Coronariana Nº 48 ― Contágio, Sufrágio, Naufrágio

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Barata Cichetto


Poesia, onde andas em tempos de contágio? Em tempos de falta de contato? Agora ela morre, apregoou o profeta, que tinha pés calçados com tênis chinês, máscara Vuiton e o casaco de couro sintético. Em tempo de febre, onde anda a poesia, que já não contagia? Morreu, disse o político de terno, ladrão eterno, com sangue nas mãos. Quem liga? Perguntou o prefeito, malfeitor eleito, com ódio nos olhos e desejo frustrado. Onde anda, poesia, que não atende meus apelos, que me arranca os cabelos e ataca meu coração? Decretaram minha morte por antecipação, por cigarro, isolamento forçado e incompreensão. Quem liga? Perguntou meu filho, de olhar sem brilho, e um quilo de insatisfação. Quem se importa? Questionou o outro, quase um aborto, por contradição. Importa que morra o poeta, feito um profeta, pregando no meio do caos, que não encontra o eco da sua pregação. Uma ideia torta, em meio à gente morta por inanição. Mental. Decretos secretos. Cobertos de má intenção. Quero a poesia que contagia. Um aperto de mão, um grito de pulmão, um sopro de ar. Um suspiro. Não respiro mais. Apenas suspiro. E nesse naufrágio decretado por sufrágio, meu contágio é fatal. Poesia contagia. Poema contagioso do idoso perigoso, auspicioso, à beira de um ataque nervoso ao sistema fundamental. Cuidado, ao terminar de ler meu poema contagioso lave a mão com muito sabão. Use álcool na tela do celular. Poesia é um vírus perigoso. Estou morto!

21/04/2020

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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