Charles Burck – Dona Santinha

Charles Burck


Lourenço só tinha a escola regular para dar vazão à sua sede de saber, apesar de ser um menino quieto e calado, tinha fome de aprender e a sua avó Normanda percebeu isso. Como era comum sentar-se à porta de casa, não como se diz para fuxicar, mas em primeiro lugar era para livrar-se do calor de dentro das casas, pois não existia ainda ventiladores elétricos, assim Dona Normanda conversava muito com seu neto Lourenço, coisas da vida e do mundo, com uma forma profunda e peculiar de ver os fatos, ela adentrava no âmago de tudo, filosofava, não dava apenas conta de relatar, era necessário explicar e mais, compreender o que levava cada evento ser ou acontecer. Não bastava abrir um livro era preciso ler nas entrelinhas, decifrar cada palavra no seu contexto, mas era pouco, ela queria o seu neto homem letrado, se pudesse que ainda vivesse para conversarem longas e produtivas conversas, por isso ela gostava de Dona Santinha, tinha conteúdo, podiam elaborar uma prosa sem descambar logo para uma fofoca ou maledicências. Ela era mais, tinha essência, assim pensando ela pôs Lourenço a estudar aulas de piano e de canto. 

 

Eram duas aulas por semana, uma de canto, outra de teoria musical e piano. Logo se via que Lourenço tinha pendores, era mais que aplicado, tinha o dom e a cada hora e meia de lições musicais Lourenço aprendia mais, aprendia sobre história da música e das artes, comportamento, boas maneiras, boa postura e civilidade. Aprendeu sobre filosofia e modos de ver a vida, de desenvolver questões intricadas sobre a existência, sobre os porquês que vivemos e a perceber que havia mais do que vemos, mais do que podemos ver, que somos mais do que somos.

 

Dona Santinha era mais que uma mulher, tinha uma aura, fascinava, por vezes Lourenço precisa se esforçar para se por no chão, sair da magia que ela emanava. O que ele sabia de mulher era dos abraços de sua velha avó, do carinho do aconchego dos braços pesados, dos seios fartos quase a lhe sufocar, pequenino, como uma galinha a acolher o seu pintinho sob as asas. Dona Santinha dava surpresa à existência, havia mais a ser, estando com ela, era bom de sentir o seu perfume, mas eram muitos, a cada dia um. Era o seu porte, o seu olhar, seus braços brancos de pelugem dourada quando contra o sol, se era a noite parecia luar num afloramento de luz branca, a boca vermelha de sorrisos relaxados, os olhos de verde profundo onde só se queria mergulhar. Não era uma mulher, era a mulher — a fonte de ser que poderia ser cantada por Deus, pelos poetas, por todo mundo, mas ficariam todos, sempre a dever tudo o que era ela. Era mais, era a mulher que dava ao menino o direito à vida.

 

As aulas para Lourenço eram os momentos mais especiais, desejados, almejados, ia com vontade e com prazer à elas, ao findá-las ele ficava estático como se não quisesse sair daquele estado de alma.

 

Ela, Santinha, era só elogio a ele e a ele e somente a ele ela abraçava e beijava com elevo, o elevo de quem via no rapazinho a arte inspirada e viva e a ele isso fazia bem, mesmo só pensar em estar com ela. Bastava a presença, mas era bom ver  o seu corpo meio maduro, mas ele a olhava sem as malicias dos adultos, era como se uma entidade mágica estivesse ali representada, uma fada, uma princesa, uma rainha. Era bom, ainda que ele não entendesse o que se passava, o que restringia o expressar, não entender ultrapassava o seu saber, mas o atingia em cheio nos sentidos e era ilimitado, o não entender lha dava asas plenas, mas teria mais, mais do que a alma de um menino pudesse conceber. Era sentir sem saber explicar, era desejar sem o peso do desejo, era transcendental, era a face angelical, o pescoço esguio, os seus seios empertigados que pareciam dois montinhos esperando alvorecer. Eram as mãos dela macias quando o tocavam e o faziam esquecer as notas, tudo nela era delicado, suave, brando, e a voz dela perto do seu ouvido era mais melodiosa que qualquer peça de Vivaldi, era solfejos de Beethoven entremeados de Mozart e Bach, mas Lourenço nunca vira os seus pés dela durante as aulas, assim como nus na procissão, sempre vestidos estavam, de meias e sapatos fechados.

 

Na vida, era uma boa forma de quebrar a inocência de Lourenço a proximidade com Santinha, a ele, era bom não entender o que se passava. Era uma forma poética, estranha ao seu pensar, mas era uma loucura abençoada, cheia de graça e sentido de louvor. Era um interesse de querer saber, mas mansamente intensificando a chama do intelecto, amoldando-o à condição humana do desejo masculino de se fazer homem, de uma maneira cheia de doçura, a acontecer, mas tinha mais, Lourenço sempre chegava antes da hora, era uma maneira sua de alongar a estada com ela e a ele ela permitia que entrasse sem ser anunciado e assim ele fazia, chegava a passos suaves quase alçados do chão de tão leves. Numa tarde-noite ele chegou, entrou e a procurou na sala e não a viu. A chamou e não ouviu resposta, foi então caminhando pelo longo corredor da imensa casa e pode vê-la no quarto ainda envolvida nas toalhas pela porta entreaberta.

