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Conto: Barata Cichetto – Mingo, o Mendigo

Barata Cichetto


Mingo era um mendigo. Um mendigo de nome Domingos. Que aos domingos era um mendigo. Sujo. Roto. Um mendigo feito outro. Feito outro qualquer mendigo. Que não pedia. Nem esmola. Nem compaixão. Não pedia. Nem impedia. Ninguém. Nada. Um mendigo que não pedia. Fedia. Um mendigo, digo, um perdido. No espaço. No tempo. Um mendigo. De mau hálito. De maus hábitos. Que não era nada. Nem era ninguém. Apenas um mendigo. Desafortunado filho do Fortunato. Seu pai. Mingo o mendigo. Que lambia. Que chupava. Restos de iogurte. E os próprios dentes podres. Mingo era gringo. Americano diziam. E sábio. Sabia o alfarrábio. De cabo a rabo. E sabia que o era capo e coda. E sabia da corda. Da borda. E do limite. De quem acorda. Aborda. Sabia da corda. No seu pescoço. Sabia do pescoço na corda. E de manchas roxas. Nas costas. Conhecia encostas. Bostas. Sabia de cor. E salteado. A conta de mais. E de menos. De mais ou de menos. Ou de mais ou menos. Mingo era menos. Nas contas alheias. E mais nas contas. Da Justiça. Nada lhe fazia justiça. Era justiceiro a seu jeito. Do jeito que se fazia justiça. Na rua. Que era seu palácio. Mingo era Rei. Rei Mingo I. E único. Sua rainha a garrafa. De uísque. Que Mingo detestava cachaça. Era nobre seu paladar. Seu gosto. Tão nobre quanto seu desgosto. De Agosto. A Julho. Passando por Setembro. Na Primavera Mingo era primo. De Vera. Deveras. De veras. Em verdade dizia. A verdade dolorida. Tinha dores. Amores não tinha. Tinha cores. As da sujeira. E a feira. Era livre. E na Sexta-feira era farto. O seu jantar. Na casa de Madame Pompoar. Ou seria “pompoir”. Noir. Avec las femmes. A Madame punha o prato. Cheio de comida. E Mingo comia. A Madame Pompoar. Que sabia gozar. Feito madame. Mingo não gostava de putas.  Que putas não sabem gozar. Só sabem chupar. E lambuzar.  Mingo sabia abusar. Ousar. Casar. Mingo era casado. Separado. Traído. Subtraído. Bom marido. Ferido. Num feriado. De Corpus Christi. Ou de Carnaval. Não lembra bem. Tem sangue na história. E sangue tem poder. De esconder. Mingo foi bandido. Armado. De faca. De matar vaca. Perigoso. Ardoroso. Amoroso. Horroroso. O gesto de Mingo. Que ainda chora. Apenas por chorar. Sem remorso. Sem culpa. Sem tolo. Mingo é um tolo. Por chorar. Lágrimas são sandices. Cretinices. Beatices. Que digam as Clarices. As Alices. Que morreram sem justiça. No País das Maravilhas. E nas Ilhas Maldivas. Três vivas ao político. Três salvas de canhão. Ao louco do caminhão. Três urras. E três surras. Ao poeta sufocado. Mingo era poeta. E nem sabia. Era santo. E nem sabia. Era gente. E nem sabia. Era tudo o que podia. E nem sabia. Que podia. E podia. Não fodia. Vadia. Ardia. De desejo. E batia punheta escondido na marquise. A frente de meninas de minissaia. Que saiam do colégio. Depois de foder seis moleques. E de senhoras. Que não usam leques. Nem echarpes. Sem charme. Nem perfume. Cheiram estrume. Mingo cheirava talco. Ou poderia ser álcool. Dependendo do dia. Dependendo do horário. Do mês. Do ano. Do século. Mingo não tinha relógio. Nem terno. Não recebia elogio. Nem era eterno. Era apenas Mingo. O mendigo. Filho da puta. A mãe era rica. O pai era pobre. O tio era nobre. Mingo tinha um irmão. Anão. Chefe de família. Exemplar. Mingo não. Não era. Não foi. Exemplo. Nem exemplar. Mingo apenas era. Mingo. O mendigo. Nem