Coronariana Nº 31

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Barata Cichetto


A pior doença é o isolamento, o esquecimento. Do desaquecimento global, das queimadas e da tuberculose ninguém comenta. Aumenta o volume da televisão e tenha a visão do Inferno. Ouça o que eu digo, só que não. Então, pergunto à madrugada o preço da solidão, e ela disse que ninguém sabe, o valor de nada, mas como disse Wilde, sabem o preço de tudo. E nada sabem do apreço, e do meu endereço. Então desapareço, e não me esqueço de quem esqueceu, de ao menos dizer adeus. Gente com Deus, é o que dizem de si mesmos, trancados na caverna e mascarados nos supermercados. Gostam de números, inúmeros casos por todo o mundo, de Gripe Chinesa, mas esquecem da tristeza, que mata mais que Gripe Espanhola, todos os anos. Violam a Constituição, o direito de andar pelas ruas. Sou um criminoso, violo a sua violação. Rejeito sua proteção. Sou idoso, mas sou ruidoso, insidioso. Te fazem acreditar em livre arbítrio, mas por que então bateu panelas e o outro não? Seu livre arbítrio não é seu, tem dono. Aquele que te prende dentro de casa, que te manda odiar quem prejudica sua caçada. Não fume, que é mal coletivo, não pense, que é mal seletivo. Bata panelas, feche as janelas; siga as regras e abra as pregas. Aos que gostam de números, feminóides, que alardeiam a morte em tempo real, falem dos mortos por abortos; falem da morte por fome, todos os dias. Barata Cichetto, o último teimoso, que não raspa a barba, e não tem medo de furacão. 09/04/2020

09/04/2020

Barata Cichetto, 1958, Araraquara – SP, é poeta, escritor. Criador e Editor do Agulha.xyz e Livre Pensador.

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