Coronariana Nº 52

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Barata Cichetto


Estou na rua, dois metros ainda longe da calçada. Do lado de dentro da grade, a senhora me olha com fúria: “Cadê a máscara, sem máscara eu não atendo.” – “Calma”, eu respondo, “eu ainda estou na rua.” exibindo a máscara na minha mão. “Sem máscara, eu não atendo, sem máscara eu não atendo. A coisa está feia, a coisa está feia.” Ela repetia, histérica. “Eu só estava olhando para saber se a senhora está atendendo”, respondo colocando a máscara ao subir à calçada, ainda hás uns dois metros. Peço o que fui buscar, e outra mulher se aproxima: “Eu pensei que a senhora tinha se internado para a cirurgia” – “Não”, responde a mascarada histérica, “não vou não. Já pensou, eu me interno pra cirurgia e aí pego…”. “Mas seu caso é grave, não é?”, ainda a outra argumenta. “Não, não quero não. Viu a fulana? Se internou e morreu”. Peguei os cigarros que tinha ido buscar, paguei e sai andando. A dois passos arranquei a coleira do medo, ainda com receio de ter sido contaminado. Há coisas muito mais letais nessa pandemia do que pode supor as teses cientificas de João Dória e companhia. Ou é intencional?

30/05/2020

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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