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Conto: Barata Cichetto – Mantenha a Esquerda Livre

Barata Cichetto


Da cabine de operação do trem, G. já tinha visto tanta coisa que achou que poderia até escrever um livro, somente com as cenas que presenciava de dentro daquele espaço diminuto, pelos vidros do trem.


De amassos e discussões mais intensos entre casais de namorados de todos os gêneros a brigas de bandidos e torcidas de times de futebol, roubos e até suicídios e assassinatos, as cenas das mais bizarras e estranhas, foram vislumbradas na maioria das vezes por poucos segundos, enquanto o trem atravessava o trecho da estação.


Há muitos anos trabalhando nessa linha, G. fazia o mesmo trajeto muitas vezes durante o dia, e já conhecia os rostos de centenas de usuários, que todos os dias num determinado horário subiam e desciam do trem. Normalmente, sabia ele, as pessoas quase não mudam o local da plataforma onde embarcam. E fazem isso, analisava ele, para se sentirem como se aquele pequeno pedaço de chão de uma plataforma de trem, coberto com borracha com desenhos em forma de círculos, fosse seu território. E embora aqueles rostos fossem vistos apenas por alguns segundos ele já os conhecia, e até percebia quando um homem tirava a barba, por exemplo. Podia mesmo quase que criar uma história para muitos daqueles passageiros, apenas com base nas suas observações diárias.


Sabia, por exemplo, do homem que tinha uma amante, pois sempre às seis horas da tarde ele estava na plataforma da estação acompanhando uma mulher. Despediam-se com um beijo, e ela entrava no trem, mas quando G. passava pela mesma estação, na viagem de retorno, lá estava o homem, no sentido contrário onde tinha deixado a primeira mulher aguardando por outra. Quando se encontravam, ela a beijava e lhe segurava na mão. Com essa segunda ele embarcava. 


Histórias como essa G. via de dentro de sua cabine de operador de trem. Ele anotada tudo, primeiro mentalmente, e num enorme caderno quando chegava a casa. Ele queria ser escritor, e um dia escreveria todas essas histórias e, quem sabe seria até um escritor famoso, dando entrevistas em programas de televisão, ganharia muito dinheiro e deixaria aquela vida que não lhe permite ter feriados ou finais de semana livres, em função da escala de serviço.


Queria morar numa cabana, ao estilo dos escritores de filmes americanos, longe de trens de metrô, plataformas, trilhos, túneis, cabines apertadas, quentes e mal arejadas. Queria uma vida simples, com todo o silêncio que pudesse ter, sem ter que ouvir aquela campainha de sinal de fechamento de portas, aquelas gravações de – cuidado com o vão entre o trem e a plataforma, e coisas assim. Estava cansado de ver os mesmos rostos nas plataformas, os mesmos trilhos a sua frente, várias e várias vezes por dia. Cansado de apertar os mesmos botões e puxar a mesma alavanca para movimentar o trem, centenas de vezes por dia Cansado daquela mesmice, daquele cotidiano sem emoção. 


Aquele dia em que tudo aconteceu começou igual a qualquer outro, com G. chegando ao trabalho no meio da madrugada e assumindo sua função de levar o trem até o ponto designado para o inicio da operação comercial. Aquilo era praxe, todos os dias de trabalho e G. fazia aquilo de forma automática, mas aquele dia ele não se sentia bem. Acordara angustiado, triste e indisposto. A cabeça doía, os olhos ardiam e G. teve vontade de inventar alguma história para ir ao médico e depois voltar para casa.


G. abriu a porta da cabine, sentou-se no lugar do operador, aguardou e sinal do Centro de Operação e acionou os comandos para liberar o trem e colocá-lo em movimento. Sentia um dor estranha no peito também. E os olhos estavam embaçados. Sentia muito sono. Um sono quase insuportável.


G. queria ser escritor, queria sair daquele trem correndo, mas tinha que cumprir seu trabalho. Tinha que deixar aquilo tudo de lado e cumprir seu trabalho, afinal tinha contas a pagar e uma mãe doente que precisa dele e de seu trabalho para sobreviver. Aprumou-se no banco e mirou o par de linhas dos trilhos a sua frente.


Os alto falantes da estação anunciaram o inicio da Operação Comercial. G. acionou os comandos e abriu as portas do trem. Os passageiros começaram a chegar à plataforma e entrar. Mais um dia de trabalho para G. e para a maior parte das pessoas que estariam nos próximos minutos dentro da barriga daquela minhoca eletromecânica, esperando chegar bem e cumprir seus destinos. G. queria ser escritor, mas agora era apenas o operador dos destinos e sonhos daquelas pessoas. 


G. olhava para os trilhos através do vidro, e imaginava que eles bem que poderiam leva-lo à sua cabana de escritor, longe, bem longe dali. E aquele trem, aqueles rostos familiares, mas totalmente desconhecidos, aquelas histórias que só existiam em sua imaginação, aqueles botões e comandos do trem, tudo aquilo seriam apenas cenários e personagens de seu livro. Seu grande livro. E G. ainda sonhava com isso quando tudo aconteceu.


Ele ainda sonhava, quando lhe aconteceu um infarto fulminante. Tudo muito rápido. G. nem teve tempo de acionar a alavanca para movimentar o trem. Nem teve tempo de anunciar a próxima estação, nem teve tempo de se despedir dos seus personagens que iriam continuar a existir sem ele. Seriam personagens que agora não teriam mais seu escritor. O homem que tinha uma amante, por exemplo, não mais teria sua história contada por ele. Os outros rostos também estariam condenados ao desconhecido. Jamais seriam escritos, descritos. Todas aquelas cenas, todas as histórias, reais ou imaginadas continuariam a existir, mas agora sem um escritor. 


Os personagens reclamaram, gritaram, chamaram por tudo. Mas não porque o escritor estava morto, que eles nem sabiam da existência dele, mas pelo fato de que o trem do Metrô estava parado e cada um ali tinha um destino a chegar.


29/08/17

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