Coronariana Nº 37 (Depois do Fim, Respiradores Chineses)

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Barata Cichetto


Depois do Natal o fim do mundo anunciado; depois do Carnaval o Baile de Máscaras; depois da quaresma o Judas não foi morto a pauladas como um boneco de pano amarrado ao poste; depois da Semana Santa, os pecados dos hipócritas à mostra em vitrines de moldura azul claro; depois da Páscoa a ressurreição dos mortos políticos, cadáveres putrefatos com sede de sangue humano; depois do primeiro de Maio, um desfile de famintos, falidos e esfarrapados. Depois, e depois e depois, ainda existirá um depois, antes de mais nada? Ditadores e ditatórias infestarão a nação com sua Ditadura do Voluntariado, irmanados no caos que eles próprios criaram. Na China Comunista ninguém mais se posta diante de um tanque na Praça da Paz Celestial. Em Beijing está tudo bem, graças à Mao e ao produto chinês de baixa qualidade feito com mão de obra escrava. Depois de tudo, haverá o nada. Estaremos todos vazios, mas cheios de verdades; depois do nada estaremos ocos, mas cheios de boas intenções; depois do fim, estaremos tão cheios de nós mesmos que não nos restará senão a escravidão como colônia chinesa, e agradecer por ainda podermos respirar. Com respiradores chineses.

12/04/2020

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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