Conto: Barata Cichetto – Sitamoia

Barata Cichetto

– FUNDADOR

— Como é mesmo seu nome?

— Sitamoia .

— Sitamoia? De onde seu pai tirou esse nome? Que estranho!

— Não foi meu pai. Meu pai se mandou quando minha mãe engravidou de mim. Um belo filho da puta! Foi minha mãe que escolheu esse nome. Ela contava que era o nome de uma musica, mas eu só fiquei conhecendo há não muito tempo.

— É certo que na escola muita gente fazia piada com esse nome…

— Sim. Me chamavam de “Si Tramóia”, “Xita Mole” e coisas assim. E na verdade, há não muito tempo descobri que a pronúncia correta é “Chitamouía”. Achei a tal música.

— Mesmo? De quem é?

— Uma banda irlandesa chamada Thin Lizzy . É impressionante. Fala de crianças com fome ao redor do mundo. E tem uma batida frenética, quase angustiante.

— Não conheço. 

— Ah, espere! Tenho no meu celular.

Pegou o aparelho da bolsa, tocou algumas vezes na tela e a musica começou a tocar. O inicio era uma bateria forte, num ritmo tribal, muito forte. O vocalista repetindo o titulo e depois umas frases numa língua que não reconheci: “Sitamoia / Sitamoia / Sitamoia / Gidda gadda aga (?) / Sitamoia / Gidda gadda aga (?)  “. Fiquei ali, em pé, no meio de uma praça, escutando, e logo comecei a marcar o compasso com o pé. Era realmente uma música forte. Depois de escutarmos umas três vezes, minha amiga guardou o celular novamente na bolsa, e se virou para ir embora.

— Ah… Assim? Fica mais um pouco!

— Tenho que ir. Deixei minhas crianças em casa, sozinhas.

— Quantas? Quantas crianças tem?

— Duas! Duas meninas lindas… Olha…

Sitamoia abriu novamente a bolsa, pegou a carteira e abriu, me mostrando fotos de duas meninas pequenas. Uma tinha cerca de quatro anos, a outra dois.

— São mesmo lindas. Parecem a mãe…

— Não, não parecem. Parecem com os pais. Uma merda isso!

— Pais? Mais de um?

— Sim, mais de um. São dois pais diferentes. Algum problema?

— Não, claro que não. 

— O primeiro me comeu quanto eu tinha dezesseis. Era rico, tinha muita grana e disse que não ia casar, mas que se eu quisesse daria o nome à criança. Mandei ele enfiar o nome no cu. O segundo, até que foi uma transa legal, mas era um babaca, um fudido que se achava o máximo. A mãe dele insistiu e eu acabei colocando o sobrenome, mas o desgraçado nunca deu uma lata de leite. Todos filhos da puta, é o que são.

— Podia ter processado, exigido pensão…

— Processo? Ah, meu querido, eu não processo ninguém. Eu dei a buceta para esses putos por que estava com tesão. Engravidei de burrice e porque ninguém pensa em prevenir gravidez quando está com vontade de trepar… Então, processar? Ah, leis só servem para encher o saco. Se eu os processasse, o preço seria de que eles estariam toda hora me enchendo, querendo ver as meninas, se achando no direito de ir até minha casa, e coisas assim. São dois fornecedores de espermatozoide, só isso. Não quero nada deles. Dois merdas. Caras que só querem foder por foder. Nem tesão às vezes sentem. Querem comer mulheres apenas para contar aos amigos.  Nem foder direito sabem.

— É, acho que nisso cê tem uma boa dose de razão. A maior parte dos caras que conheço não veem a hora de estar com os amigos, depois de sair com uma mulher, e contar o que fizeram com ela.

— Sim, todos os homens são bons de sexo oral…

— Hein?!

— É, oral… São bons em usar a boca para contar sobre coisas que nem mesmo fizeram. Falar de sexo, mas fazer mesmo… A maioria não sabe o que é realmente sexo. Trepam sem nem tesão. Pau levanta, enfiam, gozam. Só isso! A maioria…

— A maioria…

Sitamoia, que eu tinha conhecido minutos antes daquela conversa na praça, numa lanchonete tomando café, era uma mulher belíssima, de vinte e poucos anos, pernas longas e seios pequenos. Exatamente o estilo de mulher que sempre me deixava de pau duro instantaneamente. Seu modo autêntico e sem freios de falar me excitava mais ainda. Ademais, o fato de ser mãe solteira era um componente adicional. Um fetiche normal, acredito. Eu tinha que esticar aquela conversa até chegar ao ponto que eu realmente queria.