 

Ele ficou estático, nunca havia visto uma mulher nua, ainda que enrolada em toalhas e menos ainda uma deusa. As suas pernas tremeram e os pés ainda que ele os mandasse caminhar, não obedeciam. Podia vê-la inteira, costas para a porta e a frente diante do espelho inteiriço que a mostrava toda.

 

Naquele instante da mais profunda magia, deu-se a transfiguração do menino no homem e a metamorfose da borboleta na fêmea.

 

Ao que antes apaixonado, apenas, pelos pés descalço, agora sonhava em estar vendo mais, os tinha agora tomando os seus olhos em plena realidade, mas parecia sonho e tinha mais, ela o atraia, ardente, irrecusável poder de atração e roubava-lhe o ar, a faculdade de ação, era o escravo aprisionado à teia, indefeso, desejando ser cotejado pela aranha.

 

E o mundo parou, nada mais havia a não ser ele e ela, a não ser ela e ele, e tudo o mais deixou de existir, ou tudo seria ela? Era ela as artes, os sons, as músicas, as letras, os tempos, as religiões, o sólido e o líquido, a terra e o outro mundo, o céu que o inspirava e o inferno que não existia?

 

Ele sentia sim o próprio corpo, o rosto afogueado pelo fluxo intenso, descomunal do sangue impingido pela bateria desgovernada do coração, os intestinos e a bexiga a ponto de cometerem uma traquinagem, a boca apalermada e os olhos abobados atraídos pela miragem.

 

E ela o viu?

 

Não se sabe se ela o percebeu, cremos que não, não ficaria bem à nossa santificada professora a pecha de sedutora de menores, mas sabemos que naquele entardecer, ela demorou mais do que era normal a se apresentar na sala de aulas, assim enquanto o menino estava imobilizado, e a vida fazia exercer a sua função de transformar meninos em homens, ele a viu deixar cair a tolha, primeiro a do corpo e depois a da cabeça e a cascata de cabelos loiros descer.

 

As linhas e os contornos desenhando em graça de mulher a deusa disfarçada, dos volumosos cabelos ao pescoço nobre, os seios arredondados em beleza e graça rosada, a cintura fina e os quadris largos, os pelos alourados púbicos, as pernas esguias, tudo a movimentar-se em perfeito equilíbrio, a aplicar os óleos e cremes com a delicadeza das mãos. Descendo do rosto aos pés. Os pés…O que era vida e mundo e o que era ser e sentir-se, algo indefinível e que jamais poderia ser explicado. Estranhos sentimentos, incontroláveis emoções vinham à alma dele e a ação correspondente é igualmente incontrolável se dava no corpo; e era como se uma junção à distância se desse, como se ele e ela pudessem se fundir em um, o peito pungindo e os braços pendentes, e indolentes mãos querendo tocá-la, saber como era, o que era ela. Uma e uma, marés de influxo da carne pelo amor tomada, passou a inturgescer de dor e deliciosamente a responder em inesgotáveis jatos quentes e viscoso. As pernas dele trêmulas e visgo do amor a descer por elas, e ele ante o desconhecido, alucinado, deu concentração e comando a elas, e correu.

 

E em casa disfarçando a calça manchada disse a avó que teve um descontrole intestinal e à noite deitado se abateu de febre.

 

Dona Santinha, no dia seguinte, diante da ausência do aluno preferido, foi á casa dele e o encontrou de cama abatido por algum efeito colateral do amor. Porém, não há mal que dure para sempre e ele se recuperou, aos pensamentos que não se iam feito aves famintas se abastecendo das imagens que vinham da mais linda pessoa do mundo, nele ganharam desejos de mais. Não sabia ainda entender o porquê, mais precisava dela, de sentir de novo a experiência, ter de novo a presença, ainda que só com os olhos, dela, porque não podia viver sem ela e ela era o imaginar mais e o mais seria o inatingível e inconcebível pensar. Como ele não sabia que podia mais, existia apenas o olhar, não existia mais do que apenas o olhar, mas valeria assim então ver, não para saber, mas para sentir. Sentir pela segunda vez, porque sentir apenas uma vez é como ver e não saber que viu, como se apenas fosse algo contado.

 

E ele chegou cedo outra vez e pode de novo admirar encantado a deusa da pele rosada, despida, nua, somente dele, mas teve mais, tiveram outras vezes, tantas quantas foram as aulas, até que ela se casou.

 
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1 Comentário
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Isabeau dos Anjos

“..assim enquanto o menino estava imobilizado, e a vida fazia exercer a sua função de transformar meninos em homens, ele a viu deixar cair a tolha..” frase sublime e um conto todinho maravilhoso. Capturou de forma tão delicada essa passagem!! Me encantou !

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