Conto: Barata Cichetto – Madalena

Barata Cichetto

— Guardei um pedaço de bolo do meu aniversário. Tem tempos que não aparece por aqui.

— Do seu aniversário? Uai, seu aniversário não é em Junho?

— Sim, é em Junho. Dois de Junho.

— Mas, Madalena, estamos em final de Outubro. Tem quase quatro meses! Esse bolo…

— Tudo isso? Ah, nem percebi… Deixa eu jogar esse bolo no lixo. Deve estar até podre, né?!


Assim era Madalena. Um coração de ouro, mas um cérebro tão podre quanto um bolo de quatro meses deixado fora da geladeira. Muitos diziam que era por causa dos sofrimentos imputados por três casamentos com homens violentos e inescrupulosos, outros que era por causa dos três filhos que tivera antes disso, com três pais diferentes. E havia o que apontavam as quantidades enormes de álcool que ela consumia nos últimos anos, além de dois maços de cigarros por dia.


— Quer dizer que tem quatro meses que não aparece. Quatro meses que estou sem trepar? É isso?

— Tem esse tempo que não trepa comigo, Madalena, mas não sei se está realmente sem trepar. Do jeito que é…

— Olha só. Não adianta, ninguém confia em mim. Cê acha que só por que me conheceu saindo com tudo quanto é macho, que sou uma puta, né?!

— Não acho que é uma puta, mas sei que adora um pau na buceta, isso é fato, não?!

— Adoro, sabe que sim. E qual é o problema de uma mulher gostar de pinto? Eu gosto. Sempre gostei e pronto. Mas isso não quer dizer…

— Certo, Madalena, desculpa, não quis te ofender, não. Deixa quieto!

— Deixa quieto! É… Melhor…

— Com saudades de mim?

— Claro que sim. Onde andou esse tempo inteiro? Eu fiquei guardando o bolo, queria que comesse dele. Fui eu mesma quem fiz. Estava muito bom.

Além de um coração, Madalena tinha outras partes do corpo que poderiam ser consideradas como magníficas. Uma delas eram as mãos: tinha um dom para preparar doces e salgados que era impressionante. Tudo o que fazia era absolutamente delicioso. A outra parte, lógico, era a buceta.

— Ah, minha adorada, sabe que sou um sujeito um tanto cigano, nunca paro em um único lugar. Minha mãe dizia que eu tinha nascido com rodinhas nos pés. Não consigo ficar num lugar muito tempo.

— Acho que está mentindo. Tem outra família, né?

— De onde tirou isso? Não tenho ninguém. Não sou sujeito de família, essa coisa de ter mulher esperando em casa, filhos remelentos, emprego fixo. Sou um artista, e artistas precisam de liberdade. Famílias são a pior espécie de prisão que criaram. Uma penitenciária para onde entram sem julgamento, e de livre e espontânea vontade. Não, não tenho nenhuma família. Nem quero. Se é que tenho algo parecido é só contigo, mesmo.

Madalena parecia um tanto decepcionada, mas sabia que eu não poderia lhe prometer a fidelidade conjugal que ela sonhara. Seus antigos maridos eram mulherengos e dois deles tinham outras famílias, incluindo filhos, e o terceiro era homossexual e dado a promiscuidades e libertinagens que ela aceitava não por gosto, mas para não sofrer mais injurias físicas.

— Que tal a gente tomar um banho bem gostoso e depois ir para cama e foder a noite inteira, hein, Madalena? Que acha?

— Foder a noite inteira tudo bem, mas preciso mesmo tomar banho?

— Ah, cê não tem jeito, mesmo. Quando foi que tomou banho?

— Ah… É… Ah, sim, foi ontem… Ontem eu tomei banho.

— Não mente. Cê nem lembra quando foi, né?!

— Não minto. Não lembro. Mas acho que não estou fedida, não!

— Madalena, as mulheres sempre têm mau cheiro na buceta. Urina, menstruação, coisas assim. Precisa higiene, né?!

— Ah, mas eu uso aqueles lenços umedecidos. Minha buceta é cheirosa…

— Sem banho, sem pinto! E pronto!


Não eram raras as oportunidades em que eu tinha que usar de chantagem com Madalena para que tomasse banho, cuidasse dos dentes e coisas básicas. Ela simplesmente não tinha a menor noção da importância de certas coisas. Tempo, obrigação, responsabilidade, horários, nunca fizeram parte do seu cotidiano. Para ela tudo, a não ser fazer sexo e comida não tinham a menor importância.


Depois de uma hora mais ou menos Madalena saiu do banheiro, com uma toalha enrolada no corpo, tentando desengonçadamente ser sensual, com jeitos desajeitados, tropeçando nos chinelos e derrubando os bibelôs de cima da cômoda. Eu fingia que sua exibição era excitante apenas para não quebrar o clima, e por saber que embora ela não fosse exatamente uma performer, no momento em que se deitasse na cama, deixaria boquiaberta qualquer atriz pornô. Ali ela perdia qualquer espécie de controle e nunca se detinha por qualquer preconceito. Ela foi a única mulher até agora que tinha chupado meu pau até o final, e, além disso, engolido todo o esperma, coisa que é muito comum em filmes pornôs, mas raro além disso.


Depois de completamente saciada, ou melhor, depois de muito cansada, pois segundo ela própria afirmava jamais estava saciada, ela adormeceu.

No dia seguinte, já no meio da tarde acordei. Madalena ainda dormia, e decerto dormiria o resto do dia. Eu não poderia esperar que acordasse, e assim coloquei minhas roupas, fiz um café e tomei acompanhado de um pedaço de pão duro que tinha na geladeira, embrulhado num guardanapo, depois enchi a garrafa térmica e fui embora.


Assim era eu: um cérebro de ouro, mas um coração tão podre quanto um bolo de quatro meses deixado fora da geladeira.


 
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