— Sitamoia… — Fiz questão de pronunciar o nome com a entonação correta, que eu tinha percebido na música. — Parece que sabe bem o que quer. De fato, cê tem razão na sua análise sobre os homens, mas não pode achar que são todos assim…

— Todos que conheci eram.

— É… Talvez tenha conhecido homens errados…

— E existem homens certos, por acaso?

— Quem sabe…

— Ah… Já sei. Entendi… Cê acha que é diferente… — Ela soltou uma gargalhada, mas eu fingi não dar atenção. Tinha que demonstrar confiança, ou jamais conseguiria comer aquela gostosa, mas não sabia de que forma. Arrisquei.

— Sabe, no fundo nós homens somos todos carentes, e agimos, por causa das carências, de uma forma aparentemente egoísta.

— Aparentemente?

— Sim! Pense: a necessidade de autoafirmação perante nossos pares, uma imposição de uma sociedade machista… De fato, os homens acabam sofrendo muito mais com o machismo do que as mulheres…

— Ficou maluco?

— Espera… Um exemplo: quando uma mulher é traída, as mulheres se unem ao redor dela, e acabam se tornando parceiras. A mulher traída é sempre tratada com carinho pelas outras mulheres. Já com os homens é o contrário: um homem traído é ridicularizado, tem sua masculinidade posta em duvida, até. A uma mulher traída é dito que o homem que a traiu, marido, namorado, parceiro, é um filho da puta. Raramente uma mulher irá afirmar a uma traída que o desgraçado que a traiu o fez por que ela não era sexualmente uma boa mulher. Já com os homens, o que se diz é que se a mulher o traiu foi por que ele era impotente, bicha, coisas assim. Percebe?

— É bem feito! Provam do próprio veneno.

— Não é bem assim. Nem todos os homens são escrotos e egoístas, mas todos são carentes. Então, compare uma coisa com a outra, na questão do machismo. O homem é instigado a ser rude para não parecer fraco perante aos outros. Percebe o que acontece? O problema é que a maioria não percebe isso, e a decorrência é que acabam sofrendo tanto quanto…

— Ah, isso é uma desculpa de machista…

— Não, não é, não! Outra coisa sobre isso: quantas mulheres acabam com a própria existência quando são traídas ou abandonadas? E quantos homens? Garanto, com absoluta certeza, que a maioria absoluta é de homens. E sabe por que, né?! Justamente pelo próprio machismo. Tem sujeitos que não se conformam, sabem que serão ridicularizados, e não apenas pelos outros homens, mas sua própria cabeça, orientada a isso, lhe cobra, lhe faz acreditar que é um fracassado.

— É… Isso é verdade. Li sobre isso há um tempo, que a maioria dos suicídios por causa de relacionamentos é infinitamente maior entre os homens.

— No fundo, homens são tão fracos e sensíveis quanto às mulheres, mas o machismo o transforma em um monstro. Não se sabe quando isso começou, mas em todos os relatos históricos mais distantes no tempo já falam sobre o domínio do homem sobre a mulher. O fato é que tudo isso vai passando pelas gerações, através da cultura e da genética. Não sei se um dia teremos de fato o fim disso. 

Eu mesmo fiquei surpreso com as palavras que me saiam. Eu não as tinha planejado previamente, sequer tinha analisado o assunto de forma mais profunda, e não tinha grandes estudos a respeito do assunto. Entretanto, quando ouvi aquilo tudo sair da minha boca, não me soou falso. Ao contrário, ao me ouvir, tudo me fazia muito sentido, e parecia que minha amiga tinha ficado convencida sobre a minha teoria sobre o machismo. E isso era muito bom.

— Homens não são todos iguais, Sitamoia, assim como as mulheres. Somos todos diferentes, mesmo guardando algumas semelhanças nas atitudes, na maioria das vezes sem nenhuma culpa direta, já que carregamos geneticamente e somos educados a elas. Não apenas por pais e professores, mas por toda a sociedade que nos rodeia.

— Não queira tirar a culpa de filhos da puta como meu pai e os dois pais das minhas filhas… São maus caráter, mesmo.

— Exatamente. Caráter. Essa é a palavra chave. Caráter independe de qualquer coisa, como gênero, cor, origem. Caráter é uma coisa plenamente individual. Há quem acredita que todos os seres humanos nascem maus-caráteres, e que dependendo dos meios onde cresce, ele acaba sendo polido. Acredito mesmo nisso. Não é verdade aquela frase que diz que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. É o contrário. Pelos conceitos que temos de bom e mal, o homem de fato nasce mal, mas pode se tornar bom de acordo com que o vive e aprende ao longo da vida.

