Coronariana Nº 46 ― “A única coisa que não muda é que tudo muda.” (*)

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Barata Cichetto


Por enquanto estou poeta. Estou, não sou. Ninguém é, por que ser é estado natural, imutável, enquanto estar é condição de momento, mutável. E posso não estar poeta amanhã, posso não estar nada e em lugar nenhum amanhã. E posso também não ser nada, amanhã. Hoje estou, hoje sou. Em meio do caos, experimento social, ditadores estão. Ditadores são. Natos. Imutável genética. Do mesmo jeito que psicopatia não é doença, mal congênito, ditadores são psicopatas. Natos. Talvez nem todo psicopata seja um ditador, mas todo ditador é um psicopata. Estou poeta, entretanto, mas nesta falsa pandemia, experimento social de psicopatas ditadores, deixei de estar. A verdade não combina com a poesia, mas poesia não combina com a mentira: eis o grande dilema. Mas não tema, que meu lema é nadar dentro do nada. No escuro do caos, sair brilhando, e segurar a tempestade com a mão. Sou humano, ambiguamente humano, estritamente humano; e ser humano é não ser poeta. Não há poesia debaixo das máscaras, não há máscaras acima da poesia. E eu que não uso máscara, e caminho de pés sujos pelas praças proibidas, corro o risco de ser morto, corro o risco de estar morto, melhor dizendo. Que a poesia sobreviva. A poesia é. O poeta está.

(*) Heráclito (540 a.C. ― 470 a.C. )

20/04/2020

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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