Barata Cichetto – O Jorro do Homem Sólido

Conheço Olavo Villa Couto praticamente minha vida inteira. Não que tenhamos sido amigos de infância, pois sequer parentes somos. Ao menos no conceito legal e social reconhecido, mas em verdade, nos reconhecemos como irmãos, embora nascidos de outras vaginas.

 

Creio que pouco interessa ao leitor quando e como nos conhecemos, mas sim quando nos perdemos, que foi há também um bom tempo. Sempre fomos, um ao outro uma espécie de mútuo guru literário. Desafiávamo-nos o tempo inteiro, e assim crescíamos. Até que vivências e pessoas diferentes nos afastaram.

 

Um dia, logo quando criamos, eu e Luciane Genez, o site Lu Genez Erótica, percebo um nome familiar comentando: era exatamente o Olavo. Estranhei, por nunca o encontrara em lugar nenhum na Internet, já que o sujeito vive ao máximo longe da tecnologia, não tendo sequer um aparelho celular e nem mesmo participa de alguma rede social.

 

Dia seguinte, outra surpresa: recebi um contato oferecendo seus escritos. Não, não podia ser possível! Ele jamais publicara qualquer coisa na Internet. A bem da verdade nem fora dela. O homem tem pilhas e pilhas de escritos, todos cuidadosamente impressos e encadernados, mas são raras as pessoas que tem a permissão de ler qualquer escrito dele.

 

Os textos que Olavo Villa Couto passou a nos enviar para publicação no site eram justamente partes deste livro, que ele escrevera em 2014, e que segundo disse a princípio teria sido escrito para, finalmente ser publicado. O que não acreditei muito.

 

Para minha maior surpresa ainda, quando ele me procurou para diagramar o livro e me enviou o material, quase cai de costas. Nos textos que ele enviava para o site, eu tinha percebido que havia várias referências á poesia, mas achei que fosse até uma provocação dele, já que sabia de sua aversão a poesia. Era nossa única diferença. Acontece que nos originais de “Jorro” constavam vários poemas… MEUS… Liguei para ele (telefone fixo) e perguntei que merda era aquela. Sua confissão foi algo assim:

 

“Escrevi esse livro numa época em que estávamos afastados e eu não tinha notícias, então vasculhava a internet em busca de referências. Encontrei o site A Barata, onde constavam centenas de poesias tuas. Percebi que elas se encaixavam esplendidamente aos meus escritos, já que a personagem que criei é um misto de nossos alter-ego. Concluída novela, guardei, na esperança de um dia reencontrá-lo e lançarmos isso em parceria, já que sempre foi meu desejo fazer isso.”

 

Bem, aqui está o “Jorro”, um texto escrito com maestria, sinceridade e emoção por um escritor absolutamente fantástico, que consegue criar um personagem rico, que a tudo justifica com suas mazelas, tal qual o homem do subsolo de Dostoiévski[1]. Aliás, faço outro contraponto que me envolve profundamente: a forma e a ambientação deste livro têm muitas similaridades com meu “A Mulher Líquida”, e narrado também na primeira pessoa, mas no feminino. Cheguei a brincar com Olavo dizendo que este poderia se chamar “O Homem Sólido”. São incríveis as semelhanças entre as personagens femininas de ambas. A diferença está justamente no protagonismo. É como se “Jorro” fosse a resposta masculina, a antítese, o contraponto. Uma resposta que veio antes da pergunta que nunca foi feita, pois “Jorro”, embora engavetado até agora, foi escrito em 2014, e o meu em 2016, e nenhum dos dois tinha conhecimento.

 

Impressionou-me foi como Olavo, avesso à poesia, complementou quase todos os capítulos, com poemas que não tinham relação direta, mas que no final, parecem conversar com o texto. Afinal, o personagem afirma ser poeta. Seria uma vingança do autor contra a poesia e os poetas? Arquiteto por profissão, OVC, como sempre o chamei (Ôvocê), soube construir – ou seria destruir? – um personagem que, apesar de um caráter falho, sofre e busca nos elementos a razão de tudo, e no prazer a “salvação”.  Um detalhe importante é que em “Jorro” nenhuma das personagens tem nome. Então, aqui está o Jorro de Olavo Villa Couto. Molhem-se!

 

Barata Cichetto, Araraquara, SP, 02 de Junho de 2021, data de aniversário do Marquês de Sade, e também de Angela Maria, protagonista de “A Mulher Líquida”

[1] Dostoiévski – Memórias do Subsolo, 1864

Barata Cichetto nasceu em São Paulo, Capital e atualmente mora em Araraquara. É escritor, poeta, artista plástico, webdesigner e webradialista. Tem 26 livros publicados, desses 14 de poesia. Politicamente define-se como Liberal, e poeticamente como Anarquista-monaquista. Ama Rock’n’Roll e musica barulhenta em geral. Nasceu no Ano da Graça de Madonna, Michael Jackson e Bruce Dickinson.

 
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Genecy

Vou me “molhar” nesse livro em breve. O comentário do Barata me dá segurança para adquirir O Jorro com risco de decepção reduzido a zero.

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