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Conto: Barata Cichetto – Cuidado Com o Vão Entre o Trem e a Plataforma

Barata Cichetto


O lotação descia a rua. Acenei com o sinal de parada. Subi os degraus e enquanto passava o cartão de pagamento pelo validador na catraca, procurava com os olhos um lugar. Poucos disponíveis. E um deles junto a uma garota muito bonita. Clara, cabelos loiros. Dei alguns passos no corredor e me sentei ao seu lado. Ela digitava freneticamente com os polegares no teclado de um celular. Tela aberta no Whatsapp. Inconfundível.


A garota bonita não olhava de lado e nem para frente, nem pela janela. Apenas para o celular. Mas eu olhava. Olhava para tudo o que ela não via. Incluindo suas belas pernas, o decote sincero e honesto da blusa de seda verde, os mamilos quase furando. Olhava para seu rosto, alvo e sem máculas. Olhava para seu pescoço liso e seus pés adornados de sandálias trançadas de tiras vermelhas. Ela não me via. Eu a enxergava. E até a imaginava. Em outros lugares, em outras posições. Em outras situações. Ela não. Não tirava o olhar do celular. Nem percebia meus olhares. E nem os olhares de outro passageiro, sentado no banco do outro lado do corredor para suas pernas.


Inquieto e tentando não parecer idiota a mim mesmo, tirei meu celular do bolso e comecei a olhar algo, num jogo de imitação para tentar chamar sua atenção. Incomodado com a idiotice do meu ato, guardei. Abri o livro que tinha nas mãos, mas não conseguia ler. Me mexia no banco, cruzava e descruzava as mãos, tentava olhar o caminho, que, aliás, eu conhecia deveras bem. E a garota loira e bonita não parava de olhar fixamente e de digitar com seus finos polegares, que, aliás, tinha unhas muito bem pintadas.


Chegamos à estação do metrô. Ergui-me e saltei do coletivo, sempre prestando atenção nos passos da garota, que saltara logo após, mas que não soltava o celular e nem parava de digitar. Andando e digitando pelos corredores e escadas rolantes da estação. Na catraca de acesso, ela enfiou a mão direita na bolsa e retirou o cartão, passando-o no validador, sem, no entanto parar de digitar com a esquerda, num sacrifício absurdo de segurar e digitar.


Na escada rolante que subia, deixei que ela passasse à minha frente, para poder observar seu corpo. As pernas eram ainda mais lindas vistas de baixo. A bunda era mais perfeita. E enquanto a escada subia, ela digitava e chegou a perder o equilíbrio por não estar se segurando no corrimão, mas nem por isso parava de digitar. Um homem apressado subia pela esquerda, pulando os degraus de dois em dois e quase a derrubou. Ele não percebeu. Ela não se deu conta. Continuamos a subir.


Na plataforma, ainda sem parar de digitar no celular, se dirigiu a área de embarque e parou bem além da faixa amarela de segurança. Puxou a bolsa para junto do corpo e continuou a digitar, de cabeça baixa, por horas mordendo os lábios demonstrando nervosismo, talvez.

Ao seu lado, um passo atrás, eu ainda tentava imaginá-la em outra situação, tentava ver seus olhos, perceber alguma reação, alguma emoção, imaginando o quão era importante era aquela conversa por celular. Nada.


O vento forte que veio do túnel indicava que o trem se aproximava. Seus cabelos loiros se rebelaram e voavam por cima do seu rosto, mas nem assim ela esboçou qualquer reação, nem parou de digitar. O trem despontou no inicio da plataforma. Ela digitava. Eu a olhava. Ela não. Eu tinha me apaixonado por ela. Ela nem sabia da minha existência.


Percebi quando levou a mão a cabeça, e de súbito, seu corpo foi arremessado para os trilhos. Não tive tempo de perceber se ela se desequilibrara e tinha feito aquilo propositalmente. O trem parou metros a diante. As pessoas na plataforma corriam e gritavam. Muitas, de celulares em punho fotografavam. Seguranças do Metrô gesticulando, nervosos e gritando. Pessoas fotografando com seus celulares, digitando.


Olhei para o chão, ao lugar ao meu lado onde ela estava. Seu celular ligado. Abaixei-me e olhei para a tela, onde estava estampada a ultima frase que aqueles polegares finos tinham digitado:


— “Não me abandone!”.


26/08/2017

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