para matar a fome dos filhos). Só tinha permissão de sair às ruas, aqueles que serviam, de uma maneira ou outra, à classe rica, que precisava também permanecer em casa, mas sem perder o glamour, a pompa e a pança cheia.


Havia excelentes médicos no Reino, e até o Dr. L-o-l, sempre um feroz crítico do Rei, não aceitou nada fazer e simplesmente deixar o povo morrer, esperando por um antídoto. Após várias tentativas e erros, ele e outros médicos descobriram que certas poções, famosas por curar doenças antigas, funcionavam também no caso do “Covi’Ezenov” – como também ficou conhecida, a Praga do Terror. Uma combinação de ervas medicinais mantinha os pacientes em estágios mais amenos da doença e tornavam-na menos letal.


Infelizmente no Reino, havia também um Prefeito, de nome Marg’rina-agr’pina, que se fingia de legal e amigo do Rei, mas no fundo era um falso, mentiroso e hipócrita. Não estava fazendo nada para ajudar o povo a se livrar do medo e voltar a viver com alegria suficiente para aumentar a imunidade. Contentou-se em providenciar um antídoto com eficácia duvidosa, até porque tinha vindo do mesmo lugar que aparentemente tinha vindo a praga. E ainda atrapalhava muito, usando todos os pombos correios do Reino, para enviar mensagens assustadoras a todos os cantos, sem sequer mencionar os feitos dos médicos. Os bichos voavam atordoados com as mentiras sobre a doença, já que estavam todos vivos e muito bem, pois a vida seguia igual para eles. Sabiam que o povo estava sendo enganado, mas todos tinham sido muito bem ensinados e obedeciam às ordens.


Para complicar a situação de Brasi-il, em um dos três picos mais altos do Reino, habitavam bruxos maus, sempre cobertos com enormes capas pretas, que amaldiçoavam todos os cidadãos, que ousavam falar mal deles ou do Prefeito, um muito bom amigo de todos. Sonhavam com o dia que viveriam finalmente sozinhos no topo, envoltos em luz e deixando o povo na escuridão e escravidão. Eles chegavam ao ponto de dizer que as hienas eram as mais sábias do Reino! E o Rei, o mais idiota. Menosprezavam todos! E ainda riam do povo, por cair feito patinho no papinho que jogavam sobre minorias. Inegável a esperteza deles e a ingenuidade do povo. A tal boa e velha tática de guerra de “dividir para conquistar”.


Um dos amaldiçoados vivia se transformando em cães. Assim do nada! Vinha um, vinha outro, outra e aí, vinha ele. E o povo ficava alvoroçado com suas aparições. Ele era muito doce e engraçado, mas sabia muito bem virar uma fera. Esse pobre humano tentava loucamente mostrar o que estava acontecendo e o povo mal distinguia um abanar de rabo, ou um olhar desconfiado, de um rosnado claro de “pare”. Ele nem sempre conseguia se fazer entender. E o povo às vezes ficava zangado exatamente porque não compreendiam o que ele estava dizendo. Bib’En-afe era extremamente leal ao Reino. Tão leal que teria sido um fiel escudeiro ou guerreiro! Até conselheiro. Mas acho que o lance dele sempre foi o povo. Ele curtia ensinar. E o faro dele era imbatível. Quem sabe, sabe! E cão sempre sabe, pois ao contrário dos gatos, que vem a energia em volta, os cães veem a de dentro.


Outro amaldiçoado, era L’Ob-o, que vivia nas florestas com um bando de outros perseguidos. Era selvagem, mas não tinha nada de assassino. Queria só poder uivar no topo dos morros, sob o luar, em paz! Sua fidelidade era com o bando e, nem sempre defendia o Rei, o que enfurecia um pouco nosso cão-humano. Pena que a vida estava muito difícil e os ânimos de todos muito exaltado. Poderiam ser amigos em outros tempos e outras épocas. Havia também um amaldiçoado, que no lugar do rosto tinha uma máscara de fumaça. Conhecia bem o que se passava em um dos reinos mais amigos e era respeitado até por Bib’En-afe.