pobre. Nem rico. Mingo tinha língua. E à míngua. Bebia. Em qualquer bar. Em qualquer lar. A quem podia. Ou queria lhe dar. Odiava o mar. Era sem par. Nem ímpar. Mingo era único. E real. Feito dor. De cor. Da cor. Que tinha. Nenhum amor. Nem sabor. De viver. De sobreviver. Apenas ver. Ser. Sem ter. Pena. Nem compaixão. Mingo era paixão. Devoção. Adoração. Adorável Vagabundo. Imundo. De pernas tortas. Faces mortas. Olhar vesgo. A nesga. Vesga. Mingo. Mingo. Mingo. Domingo é dia. De ser bom. De ir à igreja. Rezar. A Deus. Desprezar. Aos seus. Mingo não. Mingo era ateu. Não teu. Nem meu. Nem judeu. E nem deu. O que falar. Apenas o que calar. A não ser por ter. Os dentes brancos. Risos francos. Mas aos trancos. E barrancos. Manco. Mingo era. E sabia mancar. Mandar. Xingar. Esbravejar. Beijar. Bom amante. Das bacantes. E da Madame lá de cima. A Madame queria ir por cima. Mingo sempre por baixo. Embaixo. Das cobertas. Quente. Mingo era quente. Feito gente. Contente. Decente. Onipresente. Na sarjeta. Lia livros. De Platão à Barata. De Grego a Troiano. Em inglês. Francês. E Italiano. Um carcamano. Mingo. Filho de Fortunato. E sua fortuna nata. Mingo gostava de festa. De bacanal. De missa. E tal. E de dinheiro. De cheque. De cartão de crédito. Internacional. E odiava a bandeira nacional. Das cores. Das dores da bandeira. E seu significado. E Mingo era vesgo. Já disse? Se não disse é porque fui. Cego. Nascido em Agosto. Por desgosto. Do pai. E por gosto. Da mãe. Anunciata. Anunciada. A crônica da morte. Do colombiano. Até a morte. Do baiano. Sem vergonha. Mingo não tinha vergonha. Não cria em cegonha. E dizia que aquele que sonha. O faz sem sentido. Por sentido. Sentimento. Tormento. Mingo quis ser gigolô. Mingo foi preso. Foi solto. Ficou leso. Lesado. Lesou. Pesou na balança. O peso de uma aliança. Pensou na balança. Pensou como criança. Alimentou a esperança. E no Cavaleiro. Foi cavalheiro. Conselheiro. Sofreu com a injustiça. Folgou com a Justiça. A carniça. E com a preguiça. Comeu pão com linguiça. E salsicha. Comeu uma bicha. Teve medo de lagartixa. Quis ser engenheiro. Mas foi carpinteiro. E sua maior construção. Foi dar aos filhos instrução. Mingo sabia o que era importante. E o que importava. E o que não. Não se importava. Importava drogas do Paraguai. Do Uruguai. E de Guaianases. Mingo sabia o que era bom. Sabia o que era mau. E sabia o que era mal. E tal. Sabia que ser gigolô. Não era bom. Nem mal. Nem era o bem. Nem era o mal. Não era. E Mingo não foi. Só quis. Ser. Casou com virgem. Que teve vertigem. Na noite fatal. Que teve cólica de rim. No dia do fim. E Mingo era assim. Cheio de si . Cheio de sim. Vazio. Oco. Louco. Mingo. O mendigo. Era o tal. Fatal. Sem eira. Nem beira. Que agora cuspia dentes. Aos pedaços. Cuspia impropérios.  Aos néscios. Cuspia saliva. No prato que comeu. Comia. No prato vomitado. Cuspia fome. Aos capitalistas. E ódio. Aos comunistas. E aos artistas. Ciclistas. Maoistas. Mingo era um misto. Quente. Assado. Assim. Era autor. Escritor. Um trator. Quando invocado. Equivocado. Evocado. Cavado. Mingo. Mingo correu. Mingo escorreu.  Mingo morreu. Mingo. O mendigo. Assim. Como termina esse conto. De repente. E sem pé nem cabeça.

 

25/06/2017

 
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Lu Genez

Além do texto ser fenomenal, o jeito de escrever é digno de inveja (a minha, no caso).

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