— Interessante, mas pouco práticas as suas teorias…

— Não são teorias… Sei lá, apenas penso assim. E por que diz que são pouco práticas?

— Sendo bem franca: se a gente saísse daqui e fosse para algum lugar trepar, de que valeria toda essa teoria?

— Conhece ejaculação feminina? Já teve um “squirt”?

Booooooom. Aquilo caiu feito uma bomba. Acredito que seu cérebro processou em uma fração de segundos tudo aquilo que eu tinha falado sobre machismo, e quando eu mencionei aquela forma de orgasmo, que ela já tinha escutado falar, ou visto em filmes pornôs, acendeu o estopim. As próximas horas passamos num hotel do outro lado da praça transando feito dois alucinados. Ela conseguiu ter dois ou três jorros, e me confessou que nunca tinha experimentado nada tão profundo. 

Nos encontramos por inúmeras outras vezes, e parecia que tínhamos sido projetados, como duas peças de um motor, para trabalharmos em conjunto. Nos encaixávamos, íamos na mesma direção, com a mesma força, a mesma velocidade e o mesmo objetivo. Éramos peças perfeitamente ajustadas e até cheguei a pensar que existia mesmo alguma espécie de engenheiro construtor que construía as peças, mas que as deixava espalhadas pelo mundo. Cada peça tinha que procurar a outra, embora poucas encontrassem, e até que isso acontecesse, ele teria que se virar com outras que não se encaixavam, ou o faziam parcialmente. Parecíamos criados para estarmos em sincronia, fazendo o motor do desejo girar e fazer a maquina do prazer produzir centelhas absurdas. Éramos parte de uma máquina que produzia tempestades. Deliciosas tempestades.

A música, que fora o início de nossa primeira conversa, passou a ser uma espécie de hino de todas as nossas transas.  Não apenas hino, mas uma espécie de código. Quando estávamos distantes, e um enviasse ao outro algum verso ou mesmo palavra da constante da letra, era o sinal. Então corríamos para onde o outro estivesse e nos deliciávamos. Também era uma espécie de ritual de guerra antes de nossas seções de sexo: eu começava tentando imitar o som da bateria que abre a música, em qualquer superfície disponível e introduzia: “Sitamoia, Sitamoia, Sitamoia”. No que ela emendava com: “Gidda gadda aga Gidda gadda aga”. Naquele momento esquecíamos que o restante da letra falava da fome das crianças ao redor do mundo. Que se danassem as crianças com fome no resto do mundo, quando o que queríamos era matar nossa própria fome de prazer. Sitamoia, Sitamoia, Sitamoia. Gidda gadda aga (?) Gidda gadda aga (?) Gidda gadda aga (?)

Até que um dia, mesmo as peças mais perfeitas, mesmo que tenham sido projetadas e criadas para se ajustar perfeitamente apenas a uma única outra, se desgastam, e assim perdem o ajuste, o sincronismo e começar a ranger, patinar e falhar. Assim, a movimentação do motor fica comprometida e o resultado é falha. 

E assim foi conosco, e depois de um bom tempo, passamos a entender que era preciso encontrar outras peças, talvez não tão perfeitas, e talvez tão desgastadas quanto nós para nos ajustarmos. Não aconteceu nenhuma discussão, nenhum desgaste adicional de nossas peças emocionais. Sem ataques histéricos carregados de uma eletricidade que poderia danificar permanentemente nossos motores, simplesmente deixamos de nos encontrar.

Tempos depois fiquei sabendo que Sitamoia tinha ido para a Europa, e depois desaparecido completamente. Tinha simplesmente saído de casa, com as roupas do corpo, e deixando as duas filhas, famintas e sujas, que foram posteriormente cuidadas por uma irmã. Passara pela Irlanda, pela Escócia e pela Noruega. De lá partira para a Etiópia. Decerto ela estaria em busca de saciar outras fomes, quem sabe das crianças de lá. Ou quem sabe tenha encontrado outras peças tão bem ajustadas a ela. 

Não sei, de fato, a que fomes ela foi em busca de saciar, se a dela ou das crianças do mundo. Não há como saciar a ambas ao mesmo tempo. Sitamoia , Sitamoia, Sitamoia. Gidda gadda aga  (?) Gidda gadda aga (?) Gidda gadda aga (?)

 

21/07/2019

 
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