Uma outra amaldiçoada, era a Dona Coruja, que piava feito louca, especialmente à noite. Ela tinha um grupo de amigos, ainda humanos, graças à muita proteção divina, que também enxergavam o que se passava. Dentre eles estava Barat’Agul-ha, que bolou um livro onde vários escreviam suas opiniões. Tinha o apelidado de Frenético porque colocava textos incríveis por baixo das portas das pessoas, tentando despertá-las para o que estava acontecendo. Havia também um Quinteto Fantástico, cujo quinto elemento não era amaldiçoado, mas tinha o dom de ficar invisível. Eles montaram um jornal. Tudo para botar a boca no trombone. Os cinco ainda contavam com a parceria de um grande desenhador de verdades, conhecido pelo apelido de Mar”Tchelo Mãos Divinas e toda uma equipe muito boa com as palavras.


O Reino contava também com a ajuda de um mago muito sábio, que conseguia estar presente em vários lugares ao mesmo tempo e ser querido por todos. Hey-man recolhia textos de vários escritores e montava um painel. Semanalmente estava lá o texto do Dr. Ren’Fo-Gaça, compenetrado escritor que procurava sempre mostrar a realidade sem tecer comentários, mesmo sendo um defensor do Reino.


Claro, que o Reino também tinha um bardo! Josef, o Belo, que encantava as mulheres do Reino porque falava as verdades, mas sempre com muita beleza e poesia. Superava-se diariamente só para levar um pouco de luz à escuridão, que se abatia sobre o Reino. E como tocava lindas músicas! Encantadora era também a bela Artista Real, Sil’V-ia, que além de contar maravilhas e muitas verdades ao povo, abria sua biblioteca para o público e ainda exibia lindas pinturas! Ela distribuía pérolas – aquelas que jogadas aos porcos, acabam misturadas à lama, mas que nas mãos certas, viram lindos anéis, pulseiras e colares. Estava sempre cercada de pessoas interessantes, como o escritor Hen’Rik-gon’Dias, cujo sobrenome era o mesmo de um reverenciado escritor, que há muito habitara o Reino.


Bras’Il possuía uma floresta muito famosa, chamada Amaz’On-ia, cuja proteção ficava a cargo das corajosas guerreiras Amaz’On-as. Era uma gigantesca área de terras, repletas de riquezas inexploradas. E muito bem preservada, ao contrário do que diziam, os que a cobiçavam e usavam esta mentira, como desculpa, para se meter em assuntos, que eram do Reino e não da Terra toda. A matriarca do grupo chamava-se Ber’Vid-sta e tinha vasta experiência, especialmente sobre o que rolava por trás dos bastidores da Corte. Volta e meia recebia a visita da Dona Coruja para trocarem ideias. Na linha de frente das guerreiras, estava a imbatível Fla’Ferron-no-ato, que além de chefe da guarda, era uma espécie de faz-tudo. Os homens da tribo eram conhecidos como M’nions e eram chefiados por Walt’Jons, um misterioso guerreiro que nunca aparecia em sua forma humana e mais parecia um desenho, com um chapéu de malandro, que era seu disfarce para enganar os inimigos do Reino, que nem desconfiavam de sua fúria assassina. Uma invasão talvez fosse inevitável e os homens da tribo vigiavam as fronteiras, que por enquanto pareciam seguras, graças a capacidade e perspicácia da diplomata do Reino, chamada Ra’Brug-nera. O Rei contava com valentes patriotas e é até injusto citar alguns e não todos, mas são tantos que esta história não acabaria nunca.


O Reino havia passado um longo período sendo controlado pelos urubus e abutres, que viviam bêbados e só queriam se dar bem. Tudo que queriam, era conseguir um alto padrão de vida às custas do povo. E foi muito aos poucos que o povo foi percebendo que queriam transformar o Bras-Il em mais um Reino Vermelho, onde (todos sabiam), o povo era domesticado e obrigado a obedecer, sob pena de morte. Dois anos antes da Praga do Terror, os cidadãos de Bras’Il escorraçaram a corja do trono e colocaram sentado o novo Rei, que era um homem simples, que falava sua língua. E o mais importante: tinha a mesma vontade que tudo desse certo e o Reino pudesse ter um final feliz. Seu lema era o reino acima de tudo e Deus acima de todos! O povo, exceto claro os que perderam a mamata em seu reinado, o amava muito, pois sabia que ele era sua única chance de se livrar não apenas da doença, mas da pobreza. E finalmente ter um Reino digno do seu nome!

Marta Sertã de Paula: Complicado escrever algo sobre mim atualmente… No Cidadão Alerta estou como arquiteta, administradora, coreógrafa e mãe. Mas atualmente sou ex-isso tudo! Ainda mãe – graças a Deus… Estou mais para aposentada, cidadã e mãe preocupada. Mas acho que não fica bom, né? Então, não sei – crise de identidade total!

